quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Ubuntu: Autenticando em um domínio Windows

Há algum tempo, um amigo me perguntou se seria possível adicionar uma máquina linux num domínio Windows. Eu disse que era possível, mas nunca havia ido atrás para tentar descobrir. Nesses últimos dias, me pediram aki no trabalho para pesquisar uma forma de permitir que os servidores usassem o linux sem que fosse necessário criar uma conta para cada máquina. Daí, em vista disso, fui atrás de tentar descobrir como fazer.

A princípio não é uma tarefa difícil. Tudo o que você precisará fazer é configurar alguns arquivos, ingressar a máquina no domínio e configurar o pam para que o sistema busque as informações de logon no servidor de autenticação.

Isso existe aos milhares na internet, com várias soluções prontas onde vc só coloca os dados do seu domínio e pronto, já está funcionando. No entanto, o que eu proponho com esse post não é suprir uma solução pronta, mas explicar como cada parte do conjunto da solução se integra, de forma a produzir o nosso produto final, que é permitir a autenticação em uma máquina com linux usando o Active Directory do Windows Server como provedor.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Passagem de Duna - Frank Herbert



Ou nós abandonamos a Teoria da Relatividade, há tanto tempo aceita, ou paramos de acreditar que possamos nos envolver numa contínua e precisa previsão do futuro.

De fato, conhecer o futuro levanta um conjunto de questões que não podem ser respondidas sob os parâmetros normais, a não ser que alguém, à princípio, projete um observador para fora do Tempo, e em segundo lugar anule todo o movimento.

Se você aceita a Teoria da Relatividade, pode então demonstrar que o Tempo e o Observador devem permanecer imóveis, um em relação ao outro, do contrário surgirão imperfeições. Isso parece indicar ser impossível realizar uma previsão precisa do futuro.

Como então podemos explicar a contínua busca desse objetivo visionário por parte de cientistas respeitados? E como então explicar o Muad'Dib?


Palestras sobre a Presciência por Harq al-Ada - Os Filhos de Duna, Frank Herbert

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

FF7 - On a Way to a Smile - Barret

Olá pessoal! Estou vindo até vocês novamente para postar uma história paralela do universo do Final Fantasy VII. Estou meio sumido esses tempos, mas logo mais em fevereiro volto com muitas coisas novas. Histórias de Entalis, dicas de TI, whatever ...

Por enquanto, espero que curtam a história de hj, sobre Barret ...

"On a Way to a Smile - Barret"

Vários meses haviam se passado desde aquele dia! O dia destinado. Depois de ajudar Tifa e Cloud a construírem seu bar, Barret deixou Marlene, sua filha adotiva confiada a ele por seu grande amigo Dyne, com os dois e partiu em uma viagem. Uma viagem para se redimir dos pecados de seu passado. Antes de partir, trocou algumas palavras com Tifa, que se sentia igualmente culpada...



"Não viva apenas tirando algo dos outros. Tente provar que você pode doar também."

Barret pensava que fazendo isto, ela enfim alcançaria a redenção. Porém, essas palavras não serviam de consolo para ele mesmo, e Barret continuava inseguro do que teria de fazer. Estar com Marlene lhe traria paz de espírito, mas por outro lado, ele se sentiria culpado por viver dia após dia sem fazer algo de concreto. Ele sabia que tinha de partir, ainda que não soubesse porquê. Colocar distância entre ele mesmo e o que servia de apoio ao seu coração, isso o levaria a respostas verdadeiras. Isto era uma fuga para um reencontro consigo mesmo.

Durante seis meses, ele vagou pelo mundo. Fora o problema com o Geostigma, a vida fora de Midgar estava aparentemente normal. A única diferença era que agora nada usava Mako, não havia um só reator funcionando. Há algum tempo, isto teria sido considerado uma vitória para Barret e o movimento anti-Shin-ra (Avalanche), porém o sentimento de estar perdido superava qualquer sensação de satisfação. Não existia lugar para um homem com uma metralhadora implantada em seu braço direito, a não ser em meio a batalhas e caos.

"Deixarei tudo de lado, e simplesmente não pagarei por meus pecados?"

Pensar nisso o fazia sentir ainda mais pavor. Algumas vezes ele adentrava o bosque em busca de lutas, vencendo alguns monstros que o atacavam, mas essas batalhas fúteis só lhe faziam sentir mais asco de si mesmo.

"A única coisa que estou matando é o tédio."

E ele sempre acabava deixando escapar um grito de raiva.

"Raaaaaaahhhh!!!"

...

Aconteceu enquanto ele andava entre a multidão em Junon. Alguma coisa colidiu contra o seu braço-arma, e quando ele olhou para baixo, encontrou um garoto chorando, com sangue escorrendo de sua testa. Quando Barret já ia fazer algo a respeito da ferida, uma mulher, certamente a mãe do menino, chegou correndo e disse:

"Por favor! Perdoe o meu filho! Eu imploro! Faço qualquer coisa!"

Os olhos da mulher fitavam fixamente a metralhadora que Barret tinha implantada em seu braço direito.

"Mesmo em tempos de paz, eu continuo sendo o mesmo monstro.", pensou.

Os tempos estavam mudando. Ele tinha de pensar em uma nova maneira de viver nesses novos tempos. Não sabia exatamente como poderia fazê-lo, mas sabia que devia mudar a si mesmo primeiro.

...

Barret foi visitar o velho Sakaki, um artesão que havia criado próteses para ele antes. O primeiro modelo era simplório, tendo um gancho inserido no final. Barret estava insatisfeito. Queria algo mais. Para cavar a terra, o ancião poderia construir um braço com uma pá; para cortar árvores, um braço com uma serra poderia servir perfeitamente. Mas nada disso deixava Barret satisfeito por completo.

Um dia, o ancião disse isso a Barret, em um tom sério:

"Sua cabeça só pensa na vingança contra a Shin-Ra. Jamais ficará satisfeito com o que quer que seja que tenha em seu braço. Tome isto e não volte mais!"

O que o ancião havia lhe dado era um adaptador que permitia colocar acomplementos ao seu braço. Com ele, Barret poderia colocar várias próteses e armas diferentes no braço direito.

"O que vai colocar aí é problema seu, mas aconselho que pense bem antes de fazê-lo."

Ao invés de seguir o conselho do ancião, Barret não pensou muito nisso. Durante os dias seguintes, a única coisa que fez foi tentar instalar todo tipo de arma que pudesse carregar e experimentar seu poder destrutivo. Durante alguns anos, as únicas coisas que Barret levaria em seu braço seriam armas.

...

Quando Barret voltou ao ateliê do ancião, pediu que lhe fizesse um novo braço. Um que tivesse uma textura mais suave e com uma mão na extremidade. Um que ninguém temeria, um que lhe permitiria levar uma vida normal. O ancião apenas deu um suspiro e olhou firmemente para Barret.

"Não é só para parar de lutar. Não quero que as pessoas tenham medo de mim, nunca mais."

"Então... Quem você quer ser realmente?"

"Como eu dizia..." - Barret começou a responder, mas buscando a resposta em seu interior, chegou à conclusão de que ela não existia. - "O que eu vou fazer agora que todos no mundo estão tentando aprender a sorrir de novo? Não há lugar para mim nesse mundo."

"Oras! Como se eu soubesse!"

...

"Vou precisar de uma semana. O que me diz?"

"Concordo. Enquanto você faz isso, eu..."

"Se não tiver nada em mente..." - interrompeu o ancião - "Porque não ajuda o meu sobrinho com seu trabalho? E em troca... Hmm..."

"Não se preocupe. Não preciso de uma recompensa."

"Tudo bem, mas pensarei em algo assim mesmo."

...

No dia seguinte, Barret partiu num caminhão. O sobrinho do velho Sakaki ia dirigindo, e Barret percebeu que esse caminhão era do mesmo tipo do que o que o levava a todos os lugares quando pequeno. Seu motor funcionava por meio do vapor produzido a partir do aquecimento da água quando esta entrava em contato com o carvão em brasa da caldeira.

Eram necessários quatro homens trabalhando juntos para fazê-lo funcionar: um motorista, por motivos óbvios; um engenheiro, vigiando o rendimento do motor; e mais dois homens para encher a caldeira de carvão. Na parte de trás do enorme caminhão, ficava o compartimento de carga, o qual podia levar cerca de dez pessoas.

O carvão ocupava o espaço de cinco homens, e Barret valia por duas pessoas no espaço restante.

Barret estava deitado de barriga para cima, observando o céu.

"Puxa, isso está muito devagar.", pensou.

Não era culpa de ninguém. Os grandes caminhões a vapor sempre andavam a baixas velocidades como este. Os homens da caldeira trabalhavam duro, suando até a última gota. Tudo estava funcionando perfeitamente. Um dos homens da caldeira, um senhor de meia idade, se aproximou de onde estava Barret para descansar.

"Sinto muito incomodá-lo enquanto você está de mau humor, mas preciso me sentar."

"Não estou de mau humor, então não há porque se desculpar."

"Está com tanto mau humor que a raiva lhe sai pela pele."

Barret se sentou e olhou enfurecido para o homem:

"Você não tem mais nada para fazer?"

"Viu só? Tenho razão ou não?"

Os dois se calaram por um momento. Finalmente o homem de meia idade abriu a boca de novo.

"Você pretende ser um guarda-costas para sempre?"

"Só estou fazendo um favor ao velho. Não sei o que farei depois."

"Não seria interessante continuar assim?"

"Ser guarda-costas? Ninguém quer ficar longe disso mais do que eu."

"Eu não imaginava." - o homem permaneceu em silêncio. Barret esperou que continuasse.

"O que esse idiota está achando que eu sou?", pensou.

"Hei, diga o que quer dizer, homem." - Barret disse, por fim. - "Talvez, esse senhor possa me dar uma pista sobre o que fazer com a minha vida."

"Que tipo de pessoa eu pareço ser para o senhor?" - Barret insistiu mais uma vez.

"O tipo que, ao invés de simplesmente matar os monstros que te cercam, vai também às tocas dos mesmos para exterminá-los por completo."

"Quem sabe? Pode ser que eu faça isso."

"Mesmo se não souber onde essas tocas ficam." - disse o homem com um sorriso.

"Isso me faz parecer um idiota."

"O que você faz não é fácil. Deveria estar orgulhoso, não?"

Barret olhou nos olhos do homem e riu: "Heh, heh, heh..."

O homem lhe devolveu um olhar misterioso.

"Posso lhe pedir um conselho?"

"Depende do conselho."

"Quero pagar por meus pecados. É por isso que estou viajando. Mas não importa o quanto eu vague, não consigo imaginar uma forma de fazê-lo. Com certeza eu sou o homem de quem você falou. O que você acha que alguém como eu deve fazer para compensar por seus pecados?"

"Eu diria que depende dos pecados."

"Muita gente morreu... Por minha culpa."

Barret se lembrou de quando atacou o Reator Mako nº1 com seus companheiros da Avalanche. O dano foi muito maior do que o esperado. A cidade entrou em pânico. Depois, seus próprios amigos acabaram morrendo. Assim como os cidadãos que ele nem conhecia.

O homem da caldeira viu que Barret havia se calado e disse:

"Você só precisa permanecer de pé e viver, é só isso. Continue em busca do que você acha que será necessário para se redimir."

"Tinha medo que você dissesse isso."

"Por exemplo, digamos que você não saiba onde fica a toca dos monstros. Ora, saia e procure por ela. Pode ser que algum dia você dê de cara com! Ah, olha ali!"

O homem apontou para a parte de trás do caminhão. Um monstro pequeno, porém ameaçador, os estava seguindo. Barret dirigiu a extremidade de seu braço direito em direção ao monstro e abriu fogo, sem se preocupar um só momento em mirar. O corpo da criatura caiu despedaçado pelas inúmeras balas que o atingiram.

"Péssimo dia para ser um monstro.", comentou Barret.

Quando Barret se virou para dizer ao homem da caldeira que não se preocupasse, se deu conta de que ele não tirava os olhos de seu braço direito. Era o mesmo olhar da mulher de Junon.

"Pode ser que eu seja o monstro... Sabe, senhor, a toca dos monstros deve estar em algum lugar dentro de mim."

O homem da caldeira não foi suficientemente amável para responder.

...

O destino do caminhão era um pequeno vilarejo que sobrevivia da agricultura de batatas. Um após o outro, os homens traziam sacos cheios de batatas e os colocavam na área de carga do caminhão, na qual ainda restava metade do carvão que havia quando partiram. Enquanto ajudava com o trabalho, Barret se perguntava: "Quando vendem essas batatas na cidade, quanto será que ganham por elas? Sem dúvida, os salários das pessoas do caminhão devem estar incluídos no preço que os aldeões pedem pelas batatas." O preço da comida era um problema em Midgar. Demasiadamente alto, mesmo para uma época de crise. Porém, vendo tantas pessoas trabalharem tão duro, Barret começou a se dar conta de que não havia outro jeito. Quando o suprimento de Mako se esgotou, a maioria das máquinas usadas nas colheitas se tornou inútil. E colher batatas sem elas era muito mais trabalhoso.

Barret logo estava perdido em seus pensamentos. Se eles não podem mais usar as máquinas, não há outra escolha a não ser usar o próprio corpo. Bem, temos muita gente. Em Midgar, há todo tipo de gente sem trabalho, lutando sozinha para conseguir comida, não é verdade? Sim, essas pessoas podem comer aquilo que elas mesmas plantaram, e pelo menos fome elas não mais passariam. Claro, eles teriam de plantar algumas sementes, cultivar as plantas e cuidar delas. Também seria interessante se criassem gado.

"Ah, bingo!", pensou.

Se todos nos conscientizarmos sobre isso, chegará um dia em que poderemos viver sem miséria, pelo menos na questão da comida. Quando precisarmos de máquinas, podemos usar carvão, como os caminhões. Tudo o que temos de fazer de agora em diante é fazer as coisas como se fazia antes do Mako. Pode ser que sejam tempos difíceis. Pode ser que as coisas caminhem mais lentamente. Para as pessoas impacientes como Barret, pode ser que seja ainda pior, pode ser insuportável. Mas é assim que tem que ser. É assim que os tempos caminham.

Barret sorriu, feliz por ter chegado tão depressa a uma idéia própria. Então teve que considerar o que podia fazer. Primeiro, poderia incorporar uma enxada ao seu braço direito e começar a arar o campo. Daria o melhor de seu poderoso corpo e faria o trabalho de cinco homens. Mas espere, os novos tempos clamam por um novo líder. "Será esse o meu papel?", os pensamentos de Barret se aceleravam. Se imaginava dando ordens, e seus amigos se apressando para cumpri-las.

"Vamos lá, Barret!" - diria Jessie no início do dia, com Wedge e Biggs ao seu lado. Mas então lembranças de seus dias como líder da Avalanche vieram à sua mente, e a momentânea visão de um futuro brilhante se transformou num profundo remorso.

"Graaaaaahhh!!!" - gritou Barret.

"Merda, lá vou eu de novo..." - pensou, e deu uma olhada ao redor. Mas ninguém estava olhando. Todas as pessoas estavam reunidas em frente a uma casa, onde o sobrinho do velho Sakaki conversava com um homem de meia idade que devia ser do vilarejo. Barret se aproximou para se inteirar do assunto.

"Por mim, não há problema algum em levar sua filha a Midgar. Entretanto, ela me parece terrivelmente debilitada! Pode ser que não cheguemos a tempo..."

"Mas..." - o homem de meia idade carregava em seus braços uma menina pequena, que estava desacordada, e aparentemente sofrendo. Era uma linda garotinha, mas de um de seus braços goteava um líquido negro, a horrível Geostigma, e em um estado muito grave. Barret havia dado de cara com o tipo de situação que mais odiava: "Agora, agora mesmo, acontece uma desgraça bem na sua frente e você não é capaz de fazer merda nenhuma."

Barret sabia que mesmo que ela fosse a Midgar, não poderia encontrar um tratamento decente. Talvez fosse melhor dizer isso a ela. "Você não deveria permanecer aqui no vilarejo, em paz, nos seus últimos dias?", ele pensava em dizer. Mas se dissesse isso, ele acabaria com todas as esperanças do pai e da filha. "Isso é tudo o que posso fazer? Me calar e deixar que as coisas sigam seu curso?" - Barret queria gritar.

