quarta-feira, 24 de novembro de 2010

The Inception - A trama por detrás da trama

Acabei de assistir o filme The Inception com a @pseudocoisa, o @duardoribeiro e o @tonysacanix e vou lhes dizer uma coisa: estou embasbacado com o nível do filme. Nunca na história dessa pessoa um filme me fez pensar tanto quanto este fez. Mas não era para menos. Os trailers, os pseudo-spoilers, as opiniões de pessoas que haviam assistido o filme, tudo me fez crer que eu precisaria ser o melhor em tentar entender o filme. Assim como foi com Matrix.

Primeiramente, há uma grande semelhança na real idéia que o filme quer passar, a de que existe realidade simulada de forma que não a percebamos. O que muda nesta história é o contexto, e outros filmes que já assisti me ajudaram a chegar a uma conclusão do filme que, até o momento, ninguém que eu conheço alcançou. Não, o objetivo não era implantar a idéia na cabeça do filho do dono do maior conglomerado de indústrias. É algo mais sutil, mais empenercido e que, da mesma forma que minha idéia original sobre o que acontece na Matrix, é tão intensa que você a rejeitará no instante que a ler.

Está pronto pra se aprofundar neste post? Espero que sim! Só para avisar os que ainda não assistiram, há muitos spoilers nesse post, ok? Então só prossigam se realmente não tiverem problema quanto a isso. Let's go dig.




Eu não sei nem como começar a explicar a minha idéia. Isso porque ela está tão imbuída no filme que é facilmente confundida com o plot de superação pelo qual o Cobb têm de passar para conseguir plantar a informação na mente de Robert Fisher de que ele devia desfazer o império do pai. No entanto, para o bom observador a trama do filme na verdade não é essa. É simplesmente um pano de fundo para algo muito, mas muito mais sutil e complexo: Quem era o alvo da implantação era Dom Cobb, o próprio extrator.

Zuou tudo né? Não faz nenhum sentido, não é mesmo? Então como diria Armin Meiwes vamos por partes.

O filme inteiro nos dá mensagens de que isso está acontecendo o tempo todo. Mas, primeiramente analisemos o começo da história. Cobb estava em uma missão para extrair uma informação do Saito, um empresário que tinha uma informação que uma empresa chamada COBOL Industries queria a todo custo. Sua tentativa de recuperar a informação não dá certo porque a projeção de sua mulher aparece e revela todo o sonho, e então sonho colapsa, com eles aparecendo dentro do quarto do empresário, com Saito dormindo e com Cobb e Arthur ainda no sonho. Em seguida, Saito acorda depois de morrer no sonho e pega os dois, Arthur e Cobb no pulo mas, no entanto, é rendido. Quando ele é jogado no chão, percebe que o tapete de seu quarto não é de algodão, sacando então que eles se encontravam em um sonho que estava dentro de outro sonho e então, todo mundo foje. Um pouco depois Saito os encontra fugindo para a Argentina e oferece a eles uma oportunidade única: a de acabar com o império do seu maior concorrente, implantanto nele a idéia de que ele deveria acabar com o império do pai.


Bom, até aqui já temos mais ou menos idéia do que acontece no filme. Uma missão, um problema, uma solução. No entanto, é a partir daqui que os problemas de Cobb começam a aparecer. Ele pede ajuda ao seu mentor e pai de Mal, que diz algo mais ou menos como "você precisa mais do que presentes para recuperar a confiança perdida de seus filhos". Aqui já começam as referências ao verdadeiro cenário do filme. Vamos então às incongruências que eu percebi que me levaram a esse raciocínio.

Primeiramente, eu achei muito estranho Saito, depois de ter sido alvo de uma extração, chamar o próprio Cobb para fazer uma dificílima tarefa de implantar uma idéia. Para mim, isso deixou claro (assim como as palavras de saito no segundo nível do seu sonho: "você falhou") de que Saito o estava testando de alguma forma.

Mas, não faz sentido pois, depois que ele soube, tudo começou a desmoronar! Sim, é verdade. Mas só começou a desmoronar porque Cobb teve de matar Arthur para que sua esposa, Mal, não o fizesse sofrer ali. E ele era o arquiteto, todos estavam dentro do seu sonho. Então, como ele estava fora, tudo desmoronou. Cobb era o construtor, pois esta cena é a mesma que aparece logo depois do epílogo do filme e novamente no final. Há uma referência a isso: O comentário de Mal sobre a construção do lugar, logo antes de Mal começar a atirar em Arthur. Essa cena é um ponto chave para você entender o final do filme. Então, prossiga na leitura.

