segunda-feira, 20 de abril de 2009

Hermes Trismegistus e a Tradição Hermética

De todas as tradições espirituais conhecidas no Ocidente, a de Hermes, o Três Vezes Grande, pode vangloriar-se de ser a mais antiga. Exposta a alterações no decurso do tempo, a Tradição Hermética está arraigada no passado egípcio mais remoto. Ali cai a máscara de Hermes para revelar Thoth, o da cabeça de Íbis, o primeiro doador do conhecimento à humanidade. Este conhecimento ainda perdura entre nós, conservado ao longo dos séculos por uma comunidade invisível de adeptos conhecidos ou desconhecidos.

Um doador de conhecimento difere muito de um deus salvador sofredor como Osíris ou de uma deusa mãe amante como Ísis. Cada aspecto da divindade apela a um tipo psico-espiritual diferente e cada um deles pode conduzir por diversas sendas a um único objetivo. O caminho que leva ao conhecimento possui um propósito duplo. Primeiro, ensinar técnicas e práticas para superar as limitações humanas, como o trauma da morte e, segundo, estudar a ordem cósmica e e trabalhar dentro dela. Quando esses dois objetivos coincidem, temos uma forma de hermetismo.


O mundo clássico temporalmente sentiu a atração pelo Egito e seus mistérios, ainda que fosse um Egito de glórias passadas. Pitágoras se encontrou entre os que visitaram a "Terra de Chem" para adquirir suas iniciações e incorporá-las à sua própria filosofia. No nível religioso, os cultos egípcios se introduziram no mundo clássico com as conquistas de Alexandre, O Grande. O mesmo Alexandre se representava portando os chifres de carneiro de Amon, deus de Tebas. A Roma foi Ísis, cujo culto chegou a ser um dos mais esplêndidos sob os Imperadores. Em Alexandria e outros centros de língua grega, surgiu Serapis como um amistoso rival de Zeus, porém foi Thoth quem conseguiu mais com a mente filosófica.

No mito egípcio, Thoth é descrito várias vezes como o espírito e inteligência do Criador; deus do saber e da cura, juiz das disputas celestiais e secretário dos deuses; o que pesa as almas dos mortos. Foi ele quem proferiu as palavras que teriam dividido os membros de Osiris. Thoth inventou números e mediu o tempo. Em sua abstração máxima, Thoth foi um deus de transições, do caos ao cosmos, das disputas ao entendimento, da morte ao renascer, das causas aos efeitos. Mais concretamente, era considerado um deus dos encantamentos e da astrologia, da medicina popular e mestre-instrutor em plantas e minerais.

Tudo isto vinha com Thoth ainda que tenha tomado uma aparência grega. O deus grego Hermes também havia sido um deus de transições: um assinalador de fronteiras, um guia de almas ao Hades, mensageiro entre o Olimpo e a Terra, patrão de mercadores e ladrões. Quando se deu esse nome a Thoth, com o epíteto Trimesgisto ("Três Vezes Grande"), este assumiu a aparência de filósofo-rei, recriando para a época helênica a memória daqueles homens divinos ou deuses encarnados que haviam educado à raça humana. Há ressonâncias deles em toda as terras, como Zoroastro, Fo-hi, Tubalcaín, Quetzalcoátl, Dionísio, Orfeu, etc.

Os escritos gregos atribuídos a Hermes Trimegisto não constituem um cânon mais unificado que o das escrituras judaicas ou cristãs. São uma série de escritos doutrinais, inspirados em vários autores com variações em torno de alguns grandes temas como: a bondade absoluta de Deus, que é de uma só vez Uno e Todo; a auto-revelação da Mente Divina no Cosmos; o Universo como uma emanação de seres dentro de uma ordem hierárquica; a constituição única do ser humano como microcosmo; o caminho até a regeneração e conhecimento direto de Deus. O Corpus Hermeticum expunha novamente esses temas em benefício dos cosmopolitas de língua grega que viviam sob o Império Romano.

Ainda que Thoth tivesse seu aspecto popular, o Corpus Hermeticum possui seu aspecto apócrifo em que Hermes converte-se em senhor das ciências ocultas, o revelador da medicina astrológica e da magia simpática por meio da qual se atraem as influências do céu e se fixam os talismãs. Há um exemplo em Asclepius, quando descreve como os egípcios fundiam deuses em estátuas. Por último, mas não menos importante, a filosofia natural de Hermes e seu conhecimento do oculto se uniram para fazer dele o pai da alquimia , a arte egípcia da transmutação.

A imagem mítica central do hermetismo parece ser o primeiro tratado do Corpus Hermeticum, "Poimandrés, o Pastor dos Homens". É a descrição da ascensão da alma depois da morte e da rendição de suas energias às sucessivas esferas dos sete planetas. Quando esta renuncia a todas elas, pode então atravessar a Oitava Esfera (As Estrelas Fixas) e unir-se à companhia dos Benditos. Esta é uma versão cósmica da ordália descrita no Livro dos Mortos dos egípcios (ou a "Saída à Luz do Dia"), onde uma alma deve atravessar os diversos corredores do Outro Mundo e ser pesada contra uma pluma em uma balança antes de poder ingressar no Paraíso de Osiris.