"Ir a Midgar não será uma perda de tempo?" - perguntou uma voz. Barret olhou para o lado e viu o rosto familiar do homem da caldeira, com os olhos franzidos.

"Provavelmente." - respondeu Barret.

"Então é melhor que eles saibam." - disse o homem, e começou a caminhar em direção ao homem e sua filha.

"Espere!" - disse Barret.

Mas o homem não lhe deu ouvidos. Barret foi atrás dele, determinado a pará-lo antes que suas palavras levassem ao desespero o homem e sua filha. O homem parou, se virou e disse a Barret:

"Você acha que devemos deixá-la ir até Midgar, para assim deixa-lá feliz, é isso? Mesmo que isso não sirva para nada?"

"... Sim."

"Bom, estaria tudo bem se fôssemos numa nave voadora, mas tudo que nós temos é um caminhão. O compartimento de carga fica muito quente e apertado. É uma viagem dura. Você sabe. O que fará se ela morrer antes mesmo de chegar?"

"Ainda assim, vamos levá-la, por favor..."

"Não se preocupe. Serei eu quem contará a eles. Provavelmente acabarei com suas esperanças. Porém, será melhor para a menina estar em casa, com sua família, no final..."

Barret não sabia se era ele ou homem da caldeira quem estava com a razão. Precisava pensar bem. Sua mente voltou a dar voltas. Novamente queria gritar, porém se conteve.

...

Depois de um breve momento, o homem da caldeira voltou, sem nem ter entrado na conversa.

"Acaba de exalar seu último suspiro."

"O quê!?"

"Você... Quer saber quais foram suas últimas palavras?"

"Não." - pensou, mas o homem da caldeira continuou.

"Por favor, me leve até Midgar."

O homem da caldeira apertou seus punhos com raiva.

"Suponho que eu estava enganado."

"Raaaaaaaahhh!!!" - gritou Barret - "Está tudo errado!"

Cheio de raiva, mirou seu braço em direção ao céu e abriu fogo com sua arma.

E o som dos tiros ecoou por todo o tranqüilo vilarejo.

...

Barret permaneceu no vilarejo para presenciar o enterro da menina. Perguntou ao desolado pai da criança se havia algo que ele poderia ter feito.

"Se pelo menos nós tivéssemos uma nave voadora..." - murmurou o homem - "Eu já fui um tripulante da Gelnika. Se tivesse continuado voando, poderia ser que a minha pequena não tivesse morrido. Daqui a Midgar teria sido um vôo tão curto..."

"Escute, senhor." - Barret sabia que tinha de dizer algo - "Sei como se sente, mas não há como curar a estigma, nem mesmo em Midgar."

Se pelo menos isso, se pelo menos aquilo... Caso esse mundo dos "se" se tornasse realidade, o amanhã seria ainda mais incerto. E era por isso que essas conjecturas de nada adiantavam. Barret tinha experiência. E lamentavelmente, ao usá-la, só piorou as coisas. Enquanto Barret procurava as palavras apropriadas, o homem começou a falar:

"Não precisava ser Midgar. Poderia ser qualquer lugar. No momento em que soubéssemos que ali era possível curar a estigma, poderíamos nos pôr a caminho com o enfermo. Se tivéssemos uma nave voadora, estaríamos preparados."

"Preparados?"

"Minha filha não era a única sofrendo com Geostigma."

Ainda que tivesse acabado de perder sua filha, os olhos do homem se dirigiam para o que estava por vir.

...

O futuro que Barret havia criado em sua mente enquanto empacotava as batatas no caminhão havia desmoronado completamente. "Porque não podemos nos locomover também com naves voadoras, além de usarmos máquinas de terra? Em Midgar, já usamos veículos para locomoção e trabalho. Porque não uma nave voadora, então? Ainda que não usemos Mako. Os tempos mudaram, e eu vou fazer o mesmo."

...

Não muito longe da Cidade Rocket, ao leste, se estende uma região desértica onde não cresce uma única planta. Ali há uma torre de perfuração de petróleo de cerca de cinqüenta metros de altura, e uma pequena e velha refinaria construída à sua volta.

Muitos homens e mulheres estavam reunidos aos pés da enferrujada torre de perfuração. Uma delas era Shera, vestida com um jaleco branco de laboratório.

O engenheiro que estava ao seu lado falou:

"Diminuiu 70% em comparação com o mês passado. São mesmo más notícias, se quer saber o que eu acho. Como têm ido as coisas segundo as suas conclusões?"

"Temos progredido bastante. Não posso dizer que se compare com o Mako, mas temos organizado o processo de refinação de várias maneiras."

"Sei que podemos conseguir. Mas agora precisamos é do produto para refinar, não é mesmo?" - o engenheiro dirigiu seu olhar para o sol. Shera não pôde evitar de seguir seu olhar. Ela pensava em quanto ela queria que a gigantesca broca de aço ao seu lado conseguisse extrair o petróleo restante do solo.

"Só um pouco mais." - Shera juntou as mãos em oração, mas a mancha em seu antebraço esquerdo não era petróleo. Era a estigma.

...

A Cidade Rocket uma vez foi a base de operações para o programa espacial da Companhia Shin-Ra. Os engenheiros acabaram criando laços com o lugar, transformando a pequena vila numa cidade barulhenta.

Quando Barret chegou à cidade, viu crianças brincando na rua. Algumas delas tinham a mesma idade de Marlene. Seus olhos se iluminaram de imediato.

"Do que estão brincando, crianças?" - perguntou. As crianças olharam para cima, tentando identificar aquilo que estavam vendo. - "Que tal se deixarem um velho brincar com vocês?"

As crianças foram embora correndo. Barret soltou um suspiro e olhou para sua mão direita.

"Só terei que agüentar isso até a minha nova mão ficar pronta."

"Você dá medo de qualquer jeito." - disse uma voz que veio de trás.

"Me desculpe, mas, você é..." - ele não conseguia identificar a pessoa.

"Duvido que se lembre de mim. Sou da tripulação da Highwind." - Highwind era o nome da nave voadora que Barret e os outros usaram durante sua viagem para salvar o planeta.

"Oh, sim. Obrigado por ter nos ajudado então."

"Não foi nada."

Barret não demorou para pedir ao homem que o levasse até Cid. Enquanto caminhavam, ele ouviu algumas batidas metálicas ao longe.

"O horário de almoço acabou, sabe? É melhor nos apressarmos."

"O que está acontecendo?"

"Você não consegue imaginar? Aqui é onde os homens de Cid trabalham, afinal."

"Uma nave voadora?"

"Veja você mesmo!"

Passada a grande aglomeração de casas, se abria uma grande área, e Barret pôde ver uma enorme nave voadora. Sim, uma nave voadora, assim como a velha Highwind, estava em construção.

"Puxa! É uma visão e tanto."

A nave estava sendo apoiada num primitivo andaime. Na parte mais alta do andaime, o qual não parecia digno de receber aplausos por suas medidas de segurança, trabalhavam cerca de 20 pessoas da cidade. Tudo o que Barret podia ouvir era o som estridente da placa metálica sendo martelada em diferentes lugares. A nave parecia qualquer coisa, menos terminada.

"Ei, já está terminada!"

"Sim, mas só o esqueleto. Ainda não há nada dentro." - o homem acenou para o espaço vazio onde deveria estar o motor - "É porque não podemos mais usar Mako. O motor nos levará algum tempo."

O solo começou a tremer, e de alguma parte veio o som de uma explosão. Barret se assustou e caiu no chão.

"O capitão está ali." - riu o homem ao seu lado, indicando um galpão atrás da nave.

Dentro do galpão havia uma única coisa, um motor, que parecia se encaixar na nave voadora. Ele estava sobre uma enorme mesa de trabalho.

Muitos homens o observavam de uma distância segura, e todos eles vestiam máscaras. Novamente, o som de uma explosão. Barret estremeceu. Um dos homens arrancou sua máscara e correu em direção à máquina.

"Filho de uma...!"

Cid se inclinou para examinar a máquina, rangendo os dentes como se quisesse despedaçar um pedaço de carne

"Maldito pedaço de merda! Vou quebrá-lo em migalhas!"

Barret sorriu largamente. Ele não ouvia esse linguajar grosseiro há anos. E ele não tinha mudado nada. Cid se dirigiu tranqüilamente em direção a Barret, proferindo palavrões a cada passo.

Barret recebeu Cid com uma gargalhada.

"Continue falando desse jeito e Deus vai te castigar!"

"Deus? Então diga a ele que se apresse e venha até aqui." - disse rapidamente Cid, sem perder um segundo - "Quero trocar umas palavras com ele."

...

Os dois se puseram rapidamente em dia sobre os acontecimentos recentes.

"Deixei Marlene com Tifa. Elas se dão muito bem, então achei melhor que ela não viesse comigo."

"Que bondoso de sua parte. O mundo inteiro deve estar aplaudindo. E então, Cloud está com Tifa?"

"Sim. Tifa abriu um bar, como nos velhos tempos. Cloud a estava ajudando, mas parece que agora ele tem um negócio próprio que o mantém ocupado. Um serviço de entregas."

"Cloud? Administrando um negócio?"

"Pode apostar que Tifa o está obrigando a andar na linha."

"Com certeza. Afinal, ela é a mulher mais sensata que eu conheço."

"E como está Shera?"

"Bem, como sempre." - respondeu evasivamente Cid.

Depois disso desviou a conversa para outro lado, falando sobre como Red XIII continuava lhe fazendo visitas curtas, como Yuffie estava ensinando o estilo de luta Wushu às crianças de Wutai, e como Vincent estava completamente fora de contato.

"Bom, o que você quer afinal? Sou um homem ocupado."

"Está construindo uma nave voadora, não está?"

"Esse é o meu trabalho."

"Eu poderia ajudar nisso?"

"Você? O que um novato como você poderia fazer?"

Normalmente Barret haveria contestado com uma resposta bruta, mas dessa vez deixou passar, e contou a Cid o que esteve pensando.

"Se você tivesse uma nave voadora, Cid, teria um monte de vidas em suas mãos. Por exemplo, as pessoas com Geostigma. Se encontrassem uma cura em algum lugar, você poderia levá-las até lá num instante. Poderia levá-las voando a qualquer lugar onde fosse possível tratá-las. Entregar carregamentos de comida. Qualquer coisa que as pessoas precisem para viver, entende?"

"Bem, agora você disse tudo." - Cid aproximou seu rosto do de Barret - "Estamos falando de usar Mako. Mako! Você tem idéia do quanto a energia Mako faz falta para um veículo como uma nave voadora?"

"Diabos, é claro que não. Mas escute." - Barret fez uma recapitulação de tudo o que esteve pensando no caminho até ali - "Não se pode ser ambicioso. Se você usa Mako, está sugando a vida do Planeta, é inquestionável. Mas não estou falando de usar tanto a ponto de comercializá-la como antes. Vamos usar só um pouco. O Planeta poderia nos perdoar se usássemos só o necessário para prosseguir com nossas vidas."

A reação de Cid:

"Eeeeeeeei!!! Mas o que está acontecendo com o líder da Avalanche?"

Barret não tinha como contestar isso. Ao menos analisando seu passado, ele teria uma resposta interior. Mas agora que era outra pessoa quem estava perguntando, procurou as palavras adequadas. A melancolia o absorveu até o fundo de sua alma, e ele levantou o braço direito. Estava prestes a abrir fogo, quando se deu conta de que estava numa área coberta, e parou em seco. Porém gritou.

"Graaaaaaaaaaaahhh!!!"

Todas as pessoas no recinto imediatamente se viraram na direção de Barret.

"Sinto muito. Uhn, não foi nada..." - disse aos três que estavam ao seu redor, fingindo um sorriso. Então abaixou a cabeça, buscando as palavras para se explicar. Ao invés de palavras, imagens de seu passado vieram à sua mente. Essa expressão tão séria era a que costumava ver nos rostos de Biggs, Wedge e Jessie - "Vamos, digam algo. Digam, homens, encham-me de culpa."

Olhou para todos os lados, como se quisesse afugentar as três figuras, e então olhou para cima. Cid o olhou diretamente.

"O que diabos está acontecendo com você?" - perguntou Cid, surpreso.

"Cid, você tem que me dizer. Eu não sei o que fazer. Meu passado é como um campo minado que não foi desarmado. Mas têm que haver coisas boas nele também. Mas quais? Quais delas são corretas? Quais são equivocadas? Quem você acha que eu devo ser de agora em diante? Eu preciso mudar. Isso não me é permitido por causa do meu passado? Hein? Acredita que eu devo continuar com essa arma pregada em meu braço assustando as crianças? É assim que vou pagar por meus pecados? Eu já não sei de mais nada. Me ajude, Cid! O que eu devo fazer?"

E no final, Barret abriu fogo contra o teto, abrindo numerosos buracos nele. Cid olhou para o teto e disse:

"Bem, para começar, pode arrumar isso."

...

Cid passeava tranqüilamente, supervisionando como Barret estava trabalhando cuidadosamente no conserto dos buracos do teto. Cheio de vergonha, Barret decidiu ignorá-lo e continuar os reparos. Cid se sentou ao seu lado.

"Está mais calmo agora?"

"Sinto muito."

Cid balançou a cabeça para dizer "não se preocupe". - "Preciso de sua ajuda com uma coisa."

Barret parou de trabalhar e olhou para Cid.

"É sobre o que disse antes, Mako. Sobre a possibilidade de colhermos apenas um pouco do Planeta, só o que precisamos. Tivemos a mesma idéia. A verdade é que as naves voadoras são úteis. Especialmente quando o mundo está no meio de uma crise, tentando se recuperar. Se algum dia me disserem que não precisam mais delas, suponho que posso encontrar algum lugar com uma bela paisagem para aterrisar, e transformá-lo em minha casa."

Cid continuou falando sobre a situação atual da energia. Do jeito que estavam as coisas, os reatores Mako de todo o mundo estavam parados. E o motivo não era só porque as pessoas sentiam remorso por terem usado o Mako demasiadamente, sugando a vida do Planeta. Havia também um problema prático maior: a extração era difícil sem a Shin-Ra, que era quem havia criado os reatores Mako. Mas qual era a verdadeira razão de ninguém ainda ter tentado reativar os reatores Mako?

"Hoje em dia, todo mundo sabe que a energia Mako absorve o Lifestream e o consome" - disse Cid - "E naquele dia, todos experimentaram em primeira mão como o Lifestream pode ser terrível. Estão assustados. Assustados demais com o Planeta. "

Barret se lembrou da imagem do Meteoro se desintegrando bem acima de Midgar, momentos antes de ter podido destruir a cidade. O poder do Lifestream era aterrador, seguramente muito maior do que qualquer coisa que o homem poderia produzir.

"Ninguém quer mexer com Mako, nem com uma vara a dez metros de distância."

"Então você está dizendo que não há forma de produzir energia Mako agora?" - perguntou Barret.

"Exato. Provavelmente não há como. Entretanto, ainda resta algum Mako que nunca foi usado acumulado nos reatores de Midgar. Agora mesmo, essas reservas de Mako fariam funcionar todos os motores de Mako do mundo. Os líderes locais podem dividí-lo, repartindo-o de acordo com o que acreditam ser mais necessário. Principalmente para manter funcionando as máquinas que ajudam com a reconstrução."

"Sim, eu sei. Estive em Midgar. Mas veja, que mal haveria em aproveitar só um desses reatores agora e também depois? Duvido que seja tão temível." - Barret disse, enquanto pedia perdão a Jessie, Wedge e Biggs.

"Não extrairá uma só gota de Mako naquele solo. O fluxo do Lifestream mudou."

"Você tem certeza disso?"

"Red me contou. Já que foi ele quem disse, deve ser verdade."

Barret ficou sem palavras. Acaso este seria um aviso do Planeta de que não deveriam usar Mako nunca mais?

