quarta-feira, 3 de março de 2010

Contos de Entalis - Gerações

E não é Heroes.

Esta é uma continuação da história publicada semana passada, sobre o Caeryn. É meio que um resumo de sua vida e de sua contenda. Não significa que não haverão mais histórias, mas que assim fica conhecida a jornada pela qual ele passou em sua vida.

Espero que gostem.

Gerações ...

Capítulo 1

Faz frio. É sempre assim nas montanhas da névoa. Durante muitos e muitos anos, Caeryn procurou seu antigo inimigo. No entanto, nunca imaginou que ele voltaria a este reduto, o lugar onde tudo começou. Muitos homens morreram para encontrar esse lugar. Muitos deles, guiados pelo próprio Caeryn que, em busca de sua redenção, ou vingança como alguns citam, liderou legiões de homens contra este que é um dos grandes poderoros de nossa era. Na verdade, de várias eras...


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Engraçado foi como encontraram o reduto do lich, aqui mesmo nas montanhas da névoa. Em uma escavação, que alguns anões estavam realizando em outros lugares, eles encontraram grandes quantidades de espíritos vagantes, zumbis, mortos-vivos, e toda uma miríade de monstros tão variada que, se fosse possível catalogá-los todos, com certeza seria possível escrever um livro, ou grimório, tanto faz. Livro dos Monstros, talvez. Acho que estou me desviando demais do assunto.

O certo é que um dia acharam esse lugar. E logo chegou aos ouvidos de Caeryn essa estranha coincidência.

Finalmente o momento esperado. Caeryn adentra a caverna gelada, seguido de alguns que o acompanhavam. Era gritante a diferença de poder entre ele e os que o acompanhavam. Não que estes fossem fracos, mas Caeryn também havia adquirido conhecimento e poder além de muitos dos mais fortes em Cristália. Não, em Entalis.

Estranhamente, a caverna parecia mais fria que o normal. Talvez a presença de algum espírito de gelo possa estar causando isso, ou qualquer outra coisa que ninguém jamais ousou tentar descobrir. O certo é que Caeryn foi o primeiro a ver os olhos azuis. Os outros nem ao menos tiveram tempo de reagir. Logo, Caeryn estava lutando contra dois esqueletos animados, ambos com uma estranha luz azul que dava volume a seus corpos não existentes e uma onda de medo que saia de seus olhos, difícil de enfrentar. Mesmo assim, o grande guerreiro não teve medo. Enfrentou os esqueletos, os derrotou, e continuou sua jornada para o fundo da montanha. Não seriam dois fantoches que o impediriam de alcançar o objetivo de toda uma vida de busca, lutas, vitórias e derrotas.

Somente Caeryn, e um estranho guerreiro, com feições de dragão, ainda continuavam de pé. E ele disse ao guerreiro: "Vá, não há motivo para que você morra aqui. Como eu prometi, aqui está sua recompensa". Após dizer isto, ele tira uma pequena bolsa de moedas e entrega ao guerreiro 100 moedas de Mithrill.

Mais adiante, um grande labirinto. No começo, pareceria impossível passar por todo esse complexo, mas Caeryn, como sempre, tinha uma carta na manga. De sua mão, emanou uma breve luz azul, que então se tornou uma linha de fumaça. A linha foi saindo de sua mão e adentrou o labirinto. A cada divisão, a linha se dividia, para cada caminho encontrado. Logo, todo o labirinto encontrava-se tomado por essa linha de fumaça tênue que saia das mãos de Caeryn. Com duas palavras inteligíveis, a linha de fumaça foi tomando forma, até se tornar uma linha. No entanto, por desígnios que somente ele poderia dizer, no trajeto verdadeiro, a linha tomou forma definitiva, tornando a travessia do labirinto algo frugal.

Assim acreditava. Em alguns trechos, a linha se mantinha dividida, denotando que poderiam haver caminhos alternativos para o outro lado. Seguindo em alguns deles, armadilhas dispararam, monstros apareceram, fossos surgiam sob o chão falso, mas nada disso impediu que o grande guerreiro seguisse adiante.