Em segundo lugar, achei estranho quando a Ariadne faz o teste do labirinto com Cobb e depois de duas tentativas, ela faz o labirinto circular. Mas, não é só isso. Sua facilidade em lidar com a construção do sonho logo depois de ter feito sua primeira incursão foi no mínimo suspeita. Como assim você descobre que está sonhando, acorda, e logo em seguida no próximo sonho já está lúcida o suficiente para conseguir alterar as leis de funcionamento do sonho, dobrando a realidade e usando um truque de espelhos para alterar a realidade? Até o Cobb ficou surpreso com sua capacidade.

A cena do espelho também têm muita informação escondida. Como Ariadne sabia o que fazer ali e porque ela estava fazendo aquilo? Ela disse que aquilo lembrava um lugar que ela passava todos os dias, mas a menção à memória faz com que Mal apareça.

Ainda há uma coisa relacionada a espelhos que é necessário citar. Em vários pontos da história aparecem situações em que se via refletida em um espelho a imagem de Eames e na sua reflexão aparece o tio de Fisher.

Outro ponto que podemos analisar em relação à Ariadne é sua fixação em querer saber mais sobre o que aconteceu com Cobb. Para mim, remeter os dois para aquele lugar da ponte e forçar a Mal aparecer foi um pretexto para que ela pudesse explorar mais sobre o inconsciente do Cobb.

Se vocês analisarem o plot da história do Fisher, todos eles estão fazendo isso. Colhendo informações para serem usadas mais para frente na história. Você pode perceber isso quando ela entra dentro da mente de Cobb quando ele está sonhando e desce até o andar B que, segundo a @pseudocoisa pode significar Basement, ou um lugar no nosso subconsciente para onde jogamos tudo aquilo que não queremos lidar. E nesse caso, Cobb jogou para lá exatamente o momento que antecede o suicídio da Mal.

Analisando um pouco mais, Ariadne remete à mitologia grega. Na mitologia Ariadne é quem ensina Teseu a se guiar no labirinto de Tebas e a derrotar o Minotauro. Ela dá a ele um rolo de fio - que ficou conhecido como o "fio de Ariadne" - pra ele sempre saber por onde veio. No filme ela guia Cobb pelo labirinto que ela criou. Ela é o fio condutor da história, e pra mim éa personagem principal, por ser a guia na jornada de Cobb pela sua própria mente, sem que ele perceba a intenção por detrás disso.

Captando a idéia? Meio confuso ainda né? Mas, continuemos.

Quem é Saito no filme? Ele é um Deus-Ex Machina que tudo pode e tudo faz. Aparece do nada na áfrica para salvar Cobb. Compra toda a empresa aérea para que seu plano desse certo. Entra nas construções, mesmo sabendo que ali não teria utilidade (aparente). No entanto, há mais coisa a se pensar aí.

Primeiramente, ele é a chave para a realização do desejo de Cobb de rever seus filhos, algo que até então ele achava impossível. No entanto, Saito tinha uma missão mais importante: influenciar Cobb. da mesma forma que Eames faz com Fisher com os números do cofre "soprados" de forma discreta na mente dele, Saito foi utilizado para influenciar discretamente o consciente de Cobb com um questionamento: "Você quer se tornar um homem velho, cheio de arrependimento, esperando pra morrer sozinho?"

A frase é lembrada mais duas vezes, sendo a última no limbo, usada como um gatilho para Cobb recobrar sua consciência e trazer Saito de volta. O mais massa aqui é que na verdade nesta cena Cobb está resgatando ELE MESMO do limbo através do "espelho" Saito, que naquele momento era uma representação visual - e visceral - da idéia contida na frase que era pra Cobb!

Novamente um espelho. Mas esse é mais sutil não é?

A idéia de espelho está inserida no filme em outros momentos-chave, que mais parece uma alegoria gráfica mas não é: quando Ariadne "dobra" a cidade e vemos prédios iguais se juntando, de forma espelhada. E noutra cena, quando de novo ela fecha o vão da ponte com espelhos. O espelho é uma forma sutil de demonstrar que um dos dois é falso.

Pra quem conhece um pouco de psicanálise (e hoje eu li um pouco de Jung e seus mecanismos de psique) o espelho pode ser usado com uma criança para ela perceber-se como indivíduo, já que até esta percepção, ela enxerga a mãe como uma extensão dela mesma e não como uma pessoa independente.