"Agora, se fôssemos construir um reator Mako em algum outro lugar, seria uma história completamente diferente. Mas primeiro temos de encontrar o lugar, transportar todos os materiais... Não sei quando acabaríamos. Além do mais, há o problema de como transportar todos esses materiais em primeiro lugar."

"Isso não é nada bom."

"Sim. Uma vez que essas reservas de Mako se esgotem, acabou. O mundo voltará à época do carvão. Voltaremos a ter de nos esforçarmos nos velhos caminhões a vapor de novo. Voltaremos a viver na época em que, no máximo, cruzaremos grandes dstâncias velozmente montando chocobos. Não seria tão ruim, se quer saber."

"É assim que você quer viver, como um derrotista? Está me dizendo que devemos conduzir nossas vidas em direção ao retrocesso? Sim, estaremos na merda por um bom tempo, eu sei. Talvez seja melhor para nós não voltar a trilhar o mesmo caminho. Mas e daí? Por causa disso, vamos ficar parados? Por quê não podemos buscar outro caminho?"

"Que nos levará ao petróleo." - disse Cid com um amplo sorriso.

"Petróleo? Aquele piche inútil?"

Para Barret, que trabalhou nas minas de carvão, mencionar o petróleo era uma surpresa. A única coisa para a qual ele servia era para queimar em lamparinas.

"Ele só se tornou inútil porque apareceu o Mako. A verdade é que o petróleo ia comandar a nova era. Teríamos uma tecnologia destinada a produzir diferentes combustíveis a partir do petróleo. Mas uma vez que o Mako surgiu, a tecnologia se centralizou nas aplicações dele. E o petróleo desapareceu da história."

E Cid continuou, explicando como ele e sua equipe haviam encontrado documentos e localizado um antigo campo de petróleo. Felizmente, não ficava muito longe da Cidade Rocket. Ali, encontraram instalações para perfurar o solo em busca de petróleo e refiná-lo em gasolina. Estava tudo muito enferrujado, mas não inutilizável. Cid e seus camaradas haviam restaurado as instalações a um estado operacional. Mas a gasolina não produzia energia suficiente.

Eles precisavam de um combustível mais potente. Haviam colocado todos os seus esforços em conseguir esse objetivo, e por fim a possibilidade de conseguir combustíveis para reatores parecia clara. Paralelamente a isso, eles estavam trabalhando em um processo para modernizar os motores, para que funcionassem com o novo combustível. Entretanto, esse projeto não estava avançando muito bem.

"Desde quando começaram a molengar, estúpidos?"

"Depois que aconteceu aquilo, logo depois."

"Meu Deus! Cid, isso é incrível!"

"Como eu lhe disse, temos os documentos. Não há sinais de uma nova tecnologia. Tudo o que temos feito é trazer de novo à vida uma tecnologia antiga."

"O que vocês têm feito significa o fim do carvão, não é?" - Barret, tendo crescido numa cidade de mineradores de carvão, tinha sentimentos confusos quanto a isso.

"Os tempos mudam. O que penso é que nós nascemos na mudança, só isso."

"Não posso dizer que me sinta a favor de uma parte ou de outra."

"Então, que tal você se sentir uma pessoa afortunada? A nova era é a nossa oportunidade de tentar fazer todo tipo de coisa."

"Tem razão."

"A única parte ruim é..."

"O quê?"

"Com tanta coisa para fazer, nós mesmos acabamos ficando sem tempo. Não é uma merda?"

...

Cid e Barret partiram para o leste da Cidade Rocket. Caminharam o dia todo, antes de chegar ao seu destino. Shera veio dar-lhes as boas-vindas.

"Olá!" - exclamou Barret, que estava feliz por vê-la novamente depois de tanto tempo. Shera parecia não ter mudado nada. Mas Barret notou uma marca da estigma em sua mão direita. Ela provavelmente percebeu isso, e a escondeu debaixo da manga.

"E então, você está bem?" - perguntou Cid bruscamente - "Não se esforce demais."

"Nós ficamos sem tempo...? Não, o ‘nós’ já não existe mais...", pensou Barret.

Cid olhou para a torre de perfuração de petróleo. Não mostrava sinais de funcionamento.

"Porque esse demônio não está funcionando?"

Shera rapidamente explicou a situação.

"Nós o cortamos essa manhã. Poderíamos tê-lo forçado mais, mas a produção já havia caído mais de 10% em comparação com quando começamos a perfurar, e então decidimos parar a bomba de extração."

Cid baixou o olhar e disse:

"No primeiro dia em que chegamos aqui, isto jorrava sem usar sequer uma bomba. Ficamos todos sujos de preto com o petróleo que saía. Rachamos de tanto rir."

Barret deixou escapar um grande suspiro.

"O Planeta não vai dar mais nada para a gente, não é?"

"Isso não é verdade." - disse Shera com uma voz firme - "O Planeta tem muitas coisas boas reservadas para nós. E eu lhes asseguro que o carvão, o petróleo e o Mako estão entre elas. Inclusive devem existir coisas que nós nem conhecemos ainda. Ficaremos bem, enquanto não as usemos erroneamente. Enquanto não nos tornarmos gananciosos. Se formos persistentes, o Planeta olhará por nós. Afinal de contas, o Lifestream que o percorre já foi uma vez as vidas das pessoas que viviam onde nós estamos."

Cid e Barret refletiram sobre essas palavras.

"Shera... Ela sempre se preocupará com Cid, não importa se esteja viva ou se tenha retornado ao Planeta." - pensou Barret - "O mesmo vale para Cid. E para mim."

"Shera..." - foi tudo o que Cid disse para quebrar o silêncio.

Depois de um tempo, ele voltou a abrir a boca:

"Shera, como está o combustível?"

"Bem. Parcialmente ele depende da eficácia do seu motor, mas deve ser capaz de dar uma volta completa ao redor do Planeta. Deve ser o suficiente para mais que uma volta regulada, eu diria. O que você acha?"

"O motor não está pronto. Nada funciona. Não tenho sequer uma idéia em mente. Escute, Shera..."

"O quê foi?"

Cid se calou. Barret falou em seu lugar.

"Cid quer você por perto, para que o ajude com o desenvolvimento do motor. Para que o coloque em forma, sabe? Mesmo que o combustível esteja terminado, ainda há um monte de coisas para fazer."

"Eu sei." - Shera olhou para Cid - "Não posso jogar a toalha ainda."

Barret precisava dizer algo mais.

"E depois que terminar de construir o motor, há mais um monte de coisas para fazer!"

Shera concordou com ele com um sorriso.

...

Os três observaram a torre de perfuração em silêncio.

"Barret..." - disse Cid - "Você conhece algum campo de petróleo?"

"Deixe comigo!" - Barret já não tinha mais nenhuma dúvida. "Ei, Planeta. Ei, todo mundo que vive aqui. Se querem me castigar, que o façam. Mas vou lutar com tudo o que tenho. Os únicos que têm o direito de me castigar são os idiotas que continuam vivendo. Vou viver, por isso teremos um amanhã."

...

Quando Barret voltou ao ateliê do velho Sakaki, este já havia construído uma nova prótese, exatamente da maneira como Barret havia pedido. A mão era feita de madeira, e causava uma boa sensação de tato. Não era feita para se encaixar num adaptador, ajustando-se diretamente ao braço de Barret. Barret olhou para a mão, depois para o ancião e disse:

"Todavia, tenho que continuar viajando. Preciso fazê-lo. Tenho que encontrar algum lugar que produza petróleo. Pode ser que eu acabe indo a lugares onde ninguém mais se atreveria a entrar, lugares perigosos. Não consigo sequer imaginar os monstros que encontrarei. Por isso ainda preciso de uma arma. E não só para me defender. Não posso me dar ao luxo de parar de lutar. Se eu parar, então outra pessoa terá que fazer isso em meu lugar, por isso essa é a minha causa. Não, minha sina. Minha penitência."

Depois de ouvir essas comoventes palavras, pouco características de Barret, o velho Sakaki foi até a parte de trás da tenda, e voltou com um pacote. Quando o abriu, Barret viu diante de si uma prótese com algo de diferente. Era uma estranha mão feita de metal. Até os dedos pareciam capazes de se mover.

"Com a prática, poderá chegar a escrever com ela. Depende de você se isso será útil ou não."

"Isto!"

"Pretendia dá-la como pagamento por ajudar o meu sobrinho. Mas como parece que não vai usar, a guardarei."

"Sinto muito. Deve ter passado por muitos problemas para fazê-la."

"Não se preocupe. Você ainda tem muitos anos de vida pela frente. Venha pegá-la quando tiver terminado sua missão." - disse o ancião - "Cuidarei para que não enferruje."

...

Depois de deixar o ateliê e caminhar um pouco, Barret pensou: deveria escrever uma carta para Marlene. Chamá-la para vir com ele nessa nova viagem. Não. Uma vez que tudo estivesse terminado, ele voltaria aqui e a escreveria com a nova mão que o velho lhe fez. E levaria a carta pessoalmente para Marlene. Barret queria gritar. Por isso, com todas as forças de seu coração, ele o fez:

"Aí vou eu!"

Caso de Barret, fim.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

FF7 - On a Way to a Smile - Tifa

Vamos à mais uma história do Final Fantasy VII Complete ...

"On a Way to a Smile - Tifa"

Tifa se despediu do último cliente de seu bar, Seventh Heaven, antes de voltar para dentro para limpar o balcão. A sala estava silenciosa, com uma iluminação mínima, mas adequada. Não havia ninguém lá além de Tifa. Há alguns dias atrás o trabalho não parecia tão cansativo. Ela gostava de trabalhar ao lado de sua família, esquecendo todos os problemas, mas agora a água ficou fria, e ela não consegue mais manter a mesa limpa. Tifa ligou todas as luzes do bar, numa tentativa de mudar o clima. Por um breve momento, o local se iluminou um pouco, mas o suprimento instável de energia não deixou que durasse muito. O bar estava escuro de novo. Um sentimento de desconforto tomou conta dela. Ela imaginava se estava sozinha ali. Não podia agüentar esse pensamento, e chamou o nome da garota...



"Marlene!"

Em pouco tempo, passos macios eram ouvidos vindos do quarto da criança, e Marlene apareceu.

"Shhhh!", ela disse, colocando o dedo nos lábios. Tifa se desculpou, mas estava aliviada.

"Denzel finalmente dormiu."

"Ele estava sentindo dor?"

"Sim."

"Você poderia ter me chamado."

"Denzel não deixou."

"Entendo..."

Tifa se culpava por permitir que a criança se preocupasse.

"O que foi?"

"Hmmm... O que?", Tifa respondeu sem sentido, tentando esconder seus sentimentos. Marlene olhava para a loja vazia.

"Está se sentindo sozinha?", a menina entendia a situação. "Eu não vou a lugar nenhum."

"Obrigada. Você deveria ir dormir também."

"Eu já estava quase dormindo!"

"Desculpe."

"Ela é minha filha. Foi assim que a apresentei às pessoas. Seus pais morreram há não muito tempo atrás e ela foi adotada pelo melhor amigo do pai, Barret."

Tifa aprendeu muito sobre Marlene desde que conheceu Barret e começou a trabalhar com ele. Era simplesmente natural Barret ter confiado Marlene a Tifa quando decidiu partir em uma jornada para resolver seu passado.

Tifa parou de limpar e seguiu Marlene para dentro. No quarto da criança, havia duas camas, uma ao lado da outra. Lá, Denzel dormia bem. A cicatriz de Geostigma na testa do jovem de apenas 8 anos era uma visão dolorosa. Nada podia ser feito para acalmar os sintomas, o garoto sofria e suas condições não melhoravam em nada. Denzel se mexeu um pouco quando Tifa limpou sua testa ensopada, mas continuou dormindo. Marlene, que observava Denzel, chamou por Tifa após se sentar em sua cama.

"Você ainda se sente sozinha, mesmo com a gente aqui, não é?"

"Desculpe-me", Tifa respondeu honestamente.

"Está tudo bem. Nós também somos assim."

"Eu entendo."

"Onde será que Cloud está?"

Tifa abaixou a cabeça, incapaz de responder. Cloud estava em algum lugar de Midgar. No início, ela imaginava que o pior poderia ter acontecido. Talvez ele tivesse sofrido um acidente no trabalho, ou talvez tenha sido atacado por um monstro.

Ela logo descobriu que ele ainda estava bem. Muitas pessoas o viram. Ele apenas foi embora de casa, só isso. Tifa tentava convencer as crianças de que não havia problemas, mas ela mesma não estava convencida. Em pouco tempo, as crianças perceberam que alguma coisa aconteceu.

"Porque ele foi embora?"

"Eu não sei. Talvez todos os tipos de problemas tenham ocorrido entre nós."

Mas Tifa se lembrava do sorriso no rosto de Cloud da última vez que o viu. Foi aquela bondade que a fez acreditar que tudo estava bem.

"Imagino se eu estava enganada."

...

Num dia destinado, um meteoro caiu do espaço. Emergindo do núcleo do Planeta, o Lifestream se fundiu e o destruiu. Tifa e seus companheiros assistiram à cena no céu.

"Eu gostaria que tudo apenas desaparecesse. Desaparecesse do meu passado. Do nosso passado. Talvez eu também tenha sentido o terror inevitável que viria com o alívio do fim da batalha."

"Eu imagino se poderia continuar vivendo como era."

Quando alguém se fazia esse tipo de pergunta, ela diria que deve-se sempre ir em frente não importa o que aconteça. Mas agora que quem perguntava era ela, a resposta era incerta.

Graças ao desenvolvimento de energia Mako da Shin-ra, o mundo estava prosperando. A luz cobria a superfície do mundo, mas ao mesmo tempo, algo muito mais obscuro estava acontecendo. O grupo anti-Shin-ra, "Avalanche", surgiu para fazer o mundo descobrir que obscuridade era essa.

A energia Mako estava levando o Planeta à destruição. Apesar das atividades de resistência da Avalanche, pouco mudou e o resultado não parecia bom. Depois que a humanidade adquiriu os benefícios do Mako, era difícil para ela se voltar contra ele. Num esforço para mudar a situação, Avalanche escolheu tomar medidas extremas. Na cidade de Midgar, onde muita quantidade de energia Mako era consumida e muitas pessoas viviam, eles explodiram um dos reatores.

Devido a um erro de cálculo na bomba, a área que foi destruída era maior do que o planejado. As áreas vizinhas ao reator Mako também foram destruídas. Em resposta ao incidente, a Shin-ra começou a agir para acabar com a Avalanche. Um setor inteiro de Midgar, onde ficava o esconderijo da Avalanche e muitas pessoas viviam, foi completamente destruído. Foi um ato brutal da Shin-ra para destruir o pequeno grupo rebelde Avalanche. Ao final do incidente, Avalanche se tornou a razão de tantas vidas inocentes terem sido perdidas.

Essa Avalanche era o grupo ao qual Tifa pertencia.

Ela acreditava que esses sacrifícios eram inevitáveis para chegar ao objetivo. Eles sempre estavam prontos para sacrificar suas vidas também. Mas após a catástrofe, Tifa e os outros perderam a direção de seu propósito original. Em meio à guerra com a poderosa Shin-ra, eles logo se encontraram enfrentando o poderoso Sephiroth. Tifa, ao lado de seu amigo de infância, Cloud, o outro sobrevivente da Avalanche, Barret, Aerith, que eles conheceram durante o caos, e Red XIII, partiu numa jornada. Após mais uma série de eventos, Cid, Cait Sith, Yuffie e Vincent também se tornaram seus companheiros.

Parecia que uma nova amizade estava florescendo, mas haveria um preço a pagar. Aerith perdeu a vida.

Mesmo assim, a jornada ainda não estava acabada. Olhando para trás, Tifa podia sentir que a luta estava chegando ao fim, embora eles não soubessem se iam vencer ou perder.

"Tudo começou quando eu ainda era uma adolescente. Houve alguns problemas no reator Mako que foi construído perto da minha cidade natal, Nibelheim, e nossa segurança estava ameaçada."

