quinta-feira, 17 de março de 2011

Sobre o preconceito com os cursos de tecnologia

Bom, estou aqui fazendo este post porque primeiramente, até hoje ainda existem pessoas (e instituições) que insistem em desprezar os cursos superiores tecnológicos, em relação às outras categorias: bacharelado, licenciatura e engenharia.

Na realidade, tudo começou há uns 6 meses atrás, quando estava conversando com um professor (que não vou citar) sobre uma pós-graduação oferecida em uma universidade pública federal aki no Tocantins. Ele tentava se justificar de diversas formas sobre a não possibilidade de ingresso de pessoas que se formaram no CST de Sistemas para Internet do instituto, alegando que algumas matérias essenciais para a pós-graduação não estavam presentes no curso. Eu sei que no final, ele soltou a máxima "só graduados podem fazer a pós-graduação". Na hora entendi o argumento das justificativas e até tentei discutir, mas em vão.

Bom, de lá para cá eu deixei isso um pouco de lado e então uma discussão no twitter que ocorreu na semana passada reavivou a discussão sobre cursos tecnológicos serem menos capazes que os outros cursos de graduação.


Em vista disso, resolvi escrever este post e elucidar à estas pessoas de mente pequena sobre esta questão e também falar um pouco das outras modalidades de cursos profissionalizantes que existem, pois muito dessa confusão ocorre por conta da falta de informação sobre o assunto.


Curso Técnico, Sequencial ou Tecnológico?

Em primeiro lugar os cursos tecnológicos são cursos superiores de graduação da mesma forma que os cursos de bacharelado, licenciatura e engenharia. Já os cursos seqüenciais são cursos superiores, porém não são de graduação e por último os cursos técnicos são de nível médio profissionalizante. Esta é a grande diferença entre as três modalidades, que exploraremos agora.



Curso Técnico Profissionalizante

Vamos começar primeiramente pelos cursos técnicos. Apesar de terem sofrido bastantes modificações na sua forma (e legislação), estes cursos continuam sendo para alunos que estão finalizando o nível médio e não buscam, num primeiro momento, uma formação superior, mas pretendem ingressar no mercado de trabalho como profissionais da área. Eles oferecem uma formação mais simples que os cursos de tecnologia e são, portanto, considerados de nível médio na forma de complementação profissionalizante.

Já ouvi muita gente considerar cursos técnicos e tecnológicos a mesma coisa, mas na verdade estão redondamente enganados. A legislação para cursos técnicos é diferente da legislação dos cursos tecnológicos embora ambos sejam cursos profissionalizantes.

Os propósitos são diferentes, as diretrizes são diferentes, o catálogo de cursos é diferente e o histórico de criação e trajetória é diferente.

Quem quiser conhecer mais sobre os cursos técnicos e sobre os cursos tecnológicos visite o site do MEC na área relacionada ao ensino profissionalizante e verá que estes são muito distintos tendo objetivos diferentes.

Curso Sequencial

Os cursos seqüenciais são considerados como uma modalidade do ensino superior, em que o aluno, após ter concluído o ensino médio, poderá ampliar os seus conhecimentos, ou sua qualificação profissional, freqüentando o ensino superior, sem necessariamente ingressar em um curso de graduação.

Os cursos seqüenciais funcionam como um recorte dos cursos de graduação, mas não são limitados somente à esta visão. Apesar de serem de nível superior não oferecem oportunidade aos alunos formados nestes realizarem mestrado e doutorado já que são cursos menores e não oferecem uma graduação. Esta modalidade de curso só pode ser desenvolvida por escolas que já tenham algum curso de graduação na área.

Um ponto importante a ser considerado é que os cursos seqüenciais não devem ser entendidos como uma simples ponte de ligação para os cursos de graduação e nem uma abreviação curricular de um curso de graduação. Os objetivos dos cursos seqüenciais são distintos dos objetivos dos cursos de graduação, embora as grades curriculares dos cursos seqüenciais possam contemplar disciplinas semelhantes às oferecidas nos cursos de graduação.

Os cursos sequenciais são de dois tipos:

I - cursos superiores de formação específica, com destinação coletiva, conduzindo a diploma;
II - cursos superiores de complementação de estudos, com destinação coletiva ou individual, conduzindo a certificado.

Para ambos os cursos é exigido o certificado de nível médio.

