sábado, 25 de julho de 2009

Conspiração P.A.L.M.A.S. 4 - O Destino de Palmas - Parte 2

Hoje o dia amanheceu sereno. Resolvi fazer caminhada pela cidade e ir até o posto para pegar gasolina para minha moto. Ontem esqueci de abastecê-la e agora tenho de ir à pé até lá. Aproveito também para ver se ainda há algo na loja de conveniência para comer, já que também esqueci de renovar meus mantimentos.

Chegando ao posto, pego a bomba manual, recolho mais ou menos 3 litros de gasolina e deixo o galão ali mesmo para me dirijir à loja de conveniência. Infelizmente, tirando os produtos enlatados, o resto está com um insuportável cheiro de podridão. Pego então uma lata de salsichas e dois pacotes de batata e volto pra fora, pego o galão de gasolina em seguida e volto para casa, antes que o sol se ponha e os animais noturnos saiam à caça.

Conspiração Palmas 4 ...



4 de janeiro de 2013. Não, o planeta não foi destruído por um meteoro ou mesmo por algum evento místico relacionado ao fim do calendário Maia. Até onde meu conhecimento alcança, por volta do ano de 2009 uma sequência de eventos culminou no extermínio da raça humana da face da Terra.


Talvez eu esteja sendo um pouco dramático mas, ninguém, a não ser eu - e o personagem do Will Smith no filme "Eu sou a Lenda", pode ter idéia de como é ser a única pessoa ainda viva na cidade de Palmas.

Fazem vários meses que eu vi a última pessoa ainda viva em Palmas. Por um acaso do destino, eu conheci essa pessoa durante minhas investigações sobre o evento que varreu da face da Terra 99,97% da população mundial. Tudo por causa de um minúsculo vírus, considerado inofensivo e com baixa fatalidade apesar de sua alta taxa de propagação entre humanos. Essa pessoa tinha informações muito importantes sobre os eventos que vou narrar aqui e praticamente participou da maioria deles, apesar de nunca o ter encontrado antes que eu tivesse conseguido acesso à base militar da Serra do Carmo. Quem é essa pessoa? Alguém muito importante para mim...


Fiquem tranquilos, vou explicar tudo com bastante calma. Vamos ver primeiro os fatos que levaram à extinção da Raça Humana da Terra.

Primeiramente, em meados de 2007 surgiu uma cepa de gripe, intitulada H1N1. Ela se propagava livremente por entre animais como porcos e outros suínos, por isso recebeu o nome carinhoso de "Gripe Suína", da mesma forma como aconteceu com o H5N1, chamado de "Gripe Aviária". As diferenças entre a gripe suína e a aviária eram muitas, já que as duas tinham genealogias bastante distintas. Essa era bastante letal, mas nunca teve uma propagação rápida já que, para se propagar entre humanos, era necessário o contato direto com aves infectadas. Não havia ainda o contágio de humanos para humanos. Já a primeira tinha um percentual de mortalidade mais baixo, no entanto ela se espalhava com grande facilidade, sendo somente impedida pelo fator temperatura, já que ela não sobrevivia bem nas baixas temperaturas do corpo humano, quando comparado com a temperatura dos suínos.

Até aí nada de novo. A gripe aviária saiu de cena, a gripe suína entrou em cena e matava em torno de 20 a 30 pessoas por mês ao redor do globo. Isso até meados de 2010. No entanto, por volta dessa época, vários cientistas no mundo passaram a cultivar estas cepas da gripe. Alguns especulavam que os cientistas estavam a desenvolver armas biológicas com a gripe, e apesar de serem taxados como loucos, eles estavam certos. Mas, onde entra Palmas nessa história? Difícil entender né? O ponto chave é que em Palmas, mais especificamente no Complexo subterrâneo que fica embaixo da cidade, os militares estavam fazendo experimentos com as gripes. Isso fica mais evidente quando, no começo de 2009 um americano chega à Palmas com sintomas de Gripe, é diagnosticado com a H1N1 e depois de alguns meses, desaparece por completo da Cidade.