"Sephiroth foi despachado pela Shin-ra para resolver o problema, mas ele matou meu pai. Eu não consegui conter o ódio que senti dele e da Shin-ra. E então me juntei à Avalanche. Sim. Esse foi o início do ressentimento que eu guardava dentro de mim. Os ideais que a Avalanche usava sobre como eles eram anti-Shin-ra e anti-Mako eram justamente o que eu precisava para esconder meus verdadeiros motivos. Mas muitas vidas foram sacrificadas enquanto nós tentávamos salvar o Planeta. Tudo foi apenas uma vingança pessoal então..."

O pecado abalava o coração de Tifa.

Ela imaginava se poderia viver com esses sentimentos. Tifa tinha medo de seu futuro. Ela olhava para o céu em silêncio.

Ao mesmo tempo, Cloud estava sentado ao lado dela, olhando para o mesmo cenário, mas ele estava sorrindo. Era um sorriso que ela não havia visto antes, durante sua jornada. Cloud notou seu olhar e perguntou: "O que foi?"

"Cloud, você está sorrindo."

"Estou?"

"Sim."

"Tudo começará agora. Uma nova...", Cloud procurou as palavras certas, "Uma nova vida."

"Eu vou viver. Acho que é a única maneira de eu ser perdoada. Nós passamos por... Todo tipo de coisa."

"Acho que você está certa."

"Mas quando eu penso em quantas vezes eu já quis começar uma vida nova, é até engraçado."

"Por quê?"

"Eu nunca consegui."

"Isso não é engraçado."

"... Acho que dará certo dessa vez."

Cloud ficou muito quieto por um momento. E então ele disse: "Porque você está sempre comigo."

"Nem sempre eu estive com você."

"Mas é assim que será a partir de amanhã.", Cloud respondeu sorrindo de novo.

...

Tifa foi ver Aerith com seus companheiros. Aerith, que agora estava no fundo do lago da Cidade Esquecida. O mundo que ela quis salvar em troca de sua vida certamente ficaria bem agora. Isso é o que eles pensavam. Tifa ouviu uma voz perguntando se ela estava bem. Ela não sabia se era Aerith ou ela mesma. Ela não conseguia evitar de chorar. Quando Sephiroth tirou a vida de Aerith, Tifa não sentiu nada. Havia tristeza, mas essa tristeza aumentou ainda mais o ódio que ela sentia pelo inimigo. Pelo menos agora ela entendia a dor e tristeza que sentia, com seu coração se partindo sempre que visitava esse lugar. Ser membro da Avalanche e estar sempre com um grupo grande de pessoas criou esses sentimentos. As lágrimas não paravam.

"Sinto muito. Sinto muito."

Ela sentia as mãos de Cloud em seus ombros. Ele a abraçava firmemente, para que não fosse a lugar nenhum. Por enquanto, ela apenas se permitiria chorar o quanto quisesse. E então deixaria o resto com ele.

Sozinha, ela não sabia o que fazer.

...

Tifa e os companheiros com os quais esteve durante toda a jornada se separaram tão rapidamente quanto se aliaram. Vincent foi embora sem alardes, como um daqueles passageiros que se senta a seu lado no trem. Yuffie protestou. Não era certo que eles se separassem assim depois de tudo que passaram juntos. Barret foi quem disse a ela que eles poderiam se ver sempre que quisessem. Ou talvez tenha sido Cid. Após prometerem se reencontrar um dia, Tifa, Cloud e Barret se separaram dos outros, partindo para a Cidade de Corel. Era a cidade natal de Barret. As tragédias que aconteceram aqui por causa do Mako foram o que iniciaram tudo para ele. Ficando em silêncio por um momento, ele disse para os outros não o seguirem. Ele também tinha que seguir em frente com seus pecados.

Eles também foram a Nibelheim, a cidade natal de Cloud e Tifa. Eles não sentiram nenhuma nostalgia. Lembravam-se claramente dos incidentes que aconteceram na cidade.

"Eu não devia ter vindo.", disse Cloud. "Isso me leva de volta ao passado."

As palavras de Cloud falavam por Tifa também.

...

Eles foram a Kalm. Lá, esperando por eles, estava a mãe adotiva de Aerith, Elmyra, e a menina que foi deixada a seus cuidados, Marlene. Duas parentes de Elmyra moravam em Kalm, e foi lá que elas ficaram. Barret e Marlene estavam felizes em se ver de novo. Cloud contou a Elmyra o que aconteceu com Aerith.

Não havia sinais de como eles aceitaram isso, mas Tifa, Cloud e Barret se desculparam por não terem conseguido salvar Aerith.

"Vocês fizeram tudo que podiam. Não há necessidade de se desculpar.", disse Elmyra.

Tifa e os outros não podiam dizer nada em resposta.

"Nós realmente fizemos tudo que podíamos?"

Havia muitas pessoas se refugiando em Kalm. As casas normais viraram abrigos de emergência. Os moradores de Kalm não os cobravam, embora pudessem fazer isso. Até mesmo a estalagem providenciou quartos para os necessitados de graça. Era como se todos estivessem colaborando para reconstruir o mundo.

"Vamos para casa.", disse Cloud.

"Para onde?", Barret perguntou.

"Nossa realidade suspensa."

"Mas o que isso quer dizer?"

"Nossas vidas normais."

"E onde nós temos algo assim?"

"Vamos encontrar um lugar.", Cloud olhou para Tifa e disse: "Certo?"

"É!", gritou a animada Marlene. Tifa também concordou, mas como Barret, ela imaginava onde eles poderiam ter uma vida normal.

Os quatro chegaram de volta a Midgar. A cidade se recuperou de todo o choque e caos que aconteceu depois que o meteoro foi destruído. As pessoas estavam vivendo de novo, com esperanças no futuro... Não, se preocupavam apenas com o presente por enquanto. Ver isso fez Tifa se culpar de novo. Quando ela olhou Midgar do céu, desejou que tudo apenas tivesse sido varrido. Ela não sabia que ainda havia tantas vidas aqui. Tifa não podia se perdoar por ter sido tão egoísta. Ela contou a Cloud e Barret o que estava pensando quando estava na aeronave. Barret e Cloud entendiam como ela se sentia e concordavam. Não importava onde eles estivessem ou o que fizessem, não poderiam se livrar dos pecados em suas mentes.

"Já que é esse o caso, vamos viver. Vamos viver até pagar por nossos pecados. É o único jeito.", disse Barret.

Quando Cloud e Tifa estavam sozinhos, Cloud disse a ela: "Não é comum você se incomodar com pensamentos."

"É... Assim que eu sou."

"Não. Você é muito mais animada e forte. Se você esqueceu como você era, então eu vou fazer você lembrar."

"Vai mesmo?"

"Provavelmente.", Cloud disse, corado.

A primeira coisa que eles fizeram foi reunir informações em Midgar. Havia falta de materiais, mas o mais importante, não havia nenhuma informação circulando sobre o que fazer. Os três se dividiram e saíram dividindo as informações que tinham com os que precisavam delas, sobre onde eles podiam conseguir provisões, por exemplo. Eles ajudaram as pessoas que não podiam se mover sozinhas. À noite, dormiram sob uma parte do prato de Midgar, que segundo os rumores, podia cair a qualquer hora.

Um dia, Barret apareceu com uma garrafa de vinho, um aquecedor e várias frutas. Ele os ganhou como gratidão por ajudar a derrubar uma casa.

"Vejam", Barret disse enquanto habilidosamente preparava uma refeição que ninguém nunca viu antes. O vinho havia sido deixado em estoque por duas semanas. Eles descobriram que era um tipo de vinho especial feito na cidade de Corel. Tifa e Cloud beberam lentamente. Barret literalmente se afogou no vinho. Ele parecia estar se divertindo, enquanto falava de suas lembranças de tempos pacíficos. Ele contou de como uma vez bebeu demais e caiu num poço. Ele também mencionou como esqueceu porque pediu sua falecida esposa em casamento, que estava bêbado na ocasião. Já fazia muito tempo que Cloud e Tifa não riam assim.

No dia seguinte, Barret disse num tom sério: "Que tal começarmos um negócio e vendermos esse vinho?"

"Nós?", Cloud perguntou, surpreso.

"É claro, seu idiota! Mas nós dois nunca vamos atrair clientes. Tifa fará isso."

"Eu?"

"Você é boa nisso."

Há não muito tempo atrás, o esconderijo da Avalanche era um bar chamado Seventh Heaven. Esse bar custeava as vidas e atividades dos membros. Tifa era a garçonete, ou mais corretamente, a dona do bar. Barret continuou.

"Do meu ponto de vista, as pessoas de Midgar podem ser divididas em dois tipos: os que estão sem rumo e ainda não aceitam o que aconteceu com a cidade e os que estão trabalhando para seguir em frente. Eu entendo como ambos se sentem. Todos estão enfrentando seus problemas, mas apenas encontraram soluções diferentes, certo? A solução para o problema de todos é vinho."

"E por quê?"

"Eu não sei. Mas quando estávamos bebendo ontem, nós rimos. Esquecemos todos os problemas, certo? É esse o momento que estamos procurando."

"É, acho que você está certo."

"Momentos assim são importantes, não? Hei, Tifa, o que você acha?"

Tifa não respondeu imediatamente. Ela entendia o que Barret estava dizendo, mas abrir um bar a faria relembrar os tempos da Avalanche de novo. Cloud falou.

"Tifa, vamos fazer isso. Se ficar muito difícil, podemos desistir."

"Não será difícil. Se Tifa não trabalhar, ela vai acabar pensando em todos os tipos de coisa. E então ela não poderá fazer nada."

Isso pode ter sido verdade.

Os três fizeram os preparativos. Decidiram construir seu novo negócio na cidade nova, Edge, que ficava a norte de Midgar.

Todas as pessoas que Barret e Cloud haviam ajudado antes se reuniram. Eles transportaram todos os materiais que seriam usados para construir partes da loja, como paredes e pilares.

Barret dava ordens escandalosamente, enquanto Cloud os corrigia sem muito alarde. Tifa, por outro lado, aprendeu a fazer o vinho de Corel e melhorou seu sabor. Ela também pensava na comida que poderiam colocar no menu. Marlene era como um mascote do bar. Era como se ela gostasse da idéia de algum dia ser garçonete ali. Era duro resolver os problemas que surgiam todos os dias, mas para Cloud, Tifa e Barret, isso servia como distração. Às vezes, Tifa se sentia culpada por seus pecados quando sorria, mas esse pensamento logo era interrompido por alguém vindo chamá-la.

Mais alguns dias e eles poderiam abrir o novo bar, Cloud disse. Barret perguntou o que eles fariam quanto ao nome. Houve algumas sugestões, mas as de Cloud eram todas sem sentido, enquanto as de Barret sempre envolviam monstros. No final, Tifa teve de decidir. Os dois homens prometeram não reclamar, não importando qual nome ela escolhesse. Mas já era quase o dia da inauguração e Tifa não teve tempo para pensar nisso, com todo o trabalho que tinha. Um dia, Marlene repentinamente perguntou o que eles iam fazer quanto ao nome do bar.

"Ainda estamos pensando nisso."

"Eu gostaria que fosse Seventh Heaven", disse Marlene. Era um nome que Tifa queria evitar.

Ter o passado dentro de si já era suficiente. Não havia necessidade de escolher um nome que a fizesse lembrar dele.

"Por quê?"

"Porque era divertido. Se for Seventh Heaven, todos vamos nos divertir de novo."

"Nós havíamos esquecido que Marlene não tem nada a ver com as ambições e pecados dos adultos. Para ela, Seventh Heaven era um lar feliz onde Barret, eu e os outros viviam."

"Hmmmm, Seventh Heaven..."

"Eu não podia apagar meu passado. Só podia aceitar e seguir em frente."

Tifa decidiu que estava pronta.

O primeiro dia de funcionamento do Seventh Heaven foi um grande sucesso. O vinho de Corel era algo que ninguém podia resistir, então o preço não era nada. Por causa dos ingredientes limitados que eles tinham, não podiam fazer nenhuma refeição especial. Mesmo assim, as pessoas procuravam lugares como esse. Um lugar onde pudessem beber com amigos. Um lugar onde pudessem esquecer a triste realidade ou talvez até mesmo pensar em um futuro melhor. Aqueles que não tinham dinheiro podiam pagar com itens. Uma variedade de sucos também era preparada para as crianças. Eles só serviam aqueles que Marlene experimentava e aprovava. Ela era alguém que não perdia nada. Marlene era a recepcionista, mas não ficava até muito tarde. Aqueles que bebiam demais eram convidados a se retirarem.

Barret organizava os vinhos. Talvez ele planejasse ser o sommelier. O trabalho de Cloud era obter os ingredientes para as refeições e vinho. Ele não sabia os nomes da maioria das frutas e vegetais. No início, Tifa ficou surpresa, mas quando pensou na vida que Cloud levava, compreendeu. Era engraçado pensar que a nova vida de Cloud iria começar com vegetais. "Não, eu não devo rir", Tifa pensava consigo mesma.

Cloud não era bom em socializar. Ele não era bom em comunicação, mas mesmo assim, saía para negociar os ingredientes que precisavam. Com o tempo, ele progrediu.

Após a primeira semana de funcionamento, Barret disse aos outros que ia partir em uma jornada, já que os negócios estavam indo bem. Ele ia deixar Marlene para trás.

"Quero partir numa jornada para encerrar meu passado."

Cloud desaprovou.

"Encerrar seu passado? Mas eu quero fazer isso também."

"Você pode fazer isso aqui. Não viva apenas tirando algo dos outros. Tente provar que você pode doar também."

Marlene, que sempre dormiu com Tifa, dormiu com seu pai adotivo, Barret, na noite anterior à partida dele. Eles ficaram conversando até tarde da noite.

Na manhã seguinte, Barret partiu.

Atrás dele, Marlene gritou: "Escreva para mim! Telefone também!"

Barret acenou com seu braço direito artificial. Ele continuou andando, sem olhar para trás. Era uma figura que até agora não conheceu uma vida sem lutas.

"Eu imagino que tipo de vida ele encontrará. Espero que fique longe da guerra. Não apenas tirar algo de alguém. Espero que ele possa doar também."

"Seja um bom garoto!"

Cloud e Tifa se entreolharam, enquanto ouviam as palavras de Barret: "Ser um bom garoto???"

"Eu cuidarei de Cloud e Tifa!"

Barret se virou e disse: "Cuidem-se!", sua voz estava um pouco trêmula.

"Mantenham a família junta e continuem assim!"

...

"Amigos eram uma necessidade para mim, para que eu pudesse viver sem ser esmagada pelos pecados na minha consciência. Mesmo que eles fossem companheiros de luta, que dividiam os mesmos sentimentos. Mesmo que fossem companheiros amaldiçoados com os mesmos pecados. Não podíamos viver sem nos encorajar e apoiar. Talvez eu possa chamar isso de família. Nós apenas temos que manter a família junta e continuar assim."

Tifa acreditava que poderia superar qualquer coisa estando com amigos que pudesse chamar de família.

...

Já havia se passado vários meses desde que eles abriram o bar. Cloud, que havia saído para buscar o suprimento de ingredientes, telefonou. Ele queria discutir o privilégio de por quanto uma pessoa poderia comer e beber de graça durante toda a vida no Seventh Heaven. Tifa sabia o que ele queria dizer sem ouvir a história. Ela tinha certeza que havia alguma coisa que Cloud queria trocar por esse estranho privilégio, de qualquer maneira.

Era noite, e Cloud voltou numa motocicleta. Era um modelo que eles nunca tinham visto antes. Desde então, ele esteve ajustando-a sempre que conseguia algum tempo livre. Ele procurou um engenheiro conhecido para discutir modificações na motocicleta. Parece que algumas outras pessoas vieram ajudar Cloud a completar as modificações. Marlene e seus amigos também observavam. A cena fez Tifa crer que eles realmente haviam se tornado uma família.

Havia muitas vezes em que Cloud tinha de deixar a cidade para buscar suprimentos. O destino principal era Kalm. Ele precisava alugar uma moto, um caminhão, ou até mesmo um chocobo, mas agora, ele tinha sua própria moto. Ocasionalmente, parece que ele viajava até mais longe e conseguia algumas especiarias raras.