E o que acontece quando Cobb está em um sonho? Mal aparece. No caso de Cobb sua individualidade estava "contaminada" pela presença de Mal, e o que Ariadne faz? Ela usa o espelho para que Cobb se veja como PESSOA, uma entidade separada de Mal. Obriga-o a olhar pra si mesmo, como se apontasse "Ei, este é você AGORA".

Mas, Mal tem vida nos sonhos. Têm opinião e movimento. No entanto, você pode perceber em várias passagens que Mal não é só uma projeção, que ela é algo mais. As vezes chega a parecer que é alguém que está continuamente ligado aos sonhos de Cobb. Uma boa olhada no subtexto de algumas falas pode dar idéia do que seria a Mal. No momento que o mentor/pai está falando sobre os filhos de Cobb, ele solta a frase "Cobb, tudo o que está entre você e seus filhos agora é a sua sombra". E é isso que a projeção de Mal é. A sombra do próprio Cobb.

No material sobre Self, de Jung, que eu estava lendo, ele fala sobre pessoas que idealizam seus mundos, construindo uma máscara em torno de si próprios e as tomam como si próprios. Tudo o que não se encaixa no padrão dess máscara é na verdade projetado como defeito nas outras pessoas. Um exemplo: uma namorada que constantemente acha que seu namorado a está traindo, independente do que ele diz, está projetando uma característica indesejável sua nele. É que nem eu digo, as pessoas sempre analisam as outras a partir de seu próprio pensamento.

E Mal é isso, a sombra de Cobb. E talvez agora uma das falas mais reveladoras do filme pareça fazer mais sentido:

Cobb - Eu não posso ficar com ela porque ela não existe mais.
Mal - Eu sou a única coisa em que você ainda acredita.
Cobb - Eu gostaria. Eu gostaria mais que tudo. Mas eu não posso imaginá-la em toda a sua complexidade, toda a sua perfeição, toda a sua imperfeição. Olhe pra você. Você é só uma sombra da minha esposa verdadeira. Você é o melhor que eu posso fazer; mas sinto muito, você não é boa o suficiente.

Nesse ponto, ele "atravessou o fantasma". O grande lance da história era de que era em Cobb que estava sendo inserida a idéia de superar o trauma do suicídio da esposa, por ele ter inserido nela a idéia de que o mundo poderia não ser real.

Outro ponto que remete a espelhos. O momento que aparece no começo do filme, com Cobb está saindo do mar e então sendo levado até um velho, que depois se revela como sendo Saito nada mais é do que o uso do espelho. Quem é Saito e quem é Cobb ali naquela cena? Lembrem-se: Cobb ficou muito tempo perdido no limbo. ele ficou 50 anos lá dentro. Eu interpreto Cobb sendo o velho. Lembra-se da construção que Cobb usa para tentar extrair informação de Saito? Era uma construção da mente de Cobb, não de Saito. E nesse ponto, eles estão na mesma construção. Outro ponto: Saito morreu depois que Cobb, Mal, Ariadne e Fisher fossem para o nível abaixo. Entendeu? Aquilo era uma contradição aparente! Como poderia Saito estar velho se ele morreu DEPOIS que os 4 foram para o limbo? Não seria o velho na verdade a imagem residual de Cobb (#MatrixFeelings) 50 e alguns anos depois, como velho? Não seria o Cobb novo, resgatado no mar, simplesmente Saito transformado, de forma a fornecer o componente espelho? Lembre-se que as últimas palavras do velho eram "Eu já vi isso antes", em referência ao peão do Cobb. Mas Saito não viu o peão em nenhum momento, nem mesmo quando ele o deixa cair no chão, entendeu? Sacou? Quem está se lembrando é Cobb. Ele tinha retornado do Limbo mas ainda vivia lá, assim como Mel vivia no Basement, como uma memória trancada. Tanto que na última cena desse lugar, quando o velho pega a arma, quem é mostrado acordando é o Cobb.

Entendeu agora a profundidade da coisa? Toda a história não passava na verdade da história da superação do fantasma do suicídio da esposa de Cobb, por ele ter plantado a informação de que a realidade em que eles viviam não era real.