Nas pesquisas que estavam sendo feitas no complexo, segundo a pessoa que conheci, os militares estavam experimentando variações da H1N1 em conjunto com a H5N1. E dentre essas pesquisas, eles conseguiram criar o que foi chamada de "A Gripe do Apocalipse", pois ela tinha o mesmo grau de mortalidade da H5N1 e se propagava com a mesma velocidade da H1N1. No entanto, eles não satisfeitos com a "descoberta", passaram a experimentar variações e alterações no código da doença e a tornaram uma doença ainda mais fatal, eliminando o problema da temperatura corporal. Mas, até então eles acharam que ela era só uma gripe atenuada, pois seus sintomas demoravam meses para aparecer.

Entre os sintomas dessa nova gripe estavam um resfriado leve durante as primeiras semanas de contágio, alguns com febre durante no máximo uma semana e então a doença desaparecia. No entanto, conforme descoberto depois (o que foi um tremendo erro), a doença simplesmente se incubava no corpo da vítima por até 10 meses e nos meses em que a umidade se acentuava e a temperatura diminuía, a doença surgia com força total, matando seu hospedeiro em questão de dias. Mas o ponto mais marcante dessa gripe "atenuada" é que a mesma se propagava de pessoa em pessoa, mesmo estando em estágio de incubação.

A gripe "atenuada" foi aplicada como vacina com bastante sucesso em vários países e conseguiu algo inédito em termos de gripe, que foi tornar o corpo humano imune à maioria das cepas de influenza da série H, incluindo entre estas a gripe comum, que todo ano surgia com força nova. Durante os meses seguintes, nada aconteceu, até que com a chegada do inverno no hemisfério norte, começaram a surgir em vários pontos do globo casos de uma nova gripe, mais fatal que qualquer outra doença já vista antes. E os casos não eram isolados. Os focos dessa nova gripe surgiam em pontos completamente desconectados uns dos outros e até em regiões onde não havia sido feita a vacinação.

No começo, ninguém entendeu nada. Ninguém sabia como lidar com essa nova gripe, e pior do que tudo, não sabiam como identificar quando as pessoas estavam infectadas enquanto ela estava em estágio de incubação. Isso gerou uma comoção mundial em busca de uma solução para o problema. Vários países se uniram para tentar parar o avanço dessa doença que dizimava mais pessoas do que era possível enterrar.

Aparte todos os esforços mundiais, no dia 21 de dezembro de 2012, 60% da população mundial já havia morrido pela doença. Algumas pessoas sobreviviam à doença por motivos ainda não esclarecidos. No entanto, na virada do ano, mais de 95% da população já havia sido dizimada. A partir daí, os últimos vestígios da sociedade moderna já não mais existiam. A internet foi a primeira a deixar de funcionar. Em seguida às emissoras de televisão e depois as de rádio. Poucos dias depois, a energia acabou e aqueles que ainda estavam vivos estavam à mercê das intempéries, como os últimos sobreviventes da Gripe que Extinguiu a Raça Humana.

A Gripe do Apocalipse



Como eu disse, depois de vários meses como um dos únicos sobreviventes em Palmas e um dos poucos seres humanos ainda vivos na Terra, eu parei de me esconder e lamentar o fato e coloquei minha cabeça novamente para trabalhar. Eu queria saber como essa gripe chegou à tais proporções, como ela se tornou tão letal e se espalhou tão rápida, já que a mortandade de uma doença e seu fator de espalhamento são duas grandezas inversamente proporcionais.

Alguns dos dados que eu citei no começo dessa narrativa, eu só descobri algum tempo depois, com minhas descobertas em Palmas. Inicialmente eu comecei invadindo o Palácio Araguaia, sabidamente uma das entradas principais para os níveis inferiores. Certamente, não haveriam guardas vigiando as entradas, mas internamente ao complexo era difícil dizer. No entanto, sem medo, eu parti em direção à entrada leste do palácio. Realmente não havia ninguém, e um cheiro de podridão tomava conta do ar. Sem me preocupar muito com a presença de guardas eu fui entrando, para logo em seguida ser surpreendido por algo que eu havia me esquecido: os cães não morriam pela gripe. Eu fui atacado por um cão que mais parecia um lobo, de tão ensandecido havia sido seu ataque. A minha sorte foi que em sua loucura em me atacar (certamente em busca de comida), ele errou seu ataque e eu pude sem muita dificuldade me livrar do cão. Não gostei de tê-lo matado, mas era eu ou ele, já que agora as leis de Darwin valiam muito mais que antes.