Uma noite, um telefonema para Cloud. Após conversar um pouco no telefone, Cloud disse que precisava sair.

"Onde você vai?"

"Como direi isso..."

Cloud disse a Tifa que houve muitas vezes em que ele fez entregas enquanto buscava os suprimentos. Quem ligou foi o dono de uma loja que fornecia vegetais. Parece que havia alguma coisa que ele queria que Cloud entregasse de qualquer jeito antes da noite acabar. Cloud olhou para Tifa como uma criança que acaba de ter seu segredo revelado.

"Porque você está me olhando assim?", ela perguntou.

"Bem... Desculpe por não ter dito nada sobre isso..."

"Sobre o quê?"

"Fazer o que eu queria."

Tifa disparou a rir. Cloud continuou, dizendo que recebia dinheiro extra pelas entregas. Ele se sentia culpado por gastar tudo nas modificações de sua motocicleta. Tifa achava que ele estava agindo como uma criança. Pode ter sido um pouco triste que Cloud encontrou um outro mundo que ela não conhecia, mas o fato de que este mundo estava se expandindo era um fato bem-vindo. Sim, era muito bem-vindo. Tifa acompanhou Cloud até a porta, e estava muito feliz com o que estava sentindo.

...

Tifa conseguia conviver com os pecados em sua consciência agora, mas ela não os esqueceu. Algum dia, ela pode ser punida. Mas até esse dia chegar, Tifa ia olhar para frente e viver. Ela ia viver não para tirar algo de alguém, mas para provar que pode doar também.

...

Tifa encorajou Cloud seriamente a abrir um serviço de entregas por encomenda. Eles podiam receber os pedidos no bar. Quanto aos telefonemas, Marlene ou ela mesma podia recebê-los. Cloud hesitou, mas, após pensar nisso por uma noite, aceitou a sugestão. Ele estava apenas hesitando de novo, afinal.

E então, esse foi o início do Serviço de Entregas Strife. Midgar era o centro do negócio, mas eles também faziam entregas em todo o mundo. Mas apenas nas áreas que Cloud podia chegar de moto, é claro. Cloud sorria ao ver como era um grande empresário. Seu trabalho também era um grande sucesso. Era uma época em que enviar coisas não era tão fácil. Monstros ainda rondavam os campos, e havia estradas que agora estavam em regiões de perigo, por causa do Lifestream que se espalhou. Esse trabalho de viajar pelo mundo não era algo que qualquer um poderia fazer. Era o trabalho que ele estava esperando. Tifa achava maravilhoso que Cloud, que não era muito social, estava fazendo um trabalho que ligava as pessoas.

Depois que Cloud começou esse serviço de entrega, a vida da "família" mudou drasticamente. Não estava muito bom. Cloud normalmente não estava em casa, exceto pela manhã ou tarde da noite. E, é claro, isso significava que havia menos oportunidades para os três conversarem. Tifa tentou fechar o bar uma vez por semana, mas isso não impediu Cloud de fazer seu trabalho. Cloud não podia negar pedidos. Apesar de Tifa querer que eles tivessem algum tempo juntos de vez em quando, ela decidiu que era egoísmo da parte dela. Nesse período, foi Marlene quem notou uma mudança em Cloud. Ela disse a Tifa que Cloud às vezes olhava para o céu e não prestava atenção nela.

"Cloud nunca se aproximou realmente de Marlene para conversar, mas tenho certeza que ele nunca a ignorou antes quando ela falava com ele. Eu sabia que Cloud tinha suas próprias maneiras de lidar com Marlene. Eu pensava em como havia milhares de pessoas por aí que não são boas com crianças, mas têm suas próprias maneiras de se relacionar com elas. Eu disse a ela que Cloud provavelmente estava apenas cansado, mas isso me incomodou. Marlene era uma criança sensível às mudanças dos adultos."

Durante o feriado, Tifa e Marlene estavam limpando a sala que agora era o escritório de Cloud. Havia muitos papéis espalhados e desorganizados. Um deles chamou a atenção de Tifa.

...

Nome do Cliente: Elmyra Gainsborough

Entrega: Buquê de Flores

Destino: Cidade Esquecida

...

Tifa colocou o papel junto com os outros como se nada tivesse acontecido. Mas ela estava tremendo. Transportar mercadorias pelo mundo significava que Cloud estava se envolvendo com seu passado também. Ela sabia que Cloud sofria muito por não ter conseguido salvar Aerith. Ele já estava quase superando isso, mas voltar ao lugar onde ele e Aerith se separaram significava que seu sofrimento e remorso voltariam para partir seu coração.

Era noite, e eles haviam fechado o bar. Cloud estava bebendo vinho, embora ele raramente faça isso. O copo ficou vazio. Tifa hesitou em enchê-lo.

"Posso me juntar a você?" - ela queria conversar com ele.

"Eu quero beber sozinho."

Ouvindo isso, Tifa perdeu o controle e disse: "Então beba no seu quarto."

Barret ligou algumas vezes. Quase nunca falava de si mesmo, sempre perguntando por Marlene. E então, sempre terminava a ligação conversando um pouco com ela. Marlene olhou se Tifa estava por perto antes de dizer a Barret: "Cloud e Tifa não estão se dando muito bem."

Não importa o que estivesse acontecendo entre Cloud e Tifa, eles não podiam envolver Marlene Tifa pensava nisso.

Tifa se esforçava para falar com Cloud. Quando Marlene estava por perto, ela escolhia assuntos mais positivos, coisas que não levassem a conversa a um rumo mais sério. Cloud estava incomodado com a maneira como Tifa mudava de repente, mas, entendendo o que ela pretendia, ele seguia seu raciocínio e conversava com ela. Até Marlene se juntava ao assunto.

...

"Eu gostava desses momentos. Mas não podia falar sobre o que realmente queria. Eu não sei o que dizer."

...

Um dia, Tifa contou uma história que ouviu de um cliente.

"Isso é realmente impossível.", Cloud disse.

"É impossível!", Marlene gritou.

Os adultos ficaram surpresos, e olharam para Marlene.

"Você já contou essa história antes! Cloud sempre responde a mesma coisa!"

...

"Não estava tudo bem, mas estávamos juntos. Éramos uma família. Vivíamos na mesma casa e nos sentíamos bem estando juntos. Talvez não houvesse muitas conversas ou sorrisos. Mas éramos uma família.", Tifa pensava. Não, era o que ela queria pensar.

...

Quando Cloud estava dormindo, ela disse a ele.

"Nós vamos ficar bem, não vamos?"

É claro, não houve resposta. Apenas o silêncio ecoou. Tifa imaginava se o fato de ele estar dormindo ali significava que era parte da família.

"Você me ama?"

Cloud acordou, com um olhar dúbio.

"Hei, Cloud. Você ama Marlene?"

"Sim. Mas às vezes não sei como me aproximar dela."

"Mesmo depois de tanto tempo juntos?"

"Talvez só isso não seja o bastante."

"Nós não somos o bastante para você?"

Cloud não respondeu.

"Desculpe por perguntar essas coisas estranhas."

"Não se desculpe. O problema sou eu."

Cloud fechou os olhos.

"Vamos nos esforçar juntos."

Cloud não respondeu.

...

Não muito tempo depois daquilo, Cloud trouxe Denzel para casa com ele. Denzel já estava inconsciente quando ele o trouxe até o bar. Era Geostigma. Cloud disse que aparentemente a síndrome começou há pouco tempo. Enquanto Tifa cuidava de Denzel, ela pensava em quantas crianças estavam infectadas com a mesma doença. Havia muitos abrigos para crianças que perderam os pais. Mesmo assim, porque Cloud trouxe Denzel aqui? Quando Tifa decidiu perguntar a ele, Cloud murmurou algo.

"Esse garoto veio até mim."

"O que você quer dizer?"

"Quero dizer..."

...

Depois que Denzel se recuperou, Tifa ouviu sua história. Sobre tudo que aconteceu com ele antes de chegar aqui. Então ela acreditou que ele estava destinado a vir até eles. Ele foi uma das vítimas de quando o Setor 7 foi destruído.

...

"O Setor 7 foi destruído por nossa causa. É por isso que eu tenho que aceitar a responsabilidade e criá-lo. Ele não foi até Cloud. Ele encontrou Cloud para vir até mim."

...

Tifa conversou com Cloud e Marlene sobre como ela queria Denzel na família. Cloud aceitou silenciosamente, mas Marlene ficou cheia de felicidade.

De início, Denzel insistia em ajudá-los como gratidão por cuidarem dele. Seu coração começou a se abrir mais ajudando Cloud com seu trabalho e no bar.

Era noite e o bar estava fechado. Enquanto limpava o salão, Tifa olhou para a mesa do centro. Lá estavam o dono do Serviço de Entregas Strife, Cloud, e seus dois assistentes, Marlene e Denzel. Denzel às vezes sofria por causa do Geostigma, mas quando não sentia febre ou dor, ficava ajudando Cloud. Todos os dias, Cloud passava muito tempo fora. Então quando ele estava em casa, era o precioso momento de Denzel com seu herói. Sim, Cloud era um herói para Denzel. Montado em sua motocicleta, salvou Denzel quando os sintomas do Geostigma apareceram e ele ficou às portas da morte... Era tudo que Denzel mais desejava. Denzel queria saber tudo sobre Cloud. Ele ficava perguntando para Tifa quando Cloud não estava em casa. Uma vez, Tifa, brincando, disse a Denzel que ela é que fazia a comida todos os dias. Denzel também disse, se vangloriando, que ele limpava a casa e o bar.

Era verdade e ele era muito bom em limpar. Quando Tifa perguntou se foi a mãe de Denzel que o ensinou a limpar, ele respondeu que não. No dia seguinte, Tifa perguntou a Cloud quem foi essa pessoa, pois Denzel havia contado a ele. Tifa ficou um pouco triste.

...

"Eu fiquei incomodada porque ele contou a Cloud apenas. Um dia eu tentei perguntar isso a alguém da mesma idade de Denzel. Ele respondeu que os garotos são assim mesmo. Então na verdade não havia nenhum problema. Éramos apenas uma família normal."

...

A resposta não a fez entender, mas as palavras "família normal" aliviavam Tifa.

...

Após fechar o bar, as três pessoas de sempre se sentaram em volta da mesa. Não seria uma surpresa se alguém dissesse que era um pai jovem com seus dois filhos. Se Tifa quisesse, poderia se aproximar, e seria recebida com agradáveis sorrisos.

Cloud abriu um mapa sobre a mesa. Estava revisando as rotas de entregas para o dia seguinte. Denzel e Marlene estavam organizando os papéis. Quando havia alguma palavra que Marlene não conhecia, ela pedia ajuda a Denzel. Ele então a ensinava, como um irmão mais velho. Quando havia palavras que nem mesmo Denzel conhecia, ele perguntava a Cloud. Cloud tinha o hábito de mandá-los escrever a palavra após ensiná-los. Ele dizia que se não escrevessem, nunca decorariam seu significado. Os vários nomes de lugares nos papéis deixavam as crianças curiosas, e elas perguntavam a Cloud como eles eram. As descrições de Cloud eram simples: "Há muitas pessoas", "Há poucas pessoas", "Há muitos monstros", "É perigoso"... Eram descrições que fariam qualquer um perguntar: "Só isso?", mas as crianças pareciam satisfeitas. Logo, Tifa quis conversar sobre esses lugares também. Quando ela adicionava mais detalhes, Denzel perguntava a Cloud se era verdade. Isso irritava Tifa um pouco. Mas ela também achava normal. É provavelmente assim que as famílias normais são.

Talvez eles tenham se tornado uma família de verdade depois que Denzel chegou. Cloud estava claramente trabalhando menos. À noite, sempre reservava um tempo para ficar com as crianças. As conversas descontraídas com Tifa também retornaram.

...

"Então, o problema foi resolvido?"

"Que problema?"

"O seu problema."

"É..."

...

Cloud ficou pensativo.

"Não tem problema se não quiser me contar."

"Eu não sei explicar direito...", Cloud avisou antes de começar a falar. "O problema não está resolvido. Bem, eu acho que não será resolvido tão cedo. Não há como recuperar vidas perdidas."

Tifa concordou em silêncio.

"Mas talvez exista uma maneira de salvar as vidas que estão em perigo. Talvez até eu possa fazer isso."

"Você está falando de Denzel?"

"Sim."

"Hei, você lembra do que disse quando trouxe Denzel aqui?"

"O que eu disse?"

"Você disse que Denzel veio até você."

"Bem...", Cloud disse, como uma criança com medo.

"Fale. Decidirei se estou com raiva depois que eu ouvir."

Cloud aceitou e continuou.

"Denzel estava caído na frente da igreja onde Aerith costumava ficar. Foi por isso que eu acreditei que Aerith o trouxe ‘até mim’."

Dizendo isso de uma vez só, Cloud em seguida desviou o olhar.

"Você foi à igreja."

"Eu não estava planejando me esconder lá."

"Você estava se escondendo."

"Me desculpe."

"Eu não disse que você não podia ir. Mas da próxima vez, eu vou com você."

"Eu entendo."

"E você está errado, Cloud."

Cloud olhou dubiosamente para Tifa.

"Aerith não trouxe Denzel até você."

"É, eu acredito nisso agora."

"Aerith trouxe esse garoto até nós, não é?"

Cloud olhou para Tifa e finalmente sorriu. Um sorriso que guardava uma enorme bondade, que a fez acreditar que tudo estava bem.

...

Alguns dias depois dessa conversa, Cloud partiu. Tifa imaginava se o sorriso que ela viu foi apenas uma ilusão. Após pôr as crianças para dormir, ela foi até o escritório de Cloud. Limpando a poeira da foto da família, ela tentou ligar para ele. Após várias chamadas, a linha caiu.

...

Caso de Tifa, fim.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

FF7 - On a Way to a Smile - Denzel

Lá vamos nós para mais uma história contida no DVD Final Fantasy VII Complete. Dessa vez a história é sobre um garoto chamado Denzel. Para quem assistiu o filme e ficou na dúvida se ele poderia ser o filho de Cloud com Tifa, essa história resolve definitivamente esse problema e mostra a relação que ele têm com o grupo.

Espero que gostem dessa história. Ainda faltam duas para completar o ciclo de histórias que compõe o mundo de Final Fantasy VII.

"On a Way to a Smile - Denzel"

Episódio 1

Midgar era dividida como se fossem dois mundos diferentes. Um era a cidade superior, conhecida como "prato", uma terra de aço suportada por pilares. E havia as áreas no solo que nunca viam a luz do sol por causa do prato. Os subúrbios eram cheios de vida, apesar de serem um lugar caótico. Devido ao planejamento da companhia conhecida como Shin-ra, essa cena de luz e sombra prosperando separadamente parecia que duraria para sempre...



Há quatro meses atrás, quando o Lifestream saiu fluindo da terra, muitas pessoas acreditaram que seria o fim de Midgar. Aqueles que tentaram fugir da cidade com seus pertences não conseguiram. Talvez eles tivessem pensado que poderiam sonhar com prosperidade mais uma vez se estivessem perto dali. E logo, uma cidade chamada Edge foi construída, em lugar da antiga Midgar.

A rua principal de Edge começava nos limites dos setores três e quatro de Midgar e seguia para o leste. A cidade em si foi formada em torno dessa rua principal e se expandiu para noroeste. À distância parecia ser uma cidade magnífica, mas a maioria dos prédios foi construída com o lixo que sobrou de Midgar. A cidade cheirava a ferro e pó.

Johnny tinha uma lanchonete na rua principal. Era um estabelecimento humilde numa área aberta com um balcão, algumas mesas e cadeiras, onde ele podia preparar refeições simples. O nome da loja era Johnny's Heaven. Era um nome parecido com o do bar que uma vez existiu nos subúrbios do Setor 7. O nome deste era "Seventh Heaven", cuja dona era uma bela mulher por quem Johnny se apaixonou. O nome dela era Tifa.

