quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Ensaio sobre Seres Humanos: Iguais nas diferenças

Eh engraçado como as vezes tomamos um choque de realidade, e percebemos sermos muito mais parecidos com as pessoas que são diferentes de nós. Essa semana a frase "iguais na diferença" alcançou um novo sentido para mim.

Com o apoio do @doisursos (blog), posto aqui para vocês o que significou pra mim essa experiência.

Bom, tudo começou numa aula do curso de libras, que faço em Brasília. Lá nos foi exibido um filme (em francês) que mostrava a vida de um surdo, desde o seu nascimento até a idade adulta, contada da perspectiva do surdo, por um surdo. Eu não sei se as outras pessoas ouvintes reagiram da mesma forma ao filme, mas o que mais me comoveu foi a similaridade do que foi mostrado no filme com a minha realidade pessoal.


Algumas pessoas podem estar confusas tentando entender isso. Não, não sou surdo, nunca convivi com surdos o suficiente para ter essa percepção. Essa similaridade, no entanto, se dá pelo fato de eu também fazer parte de uma outra minoria na sociedade: ser gay.



Bom, vamos falar primeiro do filme. Ele começou com a protagonista falando sobre como era sua infância, de como não entendia o porquê de algumas coisas, a percepção de que, de alguma forma, ela era diferente das pessoas à sua volta. Via pessoas mexendo a boca e tentava entender como elas se entendiam. Até imaginou a situação onde ela falava de "balões" que apareciam nas bocas das pessoas mas que, de alguma forma, ela não tinha como enxergar.

"Eu achava que estava no mundo errado! Que devia ter sido trazida para cá por engano!"

Em outro momento, é mostrada a criança sendo levada a um fonoaudiólogo para instalar um aparelho auricular. Mais adiante a tentativa de ensinar a língua oral para a criança. É visível nessa hora que há uma sensação de desespero ou de desapontamento por parte dos pais. Eles não sabem como lidar com isso e muitas vezes não querem lidar. Quase sempre tentam transformar a criança em algo que não é a realidade dela.

Em determinada parte do filme, a criança foi levada para uma escola especial, onde ela finalmente teve contato com outras pessoas que nem ela. Foi uma enorme surpresa saber que ela não estava sozinha, que havia outras pessoas como ela e que, mais importante do que tudo, se comunicavam de um jeito que ela podia entender. Mais tarde ela mesma fala que aquilo foi como se uma bolha que a envolvia finalmente se estourasse, e finalmente ela conseguia se expressar com alguém que a entendia.

Isso no entanto não melhorou a relação que a sociedade tinha com ela. Pelo contrário. Eles eram proibidos de usar sinais para se comunicar e deviam frequentemente tentar oralizar. Um exemplo foi mostrado, de um surdo que disse adorar os filmes de faroeste, onde os soldados expulsavam os índios maus das terras que eram suas. Ele adorava os soldados, mas com o tempo foi percebendo que não eram os soldados os bons e os índios os maus, mas o contrário, já que eram os índios que estavam sendo expulsos de suas terras por alguém que tinha chegado de um lugar distante para lhes tomar o que sempre foi deles.

O filme termina falando sobre a atitude da protagonista de não mais tentar oralizar, já que ela possuia uma cultura, e esta é a cultura surda. Ela é hoje uma ativista dos direitos dos surdos na frança, junto com os outros que fizeram parte desse documentário.

Semelhanças e Diferenças

Bom, eu comentei no começo do post que me identificava com muito do que foi mostrado no filme. Mas porque disso? Porque apesar de serem coisas totalmente diferentes, a segregação, a decepção das pessoas próximas, a tentativa de nos “consertar” e a falta de reação das pessoas quando sabem de nossa realidade é praticamente a mesma.

Eu não passei por vários estágios citados, mas também me senti confuso quando percebi que eu era diferente, e não gostava das mesmas coisas que os outros da minha idade gostavam.

Não passei pela coisa de tentarem me “consertar” mas experiências de outros me fizeram esconder quem eu realmente era, criar um construto que as pessoas acreditavam que era eu, para me proteger e também pra me sentir seguro.

Também descobri que não era o único que era assim, e também vi que algumas pessoas eram sensíveis a isso, e finalmente meus primeiros amigos verdadeiros apareceram.

E por último, tomei a decisão de que não ia mais ser quem os outros queriam que eu fosse, um modelo de pessoa que, se você for analisar, não existe. Peguei minha máscara, tirei, coloquei dentro do armário de onde eu saí e passei então a viver como eu sou. Ocasionalmente aparecem pessoas que acham que meu comportamento foi errado, que deveria manter as aparências. Definitivamente, isso não faria mais. Demorei muito pra perceber que só eu perdia com essa atitude e que as pessoas não iam mudar por minha causa. Então, porque eu estava me mudando por elas?

Hoje me considero uma pessoa mais feliz. Sei da dificuldade que os surdos passam todos os dias pois, em um nível diferente, eu também passo. A segregação sempre vai existir. No entanto, nós temos dois caminhos: ou corremos e nos escondemos ou lutamos e nos posicionamos no mundo.

"O ser humano é capaz de coisas incriveis e abominaveis ao mesmo tempo" do filme Contato, Carl Sagan

O homem evolui na ciencia, mas esqueceu de evoluir no coração.

O ser humano é dotado de uma habilidade incrível, e ela é ao mesmo tempo nossa maior qualidade e nosso pior defeito. A capacidade de classificar coisas. Essa qualidade fez nossa ciência avançar para o patamar que hoje nos encontramos. No entanto, também usamos essa habilidade para classificar pessoas e acabamos por torná-las objetos. Que possamos aprender com estas experiências de vida que antes de sermos surdos, gays, negros, mulheres, imigrantes, calouros, ou qualquer outra classificação que porventura venham a criar, somos seres humanos.

Pois o grande segredo da humanidade, é que nós somos iguais em nossas diferenças!



Obrigado a todos que me deram forças, em especial a Teresa Kikuchi, o @doisursos, o @zonotriko, o @DexLand e os tutores do curso de libras, que nos motivam a sempre melhorar!