quarta-feira, 8 de julho de 2009

Contos de Entalis - O Coiote Solitário das Terras Ermas

Há muito tempo atrás, em uma época em que ainda existiam florestas no norte, viveu um grande guerreiro de numerosos feitos e memoráveis honras. Mas nem sempre esse guerreiro viveu uma vida digna de seus atos, as vezes nem mesmo de suas honras.

Caeryn - O Coiote Solitário das Terras Ermas

A viagem até a cidade de Calahann era por deveras tranquila. Naqueles tempos, o imperador Tulkas havia praticamente acabado com a violência nos reinos do continente de Anfalas. Usando técnicas pouco conhecidas da população, conseguiu prender a maioria dos criminosos perigosos e colocou os menos perigosos para trabalhar na conservação das cidades. Em vista disso, quase não haviam mais ataques nas ruas e estradas.

Foi na tarde do quinto dia desde a última vila que o viajante encontrou uma carroça tombada e um homem embaixo da mesma, bastante ferido. Intrigado com o acontecimento, o viajante desceu do seu cavalo e tratou logo de ajudar aquele homem. Retirou-o dos destroços da carroça e usou seus conhecimentos de cura para ajudá-lo. Logo em seguida o homem - que aparentava ter seus cinquenta e poucos anos - foi melhorando até que foi voltando à consciência...




Depois de um tempo, ele ja estava quase plenamente acordado e curado de seus ferimentos, e foi quando o viajante havia lhe perguntado o que havia ocorrido. A expressão do velho quase que imediatamente se entristeceu e se desesperou e, com essa expressão, ele disse que havia sido roubado por um grupo de assaltantes que, provavelmente, sabiam o que ele estava transportando. Ele deu mais informações sobre os ladrões, mas não falou da carga. O assalto havia ocorrido a pouco mais de duas horas e, para o viajante, seria fácil rastreá-los naquela região.

Acomodou, então, o velho e suas coisas ao lado de uma árvore à beira da estrada e saiu em caçada ao grupo de assaltantes que roubaram os cavalos e pertences do velho carroceiro.

Vasculhando em torno da carruagem tombada o viajante encontrou o rastro dos assaltantes. Pelo que podia calcular, eram em torno de seis ou sete pessoas. Não seria difícil desde que fosse usada a estratégia certa. Partiu seguindo o rastro que saia quase perpendicular à esquerda da estrada.

Seguindo a trilha, logo ele adentrou em uma região de árvores semi-cerradas e de copas altas. Isto seria um problema se houvesse algum batedor ou vigia em alguma parte do caminho pretendido. Pensando nisso, foi andando mais devagar, escondendo-se por entre as árvores e arbustos. Com mais ou menos uma hora que havia iniciado a busca, o viajante viu ao longe alguns vigias em cabanas nas copas das árvores. Até o momento não parecia que os vigias o haviam percebido. Pensando na possibilidade de haver mais vigias em outras árvores, o viajante pegou um pouco de água do seu cantil, molhou as mãos e entoou uma canção e espalhou a água no chão à sua volta. Suas mãos brilharam discretamente e após alguns minutos um vento leve começou a entrar dentro da mata, sacolejando de leve as copas das árvores. Parecia ser um indício de que logo começaria a chover.

Logo após este gesto, o viajante subiu na árvore mais próxima e lá ficou aguardando alguma coisa acontecer. Sua capa o protegia bem da visão dos vigias, tornando-o quase invisível ali em cima. Logo algumas gotas de chuva começaram a cair, e em alguns minutos uma bela chuva de verão se forma. Pelo visto era o momento esperado pelo viajante. Com a chuva ficando mais forte, ele subiu mais um pouco na copa da árvore onde estava apoiado, ficando acima da linha das cabanas.

Depois de se acomodar em um galho mais resistente, o viajante pega seu arco, libera sua espada da bainha, saca uma de suas flechas e atira no segundo vigia, que está mais afastado, e no momento em que salta da árvore em direção ao primeiro vigia, ele guarda o arco e saca rapidamente sua espada, caindo exatamente em cima do primeiro. Dois golpes, um movimento.

No entanto, no momento em que o viajante retirava a espada do peito do vigia morto, em uma árvore mais ao fundo um batedor vê a cena e dá o sinal de alerta, poucos segundos antes que uma flecha certeira atravessasse a garganta dele. No entanto o sinal foi dado. Correndo pelas passarelas nas árvores, o viajante saca duas pequenas adagas curvas e vai em direção de dois homens que correm no chão. Em um salto ele cai exatamente em cima do primeiro, cravando as adagas nos ombros deste. Em um movimento de corpo ele arremessa o primeiro homem no segundo e já parte para atacar o segundo. Este lhe tenta atacar e erra, acertando em sua roupa; somente para mostrar uma proteção rígida embaixo. No entanto não têm tempo de desferir outro golpe pois, neste momento, já havia levado dois golpes de adaga: o primeiro por baixo de uma falha da armadura, logo abaixo da axila, e o segundo na altura do ombro.