Meses após o incidente em que o Setor 7 desabou, Tifa abriu um novo Seventh Heaven em Edge. Naquela época, Johnny estava inspirado por como Tifa podia decidir o que ia fazer enquanto o resto do povo ainda estava indeciso. E então, com essas idéias em mente, ela se tornou uma figura respeitada na mente de Johnny.

"Eu vou viver como Tifa. Mas como? Já sei! Vou abrir um negócio também. Vou dar esperança àqueles que perderam a sua."

Este era o início do Johnny's Heaven. Clientes que vinham à lanchonete ouviam a história do "renascimento de Johnny" muitas vezes.

Como resultado disso, muitos começaram a se inspirar em Tifa e foram ao Seventh Heaven, tornando-se clientes regulares de lá. Sem saber nada sobre isso, Johnny continuava a trabalhar seis dias da semana esperando um público que viria ouvir sua história cheia de amor e esperança.

Um cliente chegou. Era um garoto. É muito raro uma criança andar sozinha nessa região. Era Denzel, um garoto que era especial para Johnny. Ele é uma das pessoas que respeitavam Tifa. Johnny ia dar tudo de si para ajudar Denzel.

"Bom dia, Denzel."

Johnny disse abaixando a cabeça para cumprimentá-lo. Mas Denzel só olhou para ele por um instante antes de ir para a mesa mais distante do balcão.

"Aproxime-se e sente aqui."

"Não. Estou aqui para encontrar alguém."

"Ele está aqui para encontrar alguém? Ele já está tendo encontros? Mas ele ainda é só um garoto... Bem, não importa, ficarei observando. Isso tudo é parte do meu serviço especial." - E se aproximando - "É um encontro? Boa sorte."

"Café, por favor."

"Ele está me ignorando. Ah, deve estar com vergonha." ... "Peça ajuda se não souber o que falar. Tenho informações importantes para você. Sabe que...’

De repente, Denzel se levantou. Ele estava irritado? Johnny olhava para Denzel, mas o olhar do jovem garoto estava voltado para a entrada.

Um homem de roupas finas estava parado lá. "Bem-vindo", Johnny disse ao homem. Era Reeve. Ele era um dos funcionários antigos da Shin-ra. Era a primeira vez que Johnny via este homem, que agora comandava a WRO. Ele era famoso pelo cheiro de morte à sua volta.

"Mas o que um homem como ele quer na minha loja?"

Reeve caminhou observando em volta cautelosamente, até finalmente se sentar na mesma mesa que Denzel. Parecia um hábito dele. Algo passou pela cabeça de Johnny.

"Reeve está convidando Denzel a se juntar ao exército. Tenho que impedi-lo. Se alguma coisa assim acontecer no meu bar, nunca mais terei coragem de encarar Tifa."

Com isso em mente, sua expressão permaneceu calma enquanto olhava para Reeve.

"Café, por favor.", Reeve disse.

"Sim, agora mesmo.", Johnny respondeu firmemente antes de correr para a parte de trás do estabelecimento. Ele não é uma pessoa fácil de lidar.

Denzel estava surpreso de o próprio líder do WRO vi-lo entrevistar e ficou imóvel, sem sequer conseguir cumprimentá-lo.

"Sente-se."

Isso puxou Denzel de volta à realidade, e ele se sentou, nervosamente.

"Então, Denzel. Eu não tenho muito tempo, então vamos direto ao assunto.", Reeve disse num tom gentil.

"Primeiro, saiba que nós somos diferentes de algum tempo atrás. A época em que daríamos boas-vindas a qualquer recruta acabou. Se você só quer ser voluntário para ajudar a reconstruir essa área, então procure o líder daqui. A WRO agora é um exército."

"Sim, senhor. Estou preparado para os perigos."

"Preparado, uh... Tudo bem. Primeiro quero saber o seu passado."

"Meu passado? Mas eu só tenho 10 anos..."

"Eu sei disso. Mas mesmo uma criança de 10 anos tem um passado, não?"

...

Denzel era o único filho de Eber, que trabalhava no 3º Departamento de Negócios da Shin-ra, e Chloe, pessoa muito social e excelente dona de casa. Os três moravam numa casa pertencente à Shin-ra, no Setor 7. Eber estava satisfeito, pois mesmo sendo de um vilarejo pobre, ele conseguiu formar uma família em níveis superiores. Porém, ele sempre achou importante ter um objetivo na vida, e por isso almejava morar nas residências nobres do Setor 3. Quando Denzel fez sete anos, Eber foi promovido a chefe de departamento. Isso significava que ele tinha as qualidades para morar no Setor 5. Sabendo da novidade, Chloe e Denzel prepararam uma festa. Com uma decoração infantil e muita comida, eles receberam Eber. Foi um jantar feliz. Enquanto trocava piadas com seu bem-humorado pai, Denzel também ouviu dele as histórias da vida.

"Denzel. Você tem sorte de ser meu filho. Se você tivesse nascido nos subúrbios, estaria comento ratos ao invés de frango."

"Eles não têm frangos?"

"Sim, eles têm, mas como todos são muito pobres, não podem comprar. Já que não há mais nada que possam fazer, eles pegam ratos com lanças. Ratos cinzentos e sujos."

"Ewww... Parece nojento."

"Qual é o gosto... Hmmm?", Eber disse piscando para Chloe. Esta apontou o dedo para o prato de Denzel.

"O que achou, Denzel?", ela questionou.

Denzel ficou preocupado e comparou sua comida com a de seus pais. Seu pai olhava para baixo, tentando não rir. E então Denzel se lembrou de uma coisa que sua mãe Chloe disse: não há sentido em viver sem sorrir.

"Eles queriam me assustar de novo".

"Mas eu não acredito em vocês!"

...

"Que pais ruins."

"Eles só gostavam de brincar comigo. Eu não me importava."

"Bem, pelo que eu sei, ratos não eram comidos nos subúrbios. Os ratos dos subúrbios daquela época..."

"Eu sei. Eu sei muito bem sobre isso."

"Oh? Aconteceu alguma coisa?"

"... É uma longa história."

...

Quando Denzel estava cuidando da casa, o telefone tocou. Era seu pai.

"Onde está sua mãe?"

Ele parecia nervoso.

"Foi fazer compras."

"Quando ela chegar, diga para me ligar imediatamente. Não, deixe para lá, eu ligo depois."

Sabendo que havia algo errado, Denzel ficou nervoso. Mas como não havia nada que ele pudesse fazer, ficou assistindo TV enquanto esperava a mãe voltar. Estava passando uma notícia de um grupo chamado "Avalanche", que bombardeou um Reator Mako. Foi por isso que ele ficou nervoso. Não foi por causa da ligação, ou por causa da demora de sua mãe.

Nessa hora, alguém chegou, mas não era a mãe, e sim o pai.

"Onde está sua mãe?"

"Ela não voltou ainda."

"Eu vou procurá-la."

Sem explicar nada, Eber saiu. Denzel foi atrás dele. Quando chegaram ao distrito de lojas, logo acharam Chloe. Ela parecia estar conversando com o açougueiro. Eber foi até ela e, sem dizer uma só palavra, a agarrou pelo braço. Quando Chloe protestou, Denzel sentiu seu coração pular.

"Me solte! O que é tudo isso?"

Eber olhou em volta e baixou a voz.

"O Setor 7 vai ser destruído. Temos que evacuar para o Setor 5. Há uma nova casa para nós lá."

"Eles vão destruir esse lugar?"

"Aqueles que destruíram o Reator Mako nº1 agora alvejam este setor."

Denzel olhou para os seus pais. Eles não estavam sorrindo.

"É verdade?"

Denzel agarrou seus pais e disse: "Vamos logo!"

Mas Chloe não se mexeu.

"Não podemos simplesmente fugir. Temos que contar a nossos vizinhos e amigos."

"Não há tempo, Chloe. Além do mais, essa é uma informação confidencial da Shin-ra. Eu já estou quebrando as regras por contar a vocês dois."

Irritada, Chloe se afastou e disse a Denzel: "Vá com o seu pai. Eu irei depois. Vai ficar tudo bem."

E a mãe de Denzel saiu correndo.

"Hei!"

Eber correu um pouco atrás dela, mas depois parou. Denzel podia sentir o sofrimento dele.

"Ele quer ir atrás dela, mas eu estou atrapalhando."

"Denzel, vamos para o Setor 5."

"Não! Nós temos que ir atrás dela!"

"Mamãe vai ficar bem. Nós somos uma família afinal."

Um homem alto caminhava com uma mala em direção à divisa do Setor 7 com o 6. Eber o chamou. Quando o homem viu quem era, se aproximou assustado.

"Você ainda está aqui, senhor? Os Turks já estão agindo. Já colocaram quase todas as bombas. Meus colegas conseguiram transporte para nós."

O pai de Denzel já havia comentado sobre essa organização que pertencia à Shin-ra. Todo o trabalho sujo era feito pelos Turks.

Mas o que ele quis dizer com "os Turks já colocaram quase todas as bombas"? Os Turks são a Avalanche? Denzel não conseguia entender, mas seu pai interrompeu seus pensamentos.

"Você poderia levar essa criança ao Setor 5? Ele não causará problemas."

"Não!", Denzel gritou.

"Papai vai buscar a mamãe. Agora vá com o senhor Arkham."

"Mas..."

"Há algum problema, Arkham?"

"É claro que não, senhor."

"É uma residência da Shin-ra no Setor 5, número 38. Aqui está a chave. Deixarei com meu filho."

Eber tirou uma chave do bolso e a deu a Denzel.

"Papai..."

"O papai comprou uma TV grande. Fique assistindo enquanto não chegamos."

Após acariciar Denzel, ele rapidamente saiu correndo para o Setor 7. Arkham ajudou Denzel a se recompor.

"Venha comigo. Meu nome é Arkham. Sou um dos empregados de seu pai. É um grande prazer conhecer você."

Denzel estava prestes a sair correndo, mas Arkham o impediu.

"Eu entendo como você se sente. Mas eu não posso ir contra as ordens do seu pai. Por enquanto, vamos para o Setor 5. Depois disso, você pode fazer o que quiser, OK?"

Na casa nova, não havia nada, exceto a grande caixa com a TV. Arkham a tirou de lá e a ligou.

Ambos ficaram assistindo as notícias. Mais uma vez, era sobre a explosão no Reator Mako nº1. Denzel se perguntava quando Arkham iria embora.

"Estou com fome."

"Tudo bem, vou comprar alguma coisa pra você comer."

Naquele momento, a casa toda tremeu. Eles ouviram o som de mísseis por todo o lugar. Quando Arkham abriu a porta, ainda ouviram o barulho de metais batendo.

"Espere aqui.", Arkham disse enquanto saía. Quando Denzel estava prestes a segui-lo, uma nova notícia surgiu na TV.

"Notícia urgente."

Uma tela mostrou uma cidade destruída. Embora Denzel estivesse no Setor 7 há até alguns minutos atrás, demorou a reconhecê-lo.

Quando a imagem mudou, o anunciante disse: "Esse é o estado atual do Setor 7."

O Setor 7 não existia mais. Denzel saiu correndo de casa. As ruas estavam um caos. As pessoas estavam desesperadas, acreditando que o Setor 5 seria o próximo.

Denzel nem sabe por quanto tempo correu. Ofegante, chegou à divisa com o Setor 6. Os soldados fizeram uma barreira. Ele correu até eles para olhar para o Setor 7. Mas não havia nada lá. Era como se nunca tivesse existido. Era até possível ver o Setor 8 do outro lado.

"Hei, é perigoso aqui.", um soldado disse.

"Onde você mora?"

Ele apontou para o espaço vazio.

"Entendo... É uma pena...", ele disse num tom gentil.

"E seus pais?"

Mais uma vez, ele apontou para o espaço onde o Setor 7 costumava ficar.

O soldado suspirou profundamente e disse: "É tudo culpa da Avalanche. Não se esqueça disso. Quando você for mais velho, vingue-se por eles."

O soldado virou Denzel na direção do Setor 6 e disse para ele ir embora. Ele caminhou distraidamente, sem notar todas as pessoas se refugiando ali.

"Qual lugar será o próximo? Papai! Eu vou ficar bem aqui? Mamãe! Não vou perdoar esses bandidos da Avalanche! O que a Shin-ra está fazendo? Papai! Mamãe! Onde vocês estão?"

A voz miserável de Denzel não desaparecia. Ele não conseguia mais andar. E não conseguia parar de chorar.

Episódio 2

"Foi a Shin-ra?"

"Sim."

Reeve olhava para longe. Parecia estar determinado a não mostrar sinais de emoção.

"Se você me odeia, pode fazer o que quiser comigo."

Denzel abaixou a cabeça.

...

Era domingo. Quando acordou, Denzel estava em seu novo lar no Setor 5. Ele tinha certeza de que aquela cama não estava ali antes. Perto dela estava uma carta e um lanche.

"Estou no escritório. Virei ver como você está mais tarde. Não vá muito longe de casa. Todo mundo está muito nervoso agora, então não é bom se envolver. E principalmente, seria difícil te encontrar. Você é uma criança muito importante. P.S.: Eu peguei a cama emprestada no vizinho, depois devolva. - Arkham."

A imagem do Setor 7 desabando não saía da TV. A Shin-ra também não parava de anunciar que agora Midgar estava segura. Os pais de Denzel estavam mortos, mesmo que eles dissessem que estava seguro, então ele não concordava com isso. Ele realmente imaginava se todos poderiam viver em paz depois daquilo. Como ele poderia sobreviver? Logo Denzel não conseguiu mais ficar em casa e saiu.

Estava quieto. No centro de Midgar, ele podia ver a grande Torre da Shin-ra.

"Papai e mamãe podem estar vivos e terem ido trabalhar. Afinal, esse é o horário de trabalho deles. É por isso que não estão. Já que essa área é de residências da Shin-ra, então alguns de seus conhecidos podem estar aqui."

Denzel não era muito bom em conversar com estranhos, mas decidiu tomar coragem e tentar.

Primeiro ele foi até a casa à sua direita e tocou a campainha. Ninguém atendeu. Ele tentou abrir a porta. Ela não estava trancada, então ele entrou e disse: "Olá?"

Ele esperou um pouco, mas nenhuma resposta veio. Parece que Arkham pegou a cama nessa casa. Será que ele simplesmente roubou a cama?

Depois foi à casa vizinha. A do outro lado da rua. A casa da esquina. Uma casa mais distante. A maioria delas tinha um papel na porta com um endereço para contato para abrigo.

Não havia ninguém lá também. Não parecia possível que seus pais estivessem no escritório. Se estivessem, eles teriam ido ali. "Mesmo que fosse impossível para o meu pai, minha mãe viria."

As esperanças de Denzel se partiam cada vez mais. Quando percebeu, estava perdido. Não sabia como havia chegado ali. Lágrimas escorriam pelo seu rosto, mas ele sentia mais ódio que tristeza. Ele parou e sentou na rua. Havia algo em seu bolso. Era um modelo de avião da Shin-ra. Denzel o jogou longe, gritando.

"Eu odeio tudo!"

O som de vidro quebrando ecoou, e uma voz de mulher se seguiu.

"Quem fez isso?"

Antes que Denzel percebesse o que tinha feito, uma mulher saiu da casa da frente e se aproximou.

"Foi você?", ela perguntou, segurando o modelo de avião.

Ele negou, mas com um rosto de culpa.

"Ora... Você está chorando?"

Denzel abaixou a cabeça para negar, mas não conseguiu esconder suas lágrimas.

"Onde você mora?"

Ele estava nervoso por não poder responder. Mais lágrimas caíam.

"Entre."

O interior da casa da mulher chamada Ruvi era muito diferente do da de Denzel, e era muito confortável. O papel de parede era um padrão cheio de flores, seguido pelos tapetes e sofás. Havia algumas flores artificiais para decoração, mas era uma sala que dava uma sensação de calor e tranqüilidade. Ruvi estava limpando os cacos de vidro da janela quebrada.

"Quando meu filho voltar, eu faço ele consertar."

"Me desculpe, senhora Ruvi..."

"Se a situação fosse outra, eu te agarraria pelo pescoço e levaria até os seus pais!"

"Meus pais, eles..."