Continuando minha jornada dentro do prédio, tomando cuidado para não ser novamente surpreendido, comecei a estudar a estrutura do prédio em busca das entradas para o nível inferior. Como não haviam pessoas, minha busca foi rápida e logo havia identificado a maior parte dos acessos e sistemas de segurança que asseguravam que as pessoas erradas nunca entrariam nas portas certas. Nesse meio termo em que eu procurava pelos acessos, consegui muita informação do governo que eu sempre quis ter acesso. Mas, que diferença isso faria, agora que todos estão mortos e a sociedade não mais existe? Como nunca se sabe o que o futuro nos guarda, armazenei tudo em meu pda, como de costume.

Finalmente, depois de muito andar pelas dependências do palácio do governo, consegui habilitar o acesso na ordem certa para conseguir descer ao próximo nível. Nada muda muito. A decoração é um pouco mais sombria e com mais detalhes computacionais à vista. Talvez se ali foi um tipo de nível social ou algo do gênero, nunca saberei.

Continuando a descida à níveis inferiores, um enorme tempo eu dispendi na tarefa de descobrir os segredos de cada um dos níveis. Nessa tarefa estafante, gastei nada menos do que seis meses, estando agora próximo do mês de julho do ano de 2013. Em vista da enorme quantidade de informação coletada, eu me mudei para um lugar onde ainda poderia utilizar meus aparatos eletrônicos: o Hospital Geral de Palmas. Fica num ponto bastante estratégico, entre os extintos governos estadual e municipal. Pela minha contagem, ainda haviam centenas de milhares de litros de óleo combustível nos vários postos de abastecimento na região, e com um pouco mais de tempo, era possível conseguir mais, nas cidades ao redor, então energia não seria o problema.

Finalmente, depois de muita dificuldade, eu consegui chegar ao nível intitulado Delta 0, que supostamente seria o núcleo estratégico daquela base militar. Em seu interior, pude notar que ali os militares investiram bastante na construção de um super-complexo tecnológico. Todos os equipamentos encontravam-se funcionando, apesar de não haver nenhum sistema de alerta ativo, o que me deixou preocupado desde que adentrei na estrutura.

Chegando ao comutador central, comecei a procurar indícios do que seriam as pesquisas militares desenvolvidas ali na base. Entre elas, várias pesquisas sobre dispositivos que criavam singularidades, que alteravam o espaço, criando sistemas de repulsão, e o mais incrível de todos, um sistema que permitia viagens no tempo. Apesar de não acreditar nessa coisa de viagens no tempo, salvei todos os protótipos e teorias para um estudo mais aprofundado destas teorias.

Foi durante minhas incursões à base de Palmas que eu vi pela primeira vez uma outra pessoa viva. No momento em que eu saía da entrada do palácio, eu o vi andando ao longe, próximo do que outrora foi a Econômica Federal. Acho que ela também me viu e saiu fugindo por dentro da quadra do banco. A diferença é que eu estava de moto e ele à pé. Em pouco mais que 40 segundos, eu já estava chegando às portas do banco, e logo o vi desviando na esquina, e segui seu rastro até um pequeno prédio de 5 andares que havia ali. Subindo no mesmo, fui verificando andar por andar, para ter certeza de que ele não escaparia. No entanto, depois de um tempo, eu ouvi um barulho de motor e quando fui para fora olhar, ele estava saindo com minha moto. Fui enganado direitinho. Até parecia que ele conseguia prever o que eu iria fazer.

Em vista disso, passei a procurar pela cidade por aquela pessoa, mas parecia que novamente ela havia sumido do mapa. Deixei vários sensores, que peguei na base militar, e espalhei em lugares que provavelmente ele visitaria. No entanto, de acordo com o passar dos dias, nenhum sinal dele era visto, e em via disso, voltei à minha pesquisa.

Com um supercomputador montado onde um dia existiu um aparelho de tomografia computadorizada, no hospital geral, comecei a processar os dados que colhi no último ano, já beirando o mês de novembro. Logo faria um ano que a catástrofe se abateu em nossa cidade e até o momento, nada tinha descoberto de útil.