Mas, fica uma dúvida né? Quem teria interesse nisso? Ainda não sacou? Era Miles! Então vamos elucidar mais um pouco. Miles é ao mesmo tempo pai de Mal e mentor de Cobb. E Cobb, diante do suicídio da esposa acreditava que seus filhos não o aceitariam ao saberem da verdade. Mais uma vez a projeção. Ele não se aceitava, e projetava isso nos seus filhos. A projeção era tão forte que se tornou o fantasma dele, fantasma que foi vencido lá no nível do subconsciente. Novamente uma frase dita por Miles vêm trazer à tona que ele deveria ser o mentor de tudo: "Cobb, tudo o que está entre você e seus filhos agora é a sua sombra"

A idéia por trás disso é que Miles, juntamente com Ariadne e Saito (e possivelmente Yusuf) sabem do plano dentro do plano, que é mergulhar fundo na mente de Cobb ao mesmo tempo em que eles mergulham na mente de Fischer pra realizar a missão de Saito. Isso fica explícito quando Cobb diz mais ou menos que "quanto mais fundo no sonho, mais dentro de minha própria mente se entra". Outro fato que só confirma isso é a conversa de Cobb com Miles. Miles parece bastante cínico quanto ao pedido de Cobb por um arquiteto, pois sabe das atividades ilegais em que ele esteve envolvido, mas quando Cobb diz a ele que é pra reencontrar os próprios filhos, Miles prontamente diz "eu tenho a pessoa certa pra você" e apresenta Ariadne. Isso acontece porque Miles percebe que é a hora certa de botar seu próprio plano de "inception" em prática. Como falei mais acima, a intervenção só funciona no tempo e momento de cada um. Quando Cobb se considera apto para "abandonar suas ilusões" Miles arquiteta seu plano.

A propósito, como a própria @pseudocoisa perguntou, qual o significado do nome do filme? Inception significa início. No entanto, há um verbo, "incept", que também significa ingerir. Tudo no filme gira em torno da ingestão de uma idéia.

Há uma diferença fundamental entre inserção e ingestão. Enquanto o primeiro nos remete a um procedimento invasivo, no sentido de ser empurrado algo a alguém, no segundo temos um movimento de aceitação, de acolhimento.

Outra coisa curiosa que a @pseudocoisa levantou foi sobre a estranha música que começou a passar quando eles voltaram. A música é Non, Je Ne Regrette Rien, montada por Hans Zimmer e que significa "Não, não me arrependo de nada". Isso é a síntese da purgação dos pecados de Cobb, quando ele confronta a sombra no limbo. E não por acaso é a música escolhida pra "chutar" de volta os personagens ao mundo real.



Incrível né? Você tinha pensado nisso? Não tinha sacado a trama por trás da trama? Mas ainda resta uma pergunta: e o pião girando na última cena? Era aquele mundo real ou só mais um sonho. Na realidade, isso não faz mais diferença nesse ponto. O fato é que o desejo de Cobb se concretizou, independente de como vemos as coisas de fora! Podemos fechar a teoria acreditando que aquilo não era só um sonho, mas o fechamento psicológico do "grande sonho", e após isso ele estaria pronto para acordar no "mundo real". Pois foram bem sábias as palavras dos velhos quando Cobb e Eames foram buscar o sedativo com Yusuf e o velho fala para Cobb "você ainda sonha, Cobb?" ou ainda "Eles vêm aqui para serem acordados. O sonho se tornou para eles a realidade. Quem é você pra dizer o contrário?"

Analise a imagem do início desse post, com a visão que você têm agora. Veja as linhas de Mal, Cobb e Saito. Tudo faz sentido agora, não?

Sem dúvida, o melhor filme que já assisti desde Senhor dos Anéis e The Matrix (tudo, não só os filmes). Espero que minha explosão mental tenha elucidado a vocês todos os pontos da história, da forma como eu a enxerguei. Sério, eu não me preocupei tanto com as inserções nos sonhos, nos níveis de sonho. Tudo no final era um palco para a grande ingestão final!

Só para dar mais um gostinho especial, se a missão toda era fazer a inserção em Fisher, porque no final do filme não falou mais nada da contenda? O que foi mostrado foi o Saito fazendo a ligação, depois eles chegando no aeroporto e finalmente Miles aparecendo com os filhos de Cobb por lá. Porque ele faria isso? Sacou?

P.S.: Como eu tive essa sacada? Depois de ler um livro chamado "Estruturas Míticas para Roteiristas", que mostravam o papel de cada personagem em uma história (O herói, o guardião do limiar, o mentor, o antagonista) eu passei a prestar mais atenção nos detalhes de enredo que levam à verdadeira história. Se você acredita que o enredo principal é o da implantação da memória em Fisher, você também foi fisgado. Pense nisso!

P.S.2: Porque eu citei que tive uma idéia assim com Matrix? Porque na realidade, as pessoas do mundo livre é que são as máquinas. Elas são os robôs reprogramados pelos seres humanos. Isso explica Neo com poderes fora da Matrix. Isso explica Smith no corpo de um ser humano. Isso explica programas transitando entre a Matrix e o mundo real. Um dia eu explico essa minha teoria.