"Não me diga que eles fugiram e deixaram você para trás."

"Eles estavam no Setor 7."

Ruvi parou o que estava fazendo e veio abraçar Denzel.

Depois que ele se acalmou, ela disse que iam sair.

Eles iam procurar a casa de Denzel. Caminharam de mãos dadas. Denzel não andava de mãos dadas com seus pais desde os seis anos. Parecia infantil. Mas naquele momento, ele não queria soltar aquela mão.

A Shin-ra estava conseguindo casas para seus funcionários desabrigados. As famílias eram mandadas para Junon ou Costa Del Sol. Ruvi disse que se eles a mandassem para algum lugar em que ela fosse ficar sozinha, ela preferia ficar ali mesmo. Eventualmente, eles encontraram a casa de Denzel.

"Obrigado... E desculpe pelo vidro."

Ruvi ficou quieta. Denzel abriu a porta e ia entrar.

"O que você planeja fazer numa casa que não tem nada? Venha morar comigo."

E assim, ele foi morar com Ruvi.

Quando o Reator Mako nº1 foi destruído, Ruvi soube que haveria problemas, então ela comprou muita comida. Sua despensa estava abarrotada.

"Você não precisa se preocupar com nada."

Ruvi estava ocupada todos os dias. Limpando a casa, cuidando do jardim, cozinhando... Denzel ajudava no que podia. Antes de ir dormir, ele lia histórias infantis. Ruvi, por outro lado, lia um livro grosso que parecia difícil de entender. Quando Denzel perguntava se o livro era bom, ela não respondia. Dizia apenas que era de seu filho. Ela já lia o livro há cinco anos, na esperança de entender como era o trabalho de seu filho. Ela ria ao perceber que sempre dormia quando ia ler.

Ruvi deu a Denzel uma enciclopédia de monstros que ela disse que seria útil de ler. Era outra coisa que pertencia a seu filho, e ele a leu quando tinha a idade de Denzel. Havia uma imagem de todos os monstros e uma descrição. Todas as páginas tinham a mesma coisa escrita: "se você encontrar um monstro, fuja e fale com um adulto". Denzel imaginava que se ele encontrasse um monstro, tudo que tinha a fazer seria falar com Ruvi. Mas ela não parecia saber lutar. Então ele teria de lutar? Ele conseguiria? Ele venceria?

Denzel se achava inútil. Acreditava que por isso seus pais tinham ido embora e lhe deixado.

...

O sol estava mais forte, e Denzel estava suando.

"Puxa... Está tão quente.", Reeve disse a Johnny.

Denzel pegou um lenço para secar seu suor.

"Um lenço interessante. Parece de menina."

"E é.", Denzel disse, olhando para o lenço.

...

Um dia, quando Denzel acordou, Ruvi estava lá segurando uma camisa.

"Vista isso. Eu fiz para você, mas não tinha nada masculino para usar."

Na camisa branca, havia inúmeras flores rosas. Era uma coisa que Denzel normalmente não ficaria feliz em usar, mas ele vestiu com satisfação.

"E isso eu fiz porque sobrou pano. Pode ficar."

Ruvi disse isso segurando um lenço com o mesmo padrão.

Parecia que sobrou muito pano, porque havia vários lenços. Denzel pegou um e guardou no bolso.

"E...", o sorriso de Ruvi desapareceu, "Como eu devo dizer isso..."

Denzel imaginava o que ela ia dizer. As palavras que ele mais temia ouvir não saíam de sua cabeça. "Vá embora". O corpo de Denzel tremia de medo dessas palavras.

"Vamos lá fora."

Ruvi levou Denzel ao quintal. Ele hesitava, mas a seguiu. Ruvi parou e olhou para o céu.

Denzel também olhou. Havia uma bola cinzenta no céu. Era um mau presságio. Até ontem, o céu era apenas azul e branco. Algo estava errado.

"Eu não sei nada sobre isso, mas parece que se chama Meteoro. Dizem que quando ele chegar ao Planeta, estará tudo acabado."

Ruvi foi à cozinha preparar o almoço.

Naquele dia, Ruvi não limpou, não lavou roupas, não fez nada. Só ficou sentada no sofá, lendo.

Quando alguma coisa veio em mente, ela foi ao telefone. Parece que ninguém atendeu do outro lado. Denzel imaginava que ela estava ligando para seu filho. Ele queria perguntar mais sobre o Meteoro, mas não conseguia. À noite, Ruvi começou a limpar a casa, como se tivesse voltado ao normal.

"Denzel, a maneira que você limpa não é boa. O que você está pensando?"

Era a Ruvi de sempre de novo.

Já tarde da noite, estavam os dois no sofá, lendo, como sempre.

Mantendo seus olhos no livro, Ruvi disse:

"Denzel. Eu planejo esperar pelo fim aqui. Se o Planeta vai morrer, então não importa onde eu estou. Em qualquer lugar será igual. O que você vai fazer? Se você quer ir para algum lugar, eu não me importo que leve a comida da casa. Você ainda é uma criança, então acho que você tem o direito de decidir onde quer estar no final."

Denzel pensou muito no que ela disse. E então, fez a pergunta que não conseguiu fazer o dia todo.

"Eu posso ficar aqui?"

Ruvi olhou para ele e sorriu.

Desde então, Ruvi voltou ao normal. Ela continuava limpando a casa, arrumando o jardim... Só não limpava o lado de fora da casa. Essa tarefa era de Denzel.

Denzel viu que algo estava sendo construído na Torre da Shin-ra. Em pouco tempo, um canhão gigante estava no teto. Ruvi disse que a Shin-ra pretendia destruir o Meteoro.

"Aquela companhia está sempre errada.", Ruvi disse com um olhar triste.

Eventualmente, o canhão atirou para alguma direção estranha e quebrou. Não muito tempo depois, a própria Shin-ra foi atacada e destruída. Denzel não conseguia imaginar que monstro era aquele, que podia destruir um prédio inteiro. Ele decidiu perguntar a Ruvi. O Meteoro estava no céu como sempre. Em outras regiões, havia grandes distúrbios, mas a vida pessoal de Denzel permanecia a mesma.

Havia vezes em que Denzel não conseguia segurar a tristeza por seus pais e chorava. Ruvi sempre o acalmava, abraçando-o.

Se o fim ia vir mesmo, então ele queria estar com Ruvi.

O que tirou a paz de Denzel no final não foi o Meteoro, mas sim as águas brancas. Como resultado do Lifestream que o Planeta liberou, o Meteoro foi destruído, mas aquela energia também trouxe destruição para a humanidade.

Um dia, quando eles iam dormir, o som de um vento forte ecoava lá fora, mas era forte demais para ser apenas um vento comum. Logo, toda a casa começou a tremer.

O fim havia chegado. Seria bom se acabasse rápido, Denzel pensava, mas o som e o tremor aumentavam lentamente. O som foi ficando tão forte, era como se um trem estivesse passando dentro de casa. Denzel se segurou em Ruvi, e fechou os olhos.

"Ruvi, estou com medo!"

Ruvi se levantou para acender as luzes, mas nesse momento as cortinas de flores começaram a brilhar em branco. Era como se toda a casa fosse engolida por luz.

"Cubra-se com o cobertor!"

Enquanto Ruvi saía do quarto, o tremor aumentava violentamente e os vasos de flores caíam no chão. Denzel levantou da cama e foi atrás de Ruvi.

Ruvi estava na janela da sala de estar. Era a janela que ele havia quebrado, que Ruvi tampou com vinil. O vinil estava inflando, como se fosse explodir. Ruvi correu para a janela para tentar segurá-lo.

"Denzel! Volte para o quarto!"

Denzel estava tremendo. Ele não conseguia se mexer, era como se seus pés estivessem pregados no chão.

"Fui eu quem quebrou a janela. A culpa é minha se alguma coisa acontecer."

Ruvi deixou a janela de lado e veio até Denzel, levando-o apressadamente até o quarto. Nessa hora, o vinil quebrou e raios de luz branca invadiram a casa. Gritando, Ruvi fechou a porta, ficando do lado de fora do quarto.

"Ruvi!", Denzel gritou enquanto tentava abrir a porta.

"Denzel, pare!"

"Mas!", ele disse enquanto continuava tentando abrir a porta.

Ruvi fazia o máximo que podia para segurar a porta. Com as duas mãos.

"Denzel, mantenha a porta fechada!"

Em volta de Ruvi, muitos raios de luz atravessavam as paredes por todos os lados. Era como se uma serpente brilhante estivesse à solta na sala.

Não era um monstro da enciclopédia. Fugir e contar a um adulto não ia funcionar.

"Ruvi!", ele gritou quando a luz atacou Ruvi. A luz mudou de forma para o que parecia uma fina corda, entrando forçosamente no quarto pelo buraco da fechadura.

Ruvi caiu no chão, enquanto Denzel foi agarrado pela luz.

Episódio 3

Denzel não sabia quanto tempo ficou inconsciente. Quando acordou, a casa estava totalmente arrasada.

Ruvi estava caída lá. Quando Denzel chamou por ela, ela abriu os olhos um pouco e disse que estava feliz porque ele estava bem. Ela então pediu que Denzel lhe desse a mão. Ele estendeu sua mão. Ruvi a segurou, mas Denzel não sentia nenhuma força vindo dela. Ela disse que não podia segurar as mãos do filho dela porque ele cresceu muito. Ela estava feliz por Denzel ser uma criança. Ruvi perguntou o que estava acontecendo lá fora. Denzel estava um pouco preocupado e foi ver. Era de manhã. Tudo em volta estava tão ruim quanto a casa deles.

...

Denzel continuou falando de cabeça baixa, enquanto Reeve fechou os olhos e ouviu.

...

Após ir lá fora, Denzel voltou para a casa de Ruvi. Todas as janelas estavam quebradas. Era o mesmo com todas as outras casas da região. Havia casas até sem telhado e algumas com buracos enormes na parede. Tudo acaba do mesmo jeito afinal. Ele começou a pensar que mesmo que ele não quebrasse as coisas, elas acabariam do mesmo jeito. Mas ele não gostava de pensar assim.

Ruvi passou por tantos problemas para protegê-lo e lá estava ele, como se não tivesse nada com isso.

Quando Denzel voltou para o quarto, Ruvi parecia estar dormindo. Ela tinha uma expressão tão pacífica no rosto. Ele estava preocupado, então a chamou.

"Ruvi."

Ela não respondeu.

"Ruvi!", ele gritou mais alto.

Um fluido negro saiu da boca de Ruvi. Acreditando que era um sinal de morte, Denzel limpou o mais rápido que pôde. Mas havia mais saindo de seu cabelo. Ele começou a passar mal. Saiu correndo da casa, morrendo de medo.

"Papai! Mamãe! Me ajudem!", ele gritava. Continuou gritando até não conseguir mais. Agora, Denzel só podia chorar.

"Hei, não chore.", alguém disse. Um homem grande estava diante de Denzel. Atrás dele estava um pequeno caminhão com cerca de 10 pessoas.

"O que você está fazendo aqui? O anúncio da TV disse para todos se refugiarem nos subúrbios."

Denzel sentiu que o homem brigaria com ele se ele não desse uma boa resposta. Tremendo, ele disse:

"Eu não vi TV."

"Puxa! Todos por aqui acham que vai ficar tudo bem ou falam que não sabem!"

Todos no caminhão pareciam ter tomado a decisão errada.

"E onde está sua família?"

"Ruvi está lá dentro."

...

"O homem se chamava Gaskin. Ele enterrou Ruvi para mim. As pessoas do caminhão também ajudaram. Eles a enterraram no quintal, junto com o livro de seu filho. A terra lá era tão macia que todos ficaram surpresos. Normalmente você alcançaria o prato em pouco tempo."

"Talvez ela estivesse planejando plantar vegetais ou algo assim. Já que ela veio do interior, seria lógico."

"Acho que ela queria cultivar flores.", Denzel respondeu olhando para seu lenço. "Havia muitos enfeites de flores na casa e flores artificiais também. Eu acho que ela realmente queria plantar flores... O filho dela trabalhava na Shin-ra, e morava em Midgar. Tenho certeza que ele ficaria feliz em ver algumas flores aqui, no único lugar onde havia terra boa... Desculpe... Eu falei demais."

Reeve fez sinal de que não havia problema e continuou ouvindo.

...

Logo, o caminhão em que eles estavam chegou à estação, onde havia um trem parado.

Gaskin disse: "O trem não está funcionando. Realmente não há esperança de restaurar esse lugar. Mas felizmente, os trilhos ainda estão ligados à superfície. Se seguirmos os trilhos, poderemos descer até lá."

"É perigoso aqui?", alguém perguntou.

"Quem sabe. Por enquanto, é muito mais seguro lá embaixo, não?"

Ele continuou e disse a Denzel: "Tome cuidado. Ninguém tem condições de cuidar de você. Você terá que fazer isso sozinho."

O caminhão deu uma volta em U e partiu. Muitas pessoas estavam reunidas na estação. Aquela luz branca afetou toda Midgar. Aqueles que tiveram seus lares destruídos e aqueles que pensaram que a cidade cairia logo vieram para cá. Mesmo assim, muitos ainda hesitavam em seguir a trilha para o solo. Ao invés de ouvir gritos de felicidade agora que o Meteoro se foi, só se ouvia reclamações sobre o conselho incompleto que eles receberam. A população estava dispersa e dividida em grupos enquanto caminhava pelos trilhos. Eles não sabiam o que estava à frente, mas a única pessoa liderando era Gaskin. Era óbvio que não tinham escolha a não ser obedecê-lo.

Na pista cheia de metal e madeira, Denzel podia ver a superfície do solo à distância. Eles estavam tão alto que seria morte certa cair dali, então todos tomavam o máximo de cuidado. A pista era grande e parecia dar a volta em toda Midgar, mas estavam todos tão concentrados em descer, que realmente não podiam se preocupar com isso.

De repente, todos pararam. Os adultos se aglomeraram. Parecia haver algum problema. Entrando na multidão, Denzel viu um garoto de cerca de três anos preso entre os trilhos, numa posição perigosa.

"Se ele é a causa do nosso atraso, então podemos simplesmente deixá-lo", foi o que Denzel pensou. Alguém perguntou a ele:

"Onde está sua mãe?"

O garoto começou a chorar, gritando por sua mãe e balançando no espaço entre os dois trilhos. Parecia que ele ia cair, então Denzel correu e agarrou seu braço. Ele pôde ouvir os adultos cochichando.

Alguém disse: "Hei, aquele menino está infectado!"

"Não o toque, é contagioso!"

Eu não tinha idéia do que eles estavam falando.

"Hei, afaste-se!", alguém gritou nervosamente. Denzel queria responder, mas não sabia quem havia falado. Não havia nada que ele pudesse fazer, então apenas levantou o garoto e o colocou de volta num lugar seguro. Denzel estava pensando porque ninguém ajudou, mas logo entendeu. As costas do garoto estavam cobertas de uma substância escura.

Agora que o caminho estava livre de novo, as pessoas continuaram a andar. O garotinho continuou a chorar, dizendo as palavras "está doendo" e "mamãe". Denzel se lembrava de alguém ter dito "é contagioso". Ele sentiu vontade de chorar. Quando ajudou o garoto a se levantar, Denzel se lembrou de Ruvi. Lembrou de como sentiu nojo quando viu aquele líquido saindo da boca de Ruvi, apesar de ela ter sido tão boa com ele. E por isso ele queria pagar por esse pecado ajudando o garoto. Ele queria que Ruvi o perdoasse. Denzel se aproximou dele e perguntou:

"Onde dói?"

"Minhas costas."

"Suas costas doem, é?"

"É."

Denzel tocou de leve as costas do garoto. Quando Denzel tinha dor de estômago, Chloe o acariciava e então melhorava. Ela fazia o mesmo quando ele caía. Talvez Denzel pudesse usar um pouco dessa mágica também.

Denzel começou a acariciar as costas do garoto, enquanto tentava ignorar a substância negra. Embora estivesse doendo, o garoto logo dormiu.

Três horas se passaram. Ele continuou cuidando do menino. As outras pessoas continuaram descendo, ignorando-os.