As vezes penso que a loucura estava tomando conta da minha cabeça, já que aquelas descobertas dos militares que eu havia feito estavam me tomando a mente, em especial a que supostamente permitia uma viagem ao tempo, mas em suas próprias pesquisas, vários fatores pareciam não terem sido solucionadas. Entre elas, para que algo fosse enviado para outro lugar no tempo, considerando que o tempo é uma dimensão, seria necessário “arrancar” aquele pedaço de espaço e substituir no outro ponto para onde ele fosse enviado, e da mesma forma, o ponto que foi substituído seria trazido para o presente. Dessa forma, eliminaríamos um dos problemas da teoria einsteniana, que nos diz que para fazer uma viagem desse tipo, seria necessário que o viajante se separasse do universo atual, para que seu próprio mini-universo fosse movido. Outro problema era como gerar a energia necessária para que o equipamento funcionasse. Tudo bem que eles conseguiram fazer algo que usava menos energia que um pequeno país, mas nem todos os geradores de energia do estado conseguiriam gerar tal energia.

Voltando à realidade, passei a me preocupar com o problema do vírus da gripe, algo que era mais plausível de ser resolvido. Pelo que podia perceber, os militares avançaram bastante nas pesquisas para a vacina mas os dados adicionais estavam guardados no centro de pesquisas da serra do carmo, e por algum motivo que eu não sabia dizer qual, não havia nenhum túnel ou ligação direta entre as duas bases. Será que os militares queriam manter uma como base de apoio da outra, e evitar que ao se descobrir uma, tornasse a outra vulnerável? Como saber agora, nessa altura do campeonato?

A Cura



Como os dados que eu precisava para continuar os estudos da vacina estavam lá na outra base, eu decidi ir para lá. A minha sorte é que eu não precisaria carregar montes de pendrives ou discos externos comigo, já que no meio de tudo o que eu revistei na base militar de Palmas, encontrei muitos aparatos tecnológicos extremamente avançados. Entre eles, um tipo de computador de mão que tinha incríveis 2,5 petabytes de espaço de armazenamento. Isso, em 2008, era o equivalente à toda a informação que existia na Internet. Entre outros aparatos, um geo-localizador, que não dependia de satélites para funcionar. Ele utilizava a variação magnética do lugar para calcular latitude, longitude, velocidade, e mais um monte de informações que a antiga rede de gps não poderia dar, como condições climáticas ou percentual de variação magnética, num nível que nem meu velho notebook de antigamente poderia captar. Outro item que talvez pudesse ser útil era um aparato denominado multi-atordoador. Era uma arma sonora, mas que produzia um pequeno pulso de ar que, quando acertava o seu alvo, o nocauteava como um belo soco. A vantagem é que aquilo não chegava a quebrar nenhum osso, já que se tratava de uma lufada de vento extremamente forte, mas podia derrubar, e isso já era algo bastante útil. Peguei também um rifle de assalto à laser, para caso a situação ficasse por demasiado perigoso.

Saindo dali, fui até a Yamaha e peguei uma moto pequena que eles tinham lá. Ela podia ser pequena em tamanho mas tinha um ótimo motor, e tinha a vantagem de ser leve, o que facilitava o trabalho de escondê-la de olhos curiosos. Não que devesse me preocupar com isso, já que todos estavam mortos, mas agora havia outro, e muito provavelmente deveria ter um treinamento tão bom quanto o meu.

Chegando nas proximidades da base da serra, por intuição eu decidi que não iria entrar pela minha entrada habitual, decisão que depois se mostrou ter sido a melhor, já que a pessoa com quem eu estava lidando parecia me conhecer muito bem.

Entrando no interior da base, vasculhei o pátio e o saguão principal e então entendi o porque do sumisso da pessoa: ela estava vivendo ali. Talvez fosse algum militar ou mesmo vários, que haviam sobrevivido à devastação da gripe. Tomando mais cuidado, fui adentrando as dependências superiores da base. Um ruído metálico me separou de meus pensamentos, e vários minutos mais tarde e com uma terrível dor de cabeça, eu acordei deitado em uma maca com uma insuportável luz incidindo diretamente em meu rosto. Eu sabia que havia alguém ali do meu lado, pois apesar de não poder ver sua silhueta, eu sentia sua presença. A pessoa falou comigo e me perguntou o que eu queria ali naquela base. Como não havia mais nada que eu pudesse fazer, eu revelei logo meus planos, na esperança de que eles pudessem estar na mesma busca que eu estava. A minha sorte foi essa. A pessoa pareceu relaxar de algum dilema interno e me disse o que ela estava fazendo ali: ela havia encontrado a cura para a doença. No entanto ela precisava encontrar uma forma de enviá-la para o passado e evitar que a doença se espalhasse pelo planeta.