Logo, após passar por esse desafio, ele se encontrava na câmara principal. Havia um esqueleto sentado em um trono de gelo, olhando para algo que se encontrava em sua mão. E então, palavras saíram da boca esquelética: "É isso que veio destruir, não é? Quantas vezes procurou destruir aquilo que eu me tornei, somente para destruir essa vestimenta de couro, carne e ossos podres que tantas vezes se interpôs entre você e eu. Só que diferente das outras vezes, você e eu estivemos sempre longe um do outro. Longe do meu Eu verdadeiro. E agora você está aqui. Vamos ver se desta vez você conseguirá".

Em seguida o esqueleto se levanta, vai calmamente até um pequeno altar no fundo do salão e coloca a gema azul em um pedestal, visível para ambos. E então, volta-se para o centro e, em posição de vigia, espera o ataque inicial...

Capítulo 2

Por muito pouco, os guerreiros que exploravam a antiga caverna dos anões não morreram devido à enorme quantidade de mortos-vivos que ali havia surgido. A cada morte que acontecia, mais um corpo se juntava ao outro lado. Durante muitos anos os anões lutaram contra o medo e o terror inominável que emanava daquelas minas, pois eles sabiam que ali devia haver um poder muito grande. Vários grupos de aventureiros morreram ali, tentando descobrir o motivo desse estranho fenômeno.

Um grupo de clérigos e paladinos, no entanto, havia conseguido chegar bem fundo nas cavernas dos anões, somente para encontrar um grande e estranho salão. Parecia abandonado a eras, mas estava ricamente adornado com vários quadros e objetos de valor. Um dos clérigos do grupo dizia que vários deles poderiam ser mágicos, dado o estranho brilho azul que emanavam.

E um desses objetos, o mais brilhante, chamou a atenção de todos. Uma onda de pavor se abateu, como se naquele momento um relógio tivesse iniciado uma contagem regressiva. Uma contagem para algo que causava cada vez mais pavor. Para algo que eles não queriam presenciar. Essa onda que pareceu reverberar até mesmo nas paredes.

Ao tentarem voltar pelo caminho que vieram, só encontraram rochas fechando o caminho. Devia haver outra forma de sair e, envoltos na aura de terror que o objeto criava, os aventureiros resolveram sair pelo único lugar que lhes permitia ficar longe dali.

Desordenadamente, cada um dos aventureiros entrou em uma das portas do salão. Ouviam-se gritos de dor e de ossos quebrando em vários lugares. Logo perceberam que aquilo não era uma saída, mas um labirinto, construído para manter aqueles que ali se encontravam nunca sair, ou os que chegassem, nunca mais entrassem.

De um grupo de quase 20 aventureiros, somente uns dois clérigos e três paladinos conseguiram passar por esse tormento vivos. Com muito custo, todos se recuperaram das feridas. No entanto, ainda não haviam saído do complexo. Olhos azuis apareceram em alguns cantos do lugar onde se encontravam. Sem titubear, os clérigos clamaram sua fé para que os espíritos malignos ficassem longe. Mas, por desígnios que ninguém mais sabe dizer, eles não viveram para saber se havia funcionado.

No final, um paladino e um clérigo conseguiram finalmente ver a luz. Mas, talvez fosse tarde demais para que eles pudessem se salvar...

Capítulo 3

- Vocês se consideram bons guerreiros?

- Sim senhor, nós já passamos por todos os perigos que alguém poderia passar nessa vida.

- Até morrer?

- Como?

- Sim, até morrer.

- Não ... Não entendo o motivo de sua preocupação.

- Se vocês têm apreço por suas vidas, e realmente querem tentar essa contenda que lhes dou, deveriam dar valor à essa minha pergunta.

- Bom senhor, não é qualquer pessoa nestas terras que está disposto à dar 1000 peças de ouro, adiantado, para aqueles que se dispuzessem a encontrar, o que o senhor diz ser, o covil do Grande Lich.

- Sim, não é qualquer pessoa que está disposta. Eu mesmo já fiz o que vocês estão fazendo. No entanto, as minhas buscas nunca resultaram em sucesso, porque de algum modo, o Grande Lich pode me sentir. E vocês não são o primeiro grupo que eu envio. Somente hoje, já foram quatro grupos enviados para várias partes do Sul de Anfalas.

- S-senhor?

- Sim, amigos. Se vocês encontrarem o que eu acredito que algum dia alguém algum dia encontrará, torçam para que não seja tarde demais para que vocês possam fugir com vida. Pois esse será o único prêmio que vocês irão querer caso passem da tênue linha que divide o mundo dos vivos do mundo dos mortos.