"Ele está morto."

Olhando para cima, Denzel viu o rosto cansado de uma mulher.

A mulher carregava um bebê no colo, e uma garota de mais ou menos a mesma idade de Denzel a acompanhava.

"O lenço dele parece de mulher. Estranho, não, mamãe? Vamos."

A mulher tirou a jaqueta da menina e deu a Denzel.

"Vista isso."

A garotinha ficou aliviada. Parecia que ela estava vestindo três peças de roupas.

"Você pode ficar com ela. É da minha irmã, por isso é tão grande.", a menina disse.

Denzel olhou para o garoto deitado no chão. Ele não estava respirando.

Denzel estava completamente sem forças. A menina pegou a jaqueta de sua mãe e cobriu o menino. Seu corpo agora estava escondido dos curiosos.

"Ele vai ficar com a minha irmã.", ela disse.

"Obrigado", Denzel disse com todo o seu coração. A mãe começou a andar de novo e a menina a seguiu. As duas estavam com as mãos cobertas de preto.

Olhando para o enfeite de chocobo na mochila da menina, Denzel pensava:

"Todos vão morrer por causa daquela coisa preta? Todos estamos condenados?"

...

"Na época, nós não sabíamos nada sobre o Geostigma. Aqueles que banharam seus corpos no Lifestream iam para o "mar" e morriam. As pessoas diziam que era contagioso, através do toque. Na verdade, era só porque os pensamentos de Jenova estavam misturados no Lifestream, e nada mais... Mas não importa. Mesmo que soubéssemos disso na época, a situação não mudaria."

"Você está certo. Especialmente as crianças."

"É. Quando eu estava no trilho, meu desejo era me tornar logo um adulto. Eu queria diminuir o número de coisas que não conseguia entender."

...

Denzel observava distraidamente as pessoas que fugiam para a estação nos subúrbios. Uma após a outra, elas deixavam os níveis superiores. A maioria pensava que seria o fim se parassem. Ele tinha que fazer isso também, mas não conseguia abandonar a esperança de encontrar alguém conhecido ali.

Enquanto andava pela estação procurando comida, Denzel encontrou um lugar pouco distante com bagagens jogadas. Perto dali, muitos homens estavam trabalhando. Parecia que estavam cavando um buraco. Com uma rajada de vento, o cheiro de carne podre veio voando. Um homem carregando uma mulher jovem nos ombros veio e a colocou no buraco. Era um cemitério temporário. Quando Denzel estava prestes a fugir em pânico, encontrou uma bolsa familiar entre a bagagem. Tinha um enfeite de chocobo. Denzel nem sabe porque, mas correu e abriu a bolsa. Havia alguns biscoitos e chocolate dentro. Ele pensou na garota a quem a bolsa pertencia. Ela não estava mais aqui.

"Coma", uma voz disse. Era Gaskin.

Ele realmente não era alguém que Denzel gostaria de ver.

"Está preocupado com a doença? São apenas rumores. Pode até ser verdade, mas no momento, são apenas rumores. Além disso, você vai realmente morrer se não comer nada. Se você vai morrer mesmo, não é melhor fazer isso de estômago cheio?", ele disse comendo alguns biscoitos.

"Bom! Ainda estão na validade. Se você simplesmente deixá-los aqui, eles vão apodrecer. Isso seria um desperdício. Aqui, pegue alguns."

Denzel comeu alguns biscoitos também. Ele estava feliz em poder sentir esse gosto de novo. Ele se virou para a bolsa e disse: "Obrigado".

Gaskin acariciou sua cabeça.

Ele era muito diferente do pai de Denzel, mas a maneira como ele o acariciou foi a mesma. Cerca de um ano depois, Denzel estava vivendo exatamente naquele lugar. Seu primeiro trabalho foi encontrar comida entre a bagagem.

Ele também fez amigos depressa. Todos eram crianças que perderam os pais. Os amigos de Gaskin também aumentaram. Ele os chamava de inúteis que não sabiam pensar e não conseguiam ficar sem exercício. Eles foram o primeiro grupo a começar a fazer enterros. Denzel às vezes até se encontrava rindo. Ele começou a sentir que podia ser ele mesmo de novo. Porem, cerca de duas semanas depois, o número de pessoas vindo de Midgar para se refugiar estava diminuindo, enquanto não havia mais pessoas forçadas a vir a essa área. O papel deles na estação estava chegando ao fim. Denzel passou muitas noites em claro pensando no futuro.

Um homem estava andando sozinho e parecia estar procurando alguma coisa. Ele se aproximou deles.

"Eu quero um cano de aço. Seria ótimo se eu pudesse reunir uma grande quantidade."

Eles saíram em busca dos canos de aço. Encontraram muitos nas ruínas do Setor 7.

O homem agradeceu e foi embora. Desde então, ele voltou muitas vezes. Após a terceira visita, ele trouxe amigos com ele.

Na verdade, uma nova cidade estava sendo construída na área leste de Midgar e por isso eles estavam procurando por materiais. As crianças recebiam comida em troca de qualquer coisa que pudessem encontrar.

Logo Denzel e seus amigos começaram a responder como o "Time de Busca do Setor 7" e recebiam muitos pedidos. Todos os dias eram divertidos. Eles estavam orgulhosos de levar uma vida onde trabalhavam como adultos. Havia noites em que eles choravam e pensavam em seus pais, mas sempre um ajudava o outro. As palavras "um por todos, todos por um" estavam sempre com eles. Mas eles nunca imaginaram que o forte poder do destino não deixaria as coisas continuarem assim.

Um dia, Gaskin reuniu seus amigos e as crianças do chamado time de busca. Ele disse que todos iam participar da construção da cidade nova e iam se mudar. Justo quando parecia que tudo estava decidido e que não havia nenhuma objeção, uma das crianças fez uma pergunta. Ele esteve coçando o peito o tempo todo enquanto Gaskin falava.

"Sr. Gaskin, você está se sentindo mal?"

"Só um pouco", Gaskin disse, antes de cair no chão. Uma substância negra saiu.

...

"Um mês depois, Gaskin morreu. Eu o enterrei num lugar especial. Todas as pessoas boas morrem, não é?"

Reeve continuou em silêncio. Denzel tomou um gole de café. Era amargo, a bebida que ele mais odiava. Mas ele queria poder aproveitar seu gosto como os adultos faziam.

Episódio 4

Todos os adultos se foram, e restavam apenas cerca de 20 crianças no time de busca do Setor 7.

Eles sabiam que a nova cidade se chamava Edge e que estava se desenvolvendo bem. Eles também sabiam que havia um lugar para órfãos lá. Mas na cidade que eles tinham construído, não precisavam depender de adultos para sobreviver. Não havia razão para saírem. Eles também pensavam como seria ruim serem tratados como órfãos desprotegidos. Mas isso não impediu a cidade de alcançar um novo nível. Maquinaria pesada de diversas regiões era transportada para lá e logo o desenvolvimento cresceu. O trabalho que eles desenvolveram era muito mais do que Denzel e os outros fizeram nesse tempo todo. Membros começaram a abandonar o time de busca aos poucos. Em pouco tempo, apenas seis restaram. Todos estavam com fome. Eventualmente a última menina do grupo também disse que ia para Edge.

...

Denzel sorriu.

"O que foi?", Reeve perguntou, confuso.

"Eu odiava aquela garota. Eu a deixei se juntar a nós apesar de todos os outros meninos reclamarem que ela seria um peso. O trabalho era difícil, já que havia menos de 10 pessoas."

Reeve riu.

"Mas agora eu sei. Sobre porque eu, como posso dizer... Porque eu ficava nervoso ou frustrado com coisas tão normais."

"Você devia agradecer a ela."

"Ela não está mais por perto."

...

Quando Denzel acordou, tudo que restava do time de busca era ele e um garoto chamado Rix.

"Agora vai sobrar mais comida", Denzel disse sorrindo.

"Não que seja algo para nos orgulhar", Rix disse.

"Vou comprar o café-da-manhã e procurar um trabalho."

"Hei, espera um pouco!"

Rix foi até onde eles mantinham o cofre e o abriu.

"Hei, Denzel! Estamos com problemas!

Dentro do cofre, não havia dinheiro suficiente para comprar uma só fatia de pão. Eles ficaram quietos por um tempo. Rix foi o primeiro a falar.

"Não temos escolha a não ser viver em Edge. Lá teremos comida de graça."

"É, nós perdemos. Não quero morrer de fome."

De repente, Denzel se lembrou de algo que seu pai falou.

"Que tal pegarmos ratos para comer?"

"Ratos?"

"É. Eu ouvi dizer que nos subúrbios todos eram tão pobres que comiam ratos. Ratos cinzas e sujos. Estes são os subúrbios afinal, e nós somos pobres."

"Você está falando sério?"

"É, eu vou comer ratos. Vou virar um morador do subúrbio de verdade."

Rix lentamente se levantou e limpou a sujeira da roupa. Denzel se levantou também e olhou para os lados.

"Vamos pegá-los com lanças."

"Faça isso sozinho. Eu moro nos subúrbios desde o dia em que nasci."

Denzel percebeu seu erro e queria se retratar.

"... Eu não sabia."

"E se você soubesse? Nós não teríamos ficado amigos?"

"Nada disso!"

"Quem sabe? Você morava no abastado prato afinal."

"Rix..."

"Lembre-se disso. Todos os ratos por aqui foram contaminados por bactérias horríveis graças à água poluída que vocês jogavam em nós. Não há ninguém aqui que seria estúpido o bastante para comê-los!"

Dizendo isso, Rix deixou Denzel para trás.

...

Denzel suspirou.

"Eu não fui atrás dele. Achei que não me perdoaria..."

"E por quê?"

"Eu realmente era um garoto do nível superior afinal. Eu estava me acostumando bem com as redondezas da estação e toda a poeira do Setor 7, mas eu nunca pensei em ir aos subúrbios. Eu não queria ir a Edge porque achava que seria mais um lugar igual aos subúrbios. Um lugar pobre e sujo."

"E Rix?"

"Ele está bem. Mas não sei detalhes."

"Isso é bom. Você ainda tem uma chance de fazer as pazes com ele então."

...

Denzel afiou as pontas das barras de aço que reuniu para usar como lanças, e saiu em busca de ratos. Ele planejava comê-los depois de encontrá-los. "Papai, o povo dos subúrbios nunca comeu ratos." Mas ele planejava fazer isso. Ele não tinha dinheiro e nem trabalho. Era ainda pior que os subúrbios. Ele era uma criança do Setor 7 que não podia crescer.

A solidão levou embora a sua vontade de viver. Denzel estava de volta como era quando o Setor 7 foi destruído. Mas o que era diferente desta vez é que ele se lembrava de todas as pessoas que o acolheram e o ajudaram: seus pais, Arkham, Ruvi, Gaskin e o time de busca. Nada mais podia acontecer.

Ele sentia que não sabia mais sorrir. Mas não há sentido em viver sem sorrir. "Não é verdade, mamãe?"

...

"Hei, espere um pouco aí!", Johnny interrompeu. Sem que Denzel e Reeve percebessem, ele estava ali ao lado deles o tempo todo, ouvindo a história de Denzel.

"Foi o que eu pensei na hora. Mas eu estava enganado. É por isso que estou aqui agora."

"É, você está certo."

"Foi por causa das boas memórias que você tinha."

"Mas eu estava no pior estado possível."

...

Não havia ratos em lugar nenhum. Em pouco tempo, Denzel estava procurando na área dos subúrbios do Setor 5. Havia uma igreja lá. E havia uma motocicleta abandonada ali. Foi a primeira vez que ele viu uma coisa como aquela. Mas o que chamou sua atenção foi o telefone celular preso ao guidão.

Um sorriso invadiu seu rosto.

"Vou pegar emprestado um pouco. Será divertido se funcionar."

Ele chegou perto da bicicleta e pegou o celular. Enquanto discava o número de sua antiga casa no Setor 7, Denzel imaginava o telefone tocando.

"Todos os telefones do Setor 7 estão desativados."

Na época em que trabalhava com o time de busca, Denzel também procurou os seus pais, mas não conseguiu achá-los. Ainda devem estar soterrados. Ele não tinha mais esperanças que estivessem vivos.

"Todos os telefones do Setor 7 estão desativados."

Ainda com o telefone no ouvido, ele olhou para cima. Denzel podia ver o fundo do prato do Setor 5. Ele se deu conta de que ali em cima, Ruvi estava dormindo. Ele estava debaixo de um túmulo. Era por isso que era tão solitário.

"Todos os telefones do Setor 7 estão desativados."

Denzel apertou o telefone e pensou em atirá-lo no chão. "Por favor, me empreste ele de novo." Denzel ia discar o número de Ruvi, mas nunca o soube. Então ele olhou a lista de chamadas do celular.

Denzel discou o primeiro número da lista. Ouviu a linha chamando. Alguém atendeu rapidamente.

"Cloud, é tão raro você me ligar. Aconteceu alguma coisa?"

Ele ouviu a voz da mulher em silêncio.

"Cloud?", a mulher perguntou, em tom de dúvida.

"... Eu não sou ele."

"... Quem é você? Esse celular é do Cloud, não é?"

"Eu não sei. Eu não sei o que fazer.", a voz de Denzel tremia.

"... Você está chorando?"

Denzel sentia as lágrimas escorrendo pelo rosto. Ele fechou os olhos para limpá-las, mas sua cabeça começou a doer. Seu corpo todo tremeu, e ele deixou cair o celular. Ele se contorcia no chão, enquanto a dor aumentava. Sentiu uma substância estranha na palma da mão. Sentiu como se gritasse que não queria morrer. Mas a dor não ia embora, e então ele rezou com todo o seu coração. "Não seja negra, não seja negra." Enquanto tentava resistir à dor, ele abriu os olhos. A substância era negra.

...

"Eu não me lembro do que aconteceu depois. Quando acordei, estava numa cama. Tifa e Marlene olhavam para mim. E então, depois disso... Você sabe o que aconteceu, senhor."

"Vagamente."

"Eu estou vivo graças a todo tipo de gente. Meus pais, Ruvi, Gaskin, o time de busca... Pessoas vivas, pessoas que já morreram, Tifa, Cloud, Marlene e..."

Reeve entendeu e consentiu.

"Eu quero ser como eles. Desta vez, eu quero proteger alguém."

Reeve ficou quieto.

"Por favor.", Denzel pediu.

"Não! Não, não!", disse Johnny.

"Você fica quieto!"

"Você é só uma criança!"

"Isso não tem nada a ver!"

"Não", Reeve começou a dizer, "A verdade é... A WRO não aceita mais crianças."

"Viu só?"

"Então porque você não me falou desde o início?", Denzel gritou.

"Bem, eu apenas decidi isso agora. Enquanto ouvia a sua história. Há coisas que apenas crianças podem fazer. E é isso que eu quero que você faça."

"... O que você quer dizer?"

"Aumentar o poder dos adultos."

Denzel esperava que ele continuasse, mas Reeve se levantou como se tivesse terminado.

"Oh, e..."

Denzel olhou para Reeve com esperança.

"Obrigado por cuidar de minha mãe."

Reeve tirou um lenço do bolso e limpou o rosto. Era um padrão de flores.

Quando Reeve saiu, Johnny começou a limpar a mesa. Denzel olhou para seu próprio lenço, que estava sobre a mesa.

"Sabe...", Johnny parou e disse, "Você pode lutar sempre que quiser. Não há necessidade de se juntar a WRO. Porque você está tão preocupado?"

"Cloud. Ele..."

"O que tem ele?"

"Há muito tempo atrás, quando ele estava no exército, ele era forte. Eu quero ser forte também."

"Os tempos... Mudaram, sabia?"

"Como?"

"Bem, aqueles que diminuem as dores das pessoas são populares hoje em dia, mais populares até do que aqueles que usam armas."

"Não é como se eles quisessem ser populares.", Denzel friamente disse a Johnny, enquanto se lembrava de todos que lhe encorajaram. Todos aqueles homens, mulheres, adultos e crianças que o ajudaram tanto.

Caso de Denzel, Fim.