sexta-feira, 16 de julho de 2010

Sobre pipas e lembranças

Na minha cidade, o tempo de soltar pipas sempre começava com o final das chuvas e o início do tempo frio. Nessa época, era normal começar as ventanias antes de o tempo esfriar de verdade e tudo, inclusive o próprio vento, congelarem. Mas o melhor era depois, quando os ventos voltavam mais fortes do que nunca ...

Em Jataí, tínhamos o costume de soltar pipas nessa época, porque não era quente demais pra ficar sob o sol e também não era frio demais a ponto de a linha machucar minhas mãos. Era uma época legal, que acho que nunca mais voltará.

Lembro da primeira vez que soltei minha pipa. Na hora que bate um nervoso, sabe? A linha era pesada, o pipa insistia em puxar, queria ir embora, voar livre. Fiquei tentado a soltar e sair correndo. Mas resisti, forte, determinado. Eu não podia simplesmente abandonar tudo o que fiz no meu inverno! A linha era áspera e cortou um pouco meus dedos de pele fina que não estavam acostumados àquilo...


Então a pipa mergulhou e fugia desesperado antes de ressurgir num salto. Ela subia, subia, riscava o céu azul de uma tarde de primavera. E lá ao longe reparei numa pipa caindo, parecia dançar livremente no ar, a rabiola serpenteando lentamente até sumir atrás de um telhado.

Aí saía a garotada disparada pra resgastá-la. O vencedor traria como troféu a própria pipa, inteira. E exibiria ela no dia seguinte quando comprasse um carretel novo e aplicasse o "ceról" nela. Toda pipa merece um carretel só seu.

Daí, vinha o inverno e com isso, as horas monótonas em casa, sem coragem pra sair por causa do frio, permitiam que minha criatividade fosse usada em algo produtivo. Fazer uma pipa. Claro que eu não era um exímio fazedor de pipas como o "Seu Zé", vizinho nosso e muitas vezes eu acabava pedindo ele pra fazer pra gente, o que ele fazia sem nos cobrar nada mais do que um sorriso de satisfação.



Um dia, em uma das minhas aventuras de mexer nas coisas da minha avó, encontrei um grande pedaço de linha toda cheio de nós, das redes que meu avô fazia. Peguei do chão, escondido pra ninguém ver meu "furto". Levei pro meu quarto e comecei a esticar a linha, entender os fluxos e a desfazer os nós. Depois de um tempo, a linha estava lá, toda desembaraçada.

Devo ter levado uma semana, no mínimo, sem desistir até conseguir ter uma linha inteira sem nós. A linha era pouca, não subiria nem 3 metros. A primeira foi um quadrado de jornal, prendi em duas pontas com uma linha menor. Eu segurei uma ponta da linha e saí correndo pelo corredor rindo. Consegui empinar uns 2 metros antes dela despencar no chão e rasgar. Agora era esperar o tempo certo chegar.

Então, logo chegava a primavera, trazendo consigo o melhor vento de todos. É uma sensação agradável de se sentar no sol de primavera e sentir a força estável de uma boa pipa na corda, e ver seus movimentos graciosos, balançando de um lado para outro, sempre puxando mais linha e subindo mais alto, como se estivesse impaciente para se ver livre e voar entre as nuvens. O prazer é bastante reforçado pelo conhecimento de que o objeto imita maravilhosamente a forma de um pássaro planando e, no entanto, é uma asa de minha própria fabricação.

Nunca me senti tão poderoso de minhas habilidades, em que eu fazia e empinava minha própria pipa!

Aprendi que não importa quanto a linha embola, o tempo perdido, as cicatrizes na mão, não importa a altura ou a distância. O importante era estar ali, simplesmente sendo feliz. Isso eu aprendi quando eu tinha 7 anos.



Olhar esses ventos de Palmas me fez relembrar dessa minha época e me deu vontade de fazer novamente uma pipa, como o seu zé me ensinou uma vez, quando eu tinha meus 10 anos de idade.

Não vou falar de técnicas nem de tipos nem designs de pipas, pois fazer uma pipa é uma tarefa que cada um precisa aprender sozinho, pois a grande diversão é saber que você construiu algo que vai estar ali, no céu, colorindo de outras cores o céu azul.

Cobra Kite - Kite's Design