Cético como eu sou, rebati logo as idéias dele, dizendo que apesar da pesquisa desenvolvida ali, ele acreditava ser impossível a viagem no tempo, por uma série de questões, que ele não enumerou mas deixou bem claro que existiam: “Não era possível viagens no tempo”. Logo após essa declaração, a pessoa desligou aquele refletor que me cegava e ligou a luz natural da sala e pude perceber então que estávamos numa sala de operações. Quando me virei para ver quem era meu carcereiro, ele estava de costas e falou comigo ...

- Se fosse possível voltar no tempo, você voltaria e tentaria salvar a raça humana, mesmo que às custas de sua vida?

Eu respondi que sim, porque eu não conhecia sofrimento maior que aquele pelo qual eu estava passando. Estava tão acostumado com a vida em sociedade que viver sem ela era como não existir. Logo que falei o que eu pensava, ele se virou e minha surpresa só não foi maior porque no começo eu acreditei que se tratava de uma ilusão, ou de que eu realmente já estava beirando a loucura, enchergando pessoas que nem mesmo existiam.

Aquilo foi um baque pra mim, e me fez pensar muito … Muitas coisas que eu acreditava ser imutáveis, quase dogmas, cariam por terra com aquela presença bem ali. Era eu mesmo, vindo do futuro. Eu fiquei com medo no início, mas depois de passado o susto inicial, eu fui ter com ele e tentar entender o que estava acontecendo.

Ele me contou com detalhes sobre como havia me encontrado no passado, durante uma operação onde ele tentava parar uma tentativa de tornar a cidade um caos. Aquilo me confundia muito, pois eu compartilhava as lembranças dele e nunca havia associado aqueles eventos e aquele rosto com os eventos de hoje. Agora as coisas daquela época começavam a fazer sentido.

Ele me contou que havia viajado para o passado para tentar frear o avanço da doença mas pelo jeito não tinha tido sucesso na empreitada. Ele então me contou que nas suas pesquisas, descobriu que a realidade não era única. Não existia somente um único universo. Vários físicos da época já haviam percebido isso, e denominavam o mesmo como multiverso, ou universo de universos. E as viagens no tempo nada mais eram do que a passagem de um desses mundos para outro. No entanto, não era possível controlar a forma como essas viagens eram feitas, ou seja, se fôssemos, não tinhamos como ter certeza de que chegaríamos, e se tentássemos voltar, não voltaríamos para o ponto de partida.

Esse era o grande ponto controverso. E era a esperança dele. Ele acreditava que era possível ao menos salvar a realidade onde ele vivia. Ele havia tentado por várias vezes a viagem no tempo e em nenhuma delas havia tido sucesso. Foi então que ele disse que havia parado nessa realidade e tentaria descobrir a cura para a doença, para depois fazer o que, segundo ele disse, seria sua última viagem. No entanto, ele disse que muito provavelmente não viajaria. Eu fiquei intrigado e perguntei para ele, mas ele não respondeu minhas frequentes perguntas.

Em vez de investir em perguntas que não levariam à lugar nenhum, nós dois juntamos esforços para concluir tudo o que era necessário para fazer a próxima viagem, já que, segundo meu eu alternativo, nesse mundo as coisas estavam piores que nos outros. Nesse as pesquisas estavam bastante atrasadas e muitas das tecnologias da viagem ainda não estavam criadas. Os dois começaram a pesquisar e estudar tudo o que havia sido produzido até o momento.

Da mesma forma que eu, ele possuía um PDA com bastante informação útil, talvez coletado durante suas inúmeras viagens temporais. A informação era tanta, e tão vasta, que qualquer conhecimento que precisássemos poderia ser encontrado ali.