Para quem quer mais informações, a Resolução CNE/CES nº 1/1999, de 27 de janeiro de 1999 dispõe sobre os cursos seqüenciais de educação superior, nos termos do art. 44 da Lei 9.394/96. As Portarias 482, de 07/04/2000 e 612, de 12/04/1999 dispõem mais informações sobre os cursos sequenciais.

Também pode consultar a Portaria 4363, de 29/12/2004, que dispõe sobre a autorização e reconhecimento de cursos seqüenciais da educação superior

Curso Superior Tecnológico

Os cursos Tecnológicos são cursos superiores de graduação que possuem em seu projeto pedagógico todos os elementos para uma formação profissionalizante completa dentro de uma linha específica de conhecimento mais densa do que os seqüenciais. Os cursos tecnológicos têm como principal objetivo principal formar profissionais para o mercado de trabalho apesar de permitir aos formandos, segundo a própria legislação, o ingresso em cursos de mestrado e doutorado desde que obedecidas especificidades de cada programa.

Diga-se de passagem, um programa de mestrado e doutorado até pode recusar um tecnólogo em seu quadro de alunos. Mas isto deve ser feito por conta de critérios próprios e não por conta da legislação, poisa mesma diz que o Tecnólogo pode seguir estudos em programas de mestrado e doutorado como qualquer outro curso de graduação plena.

Para quem discorda consulte a própria LDB e os pareceres CNE/CES 436/2001 e CNE/CP Nº 29/2002.

Posso até concordar que os bacharelados e engenheiros também são, em última instância, profissionalizantes. O que diferencia os cursos tecnológicos dos de bacharelado e engenharia é que os tecnológicos não apresentam a formação generalista que estes geralmente apresentam e sim específica e, em geral, têm carga horária inferior em relação à estes, sem contar estágio e trabalho de conclusão. Os cursos de bacharelado e engenharia em computação possuem na legislação a indicação de um mínimo de 3000 horas mínimas que devem ser cumpridas.

Agora, pelo que eu li na LDB e nos pareceres citados, a legislação fala em carga horária mínima e não máxima, embora indique a idéia de os cursos tecnológicos terem menor duração que os bacharelados e engenharias. Pessoalmente não vejo problema algum em cursos tecnológicos terem carga horária maior do que a mínima e acho até que seria interessante, desde que os cursos não fossem de formação generalista e sim de formação específica.

Agora, convenhamos, têm muita escola criando curso de tecnologia de baixa qualidade só por ter possibilidade de ter carga horária menor e não porque tem demanda por tais cursos (não vou citar nenhuma, acredito que todos devam conhecer alguma escola assim). Já vi até escolas colocando cursos de tecnologia em informática na área de gestão, pois essa área permite uma carga horária ainda mais baixa!

Conclusão

Não vou falar sobre os cursos de bacharelado, licenciatura nem de engenharia, já que os mesmos já são bastante conhecidos de todos quanto à sua forma de funcionamento. Quis frisar com este post que independente do cabeça-durismo de algumas pessoas em depreciar os cursos tecnológicos, sejam eles em qualquer nível que estejam inseridos, eles estão presentes, têm seu nicho de mercado e vêm produzindo excelentes profissionais que não estão lá para substituir os bacharéis, engenheiros ou professores. Eles estão presentes para complementar cada uma destas áreas.

A função do bacharel é descobrir;
A função do engenheiro é otimizar;
A função do tecnológo é implementar;
A função do licenciado é ensinar.

Bom, eu penso que antes de sairmos criticando um curso por conta de sua modalidade ou nível, deveríamos sim criticar um curso pela qualidade do ensino que é oferecido. É tendo isso em mente que eu me orgulho de fazer um curso superior tecnológico cujo ensino têm mais qualidade que o curso de bacharelado que o tal professor usou como base para suas afirmações. E essa afirmação de qualidade não vêm só de mim não, vêm de vários amigos meus que frequentaram o curso.

Eh isso. Acredito que eu tenha falado o suficiente sobre o assunto para que as dúvidas possam ter sido sanadas ou pelo menos para calar estas pessoas que insistem em considerar um bacharel melhor que um tecnólogo somente por sua carga horária, ou por qualquer outro tipo de comparação arbitrária.

Fontes:

Portal do MEC - Legislação

LDB - MEC
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional

Cursos Sequenciais
http://www.inf.ufrgs.br/mec/ceeinf.sequencial.html
Resolução CNE/CES 1/1999
Portaria 482/2000
Portaria 612/1999
Portaria 4363/2004

Cursos Tecnológicos
Parecer CNE/CES 436/2001
Parecer CNE/CP Nº 29/2002