terça-feira, 28 de abril de 2009

O homem de hoje é multitarefa ??

Lembra quando apenas dirigir e falar ao celular era considerado perigoso? Essa foi a pré-história do homem-multitarefa. Está provado, por a+b, que pegar na direção de um carro e ficar batendo papo por celular é uma combinação indigesta, podendo ser fatal. Todas as estatísticas mostram a relação entre a direção, o celular e os acidentes de trânsito. Todas, há pelo menos dez anos. O que dirá então de dirigir, mudar a playlist do iPod, ler o RSS no celular, abrir o vidro para pegar a última edição do Metro, tomar uns goles de Coca-Cola, dar uma nova olhada na agenda, tudo ao mesmo tempo? E há quem fume, converse com o cachorro, passe batom, levante o dedo do meio para o motorista folgado da pista ao lado... Quem não for multitarefa hoje em dia está perdido.



Pera aí... Multitarefa? Computadores foram feitos para processamento paralelo — foram moldados por nós para fazerem múltiplas coisas ao mesmo tempo. O nosso cérebro, dizem os cientistas desde os tempos de William James, tem vocação para focar em uma coisa de cada vez. A ideia predominante, até hoje, é que não fazemos nada simultaneamente. Prestamos atenção primeiro numa coisa, em seguida em outra. Nos esquemas multitarefa, alternamos alucinadamente entre diferentes ações. É quase consenso que, assim, rendemos menos, embora tenhamos a ilusão de estarmos produzindo mais.

Será? Um professor de Psicologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, Russel Poldrack, chegou a afirmar que até o que aprendemos com a atenção dividida é diferente do que aprendemos com o foco total em algo. Escaneando o cérebro, ele diz ter notado que, numa situação multitarefa, a área do cérebro mobilizada quando se aprende algo é a do estriato. Sem qualquer distração, a área requisitada é outra: o hipocampo. E daí? Daí que a informação armazenada no hipocampo pode ser requisitada com muito mais facilidade.

Como para cada pesquisa acadêmica sempre existe outra dizendo exatamente o contrário, David Meyer, da Universidade de Michigan, já defende a possibilidade de o cérebro se adaptar a situações multitarefa, alternando entre uma ação e outra de forma cada vez mais produtiva. Claro que, em meio à tensão de tantas solicitações, a carga de adrenalina aumenta, o stress também, e a memória de curto prazo sofre mais...

Divergências da neurociência à parte, o fato é que, para o bem ou para o mal, todos nos tornamos multitarefa para sobreviver num dia em que 36 horas têm de caber em 24. No escritório, quem pode se dar ao luxo de escutar conversa mole no telefone sem checar simultaneamente o MSN, encaminhar um e-mail mais urgente, comparecer no Twitter ou desbastar a pilha da correspondência em papel que insiste em chegar só para aumentar o lixo da reciclagem? E quem pode se enfiar em reuniões intermináveis sem levar o notebook? Não é quase obrigatório carregar o note e balançar a cabeça mecanicamente, em sinal de concordância, enquanto se manda ver no teclado, nas tarefas urgentes que não podem esperar mais que alguns segundos? Talvez, se fosse vivo, Darwin apostasse no homem-multitarefa...

Fonte: Infoexame