Em pouco mais de dois anos, nós dois conseguimos criar um protótipo de máquina do tempo que poderia funcionar. Ao contrário das máquinas nas quais meu eu alternativo viajou, essa usava conceitos até simplórios para permitir uma viagem segura. A tegnologia que criava os escudos foi utilizada para fazer a separação do espaço que seria enviado à outra realidade. Era só acrescentar mais energia e chegaria um ponto que a força de repulsão seria tão forte que criaria um ponto de tangência no espaço, onde nenhuma matéria poderia existir. Uma singularidade. Ela era criada em volta do veículo que faria a viagem.

Quando estávamos próximos de fazer o primeiro teste com a máquina, o meu eu começou a apresentar sintomas de uma forte gripe, ou assim parecia, e isso acabou nos atrasando um pouco. Ele não me contava nada do que estava acontecendo e estava só preocupado em me enviar para o passado com a cura. Intrigado como eu sempre fiquei, passei a vasculhar nos registros do laboratório de pesquisas biológicas e entendi finalmente o porque de ele estar escondendo de mim essas informações.

Ele havia testado incessantemente várias cepas da doença em animais de teste, tentando descobrir o porque de aquela gripe não o afetar. Como nada estava dando certo, ele passou a fazer seus testes em si mesmo, e depois de um longo tempo, ele havia conseguido descobrir os fatores que levavam a doença a ser tão letal.

Nesse dia, ele veio à cidade em busca de material para fazer a coleta e estocagem do que seria a nova vacina para a doença, e foi nesse dia que nós nos vimos pela primeira vez. Ou segunda vez, se contar que nós nos encontramos há muitos anos atrás, nos idos de 2009.

Eu não contei a ele que havia feito a descoberta, ele deveria ter seus motivos para não me contar. Em vez disso, tomei grande parte da sua tarefa de terminar a máquina do tempo e logo mais, no dia 18 de dezembro de 2015, a máquina estava terminada.

Ele alegou que seria necessário que um dos dois ficasse para enviar o outro para a próxima realidade, já que era necessário operar os equipamentos daqui. Não era como antes, onde um sistema automatizado fazia todo o trabalho. Essa era sua desculpa. Além do mais, ele estava doente e dizia que essa viagem seria seu fim.

No dia 20 de dezembro, havíamos terminado todos os preparativos para a viagem de volta ao passado, e nos despedimos. Acho que foi um dos poucos momentos em que nós dois choramos. Quer dizer, que eu chorei, em dois momentos distintos. Eu sabia o porque dele estar ficando, e que nunca poderia vislumbrar o futuro para o qual ele lutou tanto. Da mesma forma, ele chorava por saber que aquele futuro não seria para ele, e que toda a sua luta foi para que aquilo não acontecesse, mas infelizmente acabou acontecendo.

É difícil se imaginar numa situação dessas, onde você encara você mesmo à beira da morte, sem saber se no futuro será a mesma coisa, ou se na verdade o futuro que eu viverei é na verdade o mesmo futuro que ele viveu. Isso nunca poderemos saber de verdade.

Sem mais demoras, ele ligou a máquina que criava o campo de repulsão e logo que mais energia ia sendo alimentada no equipamento, a realidade na qual eu vivi por todos os meus anos ia se diluindo em padrões brilhantes e metálicos. Minha última visão do meu mundo foi um adeus dado por meu eu alternativo.

Nesse momento, a despeito do que diziam as teorias sobre a viagem no tempo, eu podia sentir dentro de mim um desligamento da matéria á minha volta, como se tudo estivesse se desintegrando e tornando-se padrões luminosos. Acredito que do outro lado ele via a mesma coisa, aquela bola brilhante devido à separação do espaço, ir diminuindo e sumindo, como uma estrela que implode sobre si mesma e torna-se uma singularidade, um buraco negro. Era dessa forma que acontecia. Depois, a bola voltava novamente a crescer e no lugar onde antes estava o viajante e seu equipamento, encontrava-se o correspondente dele do lugar para onde ele havia sido enviado.

Nesse momento, a profusão de cores foi diminuindo e a realidade foi tomando forma novamente. Eu estava voltando à realidade, mas qual seria essa realidade? Eu vi que estava em outro lugar, não mais no centro de física da base militar da serra do carmo, mas próximo. Como havia trazido o geo-localizador, esperei o campo se desfazer e então finalmente o mesmo deu um local preciso: 805 Sul...