Segundo movimento terminado. Nenhum ferimento. Depois de revisar mentalmente a batalha, ele avança novamente oculto entre as sombras das árvores e da chuva, que agora está forte e impossibilitando que possam enchergá-lo a uma distância de mais do que alguns metros.

Alguns homens passam por ele em direção ao campo de batalha anterior. Ele conta três. Três a menos para lhe atrapalhar. Ele avança então para uma região entre às árvores, mais aberta e limpa. Há uma casa grande com várias cercas e divisões, ao que parece ser uma fazenda de criação de gado. Mas, olhando atentamente, não se vê nenhum tipo de rebanho por ali, o que o leva a crer que pode ter sido abandonado em algum momento do passado e aproveitado pelos assaltantes, por sua proximidade com a estrada e sua aparente invisibilidade.

Avançando pelo campo, o viajante é surpreendido por uma armadilha que se abre no chão. Um alçapão se abre sob seus pés e, num lançe muiro rápido, ele se joga no chão à frente, enterrando as adagas ainda em mãos na terra, fazendo com que ele não caia no buraco. Com um pouco de esforço ele se levanta dali e inspeciona a armadilha. Realmente fora instalada ali propositalmente, para evitar visitas inesperadas, pois no fundo da mesma haviam várias estacas instaladas. Com certeza, se ele caísse ali morreria.

Com mais cuidado e agora inspecionando o chão e os arredores onde estava passando, ele vai marcando visualmente todas as armadilhas que vai encontrando no caminho, e desativando as que permitem ser desativadas. Havia uma miríade de armadilhas e fios de alarme por toda a extensão da fazenda. Como a chuva ainda caía e de onde estava não era possível ser visto lá de dentro da casa, passou a desativar a maioria das armadilhas que encontrou no caminho e aproveitou para mudar algumas de posição.

Após isso, o viajante vai para detrás da casa e pega em um de seus bolsos um pequeno cristal branco e segurando-o entre as mãos ele pronuncia novamente algumas estranhas palavras, e dentro do cristal começam a aparecer pequenos raios, como se a pedra fosse uma grande nuvem transparente. Depois disso, ele cobre com as duas mãos a pedra e finaliza o encantamento, quando então a pedra emite um brilho que é abafado pelas mãos. Em pouco mais de alguns segundos, a chuva que estava forte começa a soltar grandes raios e trovões capazes de assustar até o mais valente dos cidadãos de qualquer cidade.

O viajante então entra pelos fundos da casa e começa a vasculhar cômodo por cômodo do lado de baixo da casa. No nível da entrada não havia ninguém. Restavam então os níveis superior e inferior, sem contar o sótão. Ele foi até uma porta próxima à soleira da cozinha e lá encontra a entrada para o porão. Estava muito escuro lá dentro, à exceção de um ou outro relâmpago que de lá de fora iluminava o porão pela pequena janela instalada no fundo da mesma.

Em um dos relâmpagos, ele percebe que há uma pessoa ali dentro. Movimentando-se sem fazer o mínimo barulho, o viajante vai se colocando ao lado da pessoa, que parece estar apavorada. Arma o bote. Quando vai então desferir o golpe surpresa, um relâmpago revela que aquela pessoa que iria ser atacada é um prisioneiro. Estava amarrado a um pilar de madeira e com os olhos e boca vendados. Aquilo soou óbvio para ele como uma armadilha e tratou então de ir voltando novamente para a cozinha quando, de repente, uma luz ilumina o porão e ele vê quatro homens posicionados em lugares escuros ali dentro prontos para atacá-lo. A rodada surpresa não era dele mas dos assaltantes, que conseguiram fazer com que ele caísse em uma bela armadilha.

Sem nenhuma troca de palavras, a luta começou. Não havia espaço para que ele pudesse usar suas espadas ou mesmo o arco ali dentro. O primeiro homem disparou uma besta. O virote acerta em cheio sua coxa esquerda e fica atravessada pela perna. O segundo homem tenta acertá-lo com uma espada mas erra. O terceiro também atira com uma besta mas o virote é defletido pela armadura. O viajante, por sua vez, saca rapidamente uma adaga de arremesso e acerta com uma precisão incrível o homem que lhe acertou a adaga na perna. ele cai morto com a adaga trespassada em seu olho direito.