- Você é estranho. Mas, por algum motivo que desconheço, eu quero participar dessa campanha.

- Quantos de vocês irão?

- Isso importa?

- Não. Mas, só para contar em minhas estatísticas, gostaria de saber quantos já enviei nestas buscas.

- Bom, até o momento só eu e meu amigo dracônico.

- Dois, bom. Bem, anotado então. Aqui estão suas 1000 peças de ouro. E se tiver notícias que possam ser úteis a mim, considere-se um homem de sorte. Se quizer uma direção, arrisco dizer que um grupo que foi para as montanhas da névoa possa ter alguma sorte. Eles são servos divinos, acreditam em milagres. Como eu, acredito que você não pensa dessa forma.

- Entendo. Agradeço pelas palavras e pelo dinheiro. Até um momento posterior...

Capítulo 4

- Você nunca encontrará o lugar onde eu estou, meu caro amigo de infância!

- Você morrerá pelas minhas mãos. Escreva isso, amigo! Nunca esquecerei o que você fez à ela!

- Eh, você sempre diz isso quando está próximo de me destruir meu amigo. E aqui estamos nós novamente. E não pense que não sei que você está novamente tentando me encontrar. Essa sua nova idéia nunca dará certo!

- Sim, dará por uma única coisa. Nós partilhamos nossos pensamentos, meu irmão de lutas. Só por esse motivo que eu sei que você teme que nos encontremos de verdade no final. Porque você sente que, quando o momento chegar, eu estarei lá, para terminar o que nunca deveria ter começado. E sabendo que você lê minha mente, nada melhor do que enviar outros ao seu encalço!

- Esperto, mas nunca dará certo!

- Veremos!

(E mais uma vez, o lich cai morto no chão, sua luz se extinguindo em uma fumaça azul, que foge pela janela de uma funda masmorra num castelo abandonado)

Capítulo 5

- ... e é por isso que quando eu crescer, eu quero ser um Lich bem forte!

- Mas, se você se tornar um lich, eu vou ter de me tornar o seu caçador e vou ter de matar você!

- Seu burro, eu serei um Lich, e liches vivem para sempre! Se você me matar, eu volto de novo, depois!

- Ahhh, mas eu vou querer viver para sempre também! Para poder matar você todas as vezes!

- Mas ...

- Caeryn, Gillian, está tarde! Gillian, vá para casa! Isso não é hora de vocês dois estarem na rua! O que vou dizer para a sra. McBerth se ela souber que deixei vocês ficarem na rua até essas horas?

- Mas mãããããeeeeeee.

- Nada de mais! Diga adeus para seu amigo!

- Adeus Gillian!

- Adeus Caeryn!

Capítulo 6

Os anos passaram rápido. Muito do que se ouviu e se falou sobre esta história, ocorreu a muitos anos. Alguns considerariam até mesmo que isso não passaria de uma lenda, um conto para assustar crianças pequenas se, e somente se, eu não fosse filho do grande guerreiro Caeryn e tivesse ouvido tudo de sua própria boca, antes que ele partisse em busca da sua redenção.

Passaram-se muitos anos desde que resolvi contar esta história. Estou finalmente ficando velho e minhas forças há muito já não são as mesmas. Me pergunto se meu pai ainda está vivo. É difícil para muitos acreditar que se é filho de alguém que já vive na terra há mais de 400 anos. Mas, sei que no final, ele soube que seu tempo estava chegando, e finalmente pôde viver seu tempo até encontrar seu nêmesis e finalmente descansar. Assim eu penso.

Nunca mais se ouviu falar do grande guerreiro, que morreu nas montanhas da névoa. Só se sabe que depois de alguns anos, a montanha novamente podia ser vista ao longe. No entanto, o terror inominável ainda pairava aquelas regiões. E diziam, também, que alguém estava sempre vigiando.

Sombras de velhos temores, ou temores de velhas sombras. Nunca se saberá ao certo.

Thorian, 80 anos, Mago Branco, Conselheiro-chefe da Efígie dos Três Poderes de Entalis e Curador da Biblioteca de Conhecimentos Históricos e Místicos de Cristália, Anfalas.

FIM.