Após isso, ele dá um passo para o lado, ficando parcialmente a salvo dos disparos do terceiro homem. Logo em seguida o quarto homem o acerta com um martelo de guerra em sua mão armada, fazendo com que ele deixe cair a outra adaga. Novamente o segundo homem tenta acertá-lo com a espada e novamente ele erra o golpe. Desta vez a espada acabou ficando presa no pilar atrás do viajante, pois este em um movimento bem rápido abaixou-se, deixando o golpe se conduzir até a madeira. O viajante tenta pegar a espada que ficou presa mas no momento em que tenta tirá-la o terceiro homem atira com a besta, forçando-o a novamente se esquivar.

Em um movimento circular bem elaborado, ele consegue tirar a espada do pilar e ao mesmo tempo que faz isto, desfere um golpe no quarto homem, que inicialmente lhe desarmou. Ele acerta a espada de lado na cabeça do homem e o deixa tonto. O terceiro homem atira novamente com a besta, desta vez acertando-o no ombro. O segundo tenta atacar desarmado mas no momento em que tenta desferir um golpe, é trespassado pela sua espada. Neste momento o viajante saca mais uma adaga e acerta o terceiro. Em um movimento rápido, ele retira a espada do peito do segundo e parte para atacar o quarto homem. ele acerta o homem mas não o mata, e então ele sai de seu estado tonto. O terceiro tenta novamente atirar mas, como está ferido, erra o tiro.

Nesse momento, o viajante bloqueia o ataque do quarto homem e o desarma. Nesse mesmo movimento de desarme, ele corta a cabeça do homem fora. O terceiro larga a besta e saca uma espada e tenta lutar com o viajante, mas está ferido no peito. Eles trocam ataques, esquivas, bloqueios e contra-ataques até que, num momento de fraqueza do assaltante, ele é ferido mortalmente no abdómem e cai no chão.

Depois de terminada a batalha, o viajante vai até o assaltante ferido e lhe pergunta onde estão as coisas roubadas hoje. O assaltante se nega a dizer. Então ele ameaça impondo sua mão no peito do assaltante. A mão começa a brilhar em um tom de fogo e o assaltante começa a desfalecer, quando então diz que foi tudo colocado no celeiro, para ser levado dali.

Quando o viajante perguntou para onde seria levado, o assaltante desfalece e morre.

Depois da confissão, o viajante descansa e em seguida retira cuidadosamente os virotes de sua perna e corpo e repete as mesmas palavras que ele usou com o velho para curar-lhe as feridas. Em seguida retira o homem que estava amarrado ao pilar. Ele olha assustado para o viajante e quando vê os homens que o sequestraram, mortos ali no chão, ele respira aliviado.

Enquanto eles limpam a sujeira da batalha, o homem vai lhe contando que ele sempre morou naquela fazenda e que há vários meses estes homens invadiram sua propriedade e o fizeram prisioneiro. ele dizia que sempre ouvia barulhos de movimentação do lado de fora da fazenda, como se pesadas carroças estivessem sempre chegando ou saindo dali. O viajante ficou com aquilo na cabeça e enquanto pensava, lembrou-se que alguns dos homens haviam saído da casa e provavelmente já estariam voltando.

Ele foi então para o lado de fora e encontrou algo que quase o fez rir. Na pressa de voltarem para a casa os três assaltantes não se preocuparam em verificar o caminho e foram pegos em suas próprias armadilhas. Dois estavam caídos em um alçapão com estacas e o outro dependurado pelo pescoço em uma armadilha de corda.

Então, com tudo terminado, ele olha para as nuvens de chuva pesada e com um gesto de mãos, emite uma leve luz azul clara, e logo os raios, os trovões e finalmente a chuva vão cedendo e abrindo espaço para um céu azul púrpura de fim de tarde. Em seguida o viajante fala para o dono da fazenda que havia ali próximo um homem que precisava de ajuda. Enquanto isso ele ficaria ali para desfazer o mal que os assaltantes instalaram e tentar entender o que eles estavam planejando.

Aquelas informações de alguma forma se encaixavam, mas de que forma? Num reino onde quase não há mais assaltantes, algo como o planejado por este grupo deveria ser impossível de se realizar.

Ele passou alguns dias ali com o dono da fazenda e recuperou a maioria das coisas que o velho havia perdido, à exceção de um pergaminho antigo, que ele transportava para um grupo de estudiosos de Calahann, a pedido de um homem na capital.

Passados os dias, o viajante caiu novamente na estrada em sua jornada para a cidade que há muitos anos não visitava, desde que resolveu sair em busca de suas memórias e lembranças que por algum motivo lhe haviam sido tiradas. Este foi o primeiro dos vários feitos heróicos do viajante, que sempre se identifica como “O Coiote Solitário das Terras Ermas”.