O aspecto filosófico do Hermetismo baseia-se na doutrina das correspondências. Na ascensão hermética, cada planeta corresponde a um determinado poder: Mercúrio à inteligência, Vênus ao desejo, Marte à ira, etc. Assim, o ser humano é um microcosmo que contém, em pequena escala, as mesmas energias que o macrocosmo. Se imaginarmos a Terra como o centro do Universo, a alma adquiriu essas energias em sua viajem descendente, (ou interior) desde as regiões celestiais através das esferas planetárias e surge à vida terrena no ventre materno, plena de potencialidades e tendências que são delineadas em seu horóscopo natal. Durante a vida, a alma trabalha com essas potencialidades com a esperança de refiná-las para que emerjam como virtudes. Se logra seu intento, ao abandonar o corpo na morte, é luz e, desembaraçada, está pronta para ascender a seu lugar de origem. Se, pelo contrário, as energias se condensaram em vícios, então a viajem ascendente se tornará difícil e alma poderia permanecer presa na atmosfera da Terra, um tormento para ela mesma e uma retardatária para suas companheiras.

Esta é a Doutrina Hermética, como se entende geralmente. Sem embargo, segundo as escolas modernas da alquimia que liquidaram com a estrita confidencialidade do passado, não resta nada da maioria das almas das pessoas que tenham sido filtradas pelas esferas planetárias, pouco depois da morte. A maioria delas seria extinta como personalidade, pouco depois da morte e talvez sejam recicladas como pessoas totalmente diferentes. Para colocar a questão de forma sensível, não existe garantia alguma acerca da imortalidade pessoal, apesar do que possam dizer em contrário as doutrinas consoladoras.

A ambição do adepto é sobreviver a esta dissolução geral e, se voltar a encarnar, fazê-lo apenas por uma eleição deliberada e não por uma amarração a um processo natural, como o resto das pessoas. Para atravessar além dos limites dos cosmos (simbolizado pela esfera estelar) e entrar conscientemente em outra forma de vida, o adepto deve ter forjado durante sua vida um "corpo radiante" como veículo de sua individualidade. Se diz que este processo é puramente científico e nada tem a ver com a religião. As técnicas requeridas são ensinadas em escolas muito restritas e de várias formas apropriadas para as diferentes culturas do Ocidente e do Oriente, Norte e Sul.

Conhecer esta corrente hiper-esotérica facilita a compreensão da alquimia. Na alquimia operativa ou física, o corpo radiante é forjado em paralelo com eventos químicos e sua consecução marca o surgimento da Pedra Filosofal. Há evidentemente objetivos intermediários que se consideram dignos de serem alcançados: o assunto é extremamente complexo. Alternativamente, a alquimia pode ser totalmente interna, consistindo em meditações, exercícios de respiração, magia sexual, etc.

Porém seria um grave erro supor que apenas a vida do adepto vale a pena, já que unicamente ele logra a imortalidade pessoal. Em um sentido, o objetivo do adepto é contra a Natureza e, como toda ciência é amoral, poderia preservar personalidades que, deste nosso ponto de vista, seriam más (A versão esotérica do "mito de supervivência hitleriana" é um caso)

O Hermetismo não se limita isto. Contrariamente às filosofias que rechaçam o mundo, este aceita e abraça jubilosamente todo o processo de encarnação e excarnação. Pelo fato do mundo físico estar imerso em influências celestiais, é um lugar de beleza e maravilha. A Natureza é um livro onde se pode ler a sabedoria da mente Divina. Recordemos que a Thoth se relacionava todo o conhecimento útil: as artes e ciências que melhoram a qualidade de vida, como a música, as matemáticas e a escrita. Obviamente, a alquimia mesmo se iniciou com a tecnologia dos metais. Quando a mera existência animal se eleva devido às artes e ciências e as pessoas se movem conscientes da mente Divina através das obras da Natureza é que as dádivas de Thoth estão gerando frutos.

Depois do Império Romano, o Hermetismo, ou as doutrinas do Corpus Hermeticum expandiram-se em direção ao Hermetismo, termo mais amplo que abrange muito da tradição esotérica do Ocidente. As três religiões abraâmicas encontraram um espaço para ele, ainda que mesquinhamente. Entrtou no Islã graças aos saberes de Harran (na Turquia, próximo à fronteira com a Síria), centro da antiga indústria de cobre e de uma seita que mesclou a adoração da estrelas com o neopitagorismo, neoplatonismo e a alquimia prática. Seus patronos, Hermes e Agathodaimon, transformaram-se nos profetas muçulmanos Idris(=Enoque) e Seth. Por mais de um século, Harran também foi a sede de uma escola de tradutores que se especializou na matemática e astronomia grega, transmitindo assim muito da tradição pitagórica ao mundo muçulmano. No Séc. X, a Irmandade da Pureza de Basra (Iraque), compilou uma enciclopédia dee todas as artes e ciências, incluindo a teurgia e a magia, a qual foi estudada pelos drusos, pela seita dos asesinos e pela maioria das escolas sufis. Atualmente, todavia, se lê. Desta forma o Hermetismo passou ao verdadeiro coração do esoterismo islâmico.

No judaísmo, a influência hermética surgiu na Cabala. O breve e fundamental texto cabalístico Sepher Yetsirah (o "Livro da Formacão", Séc. III d. C.(?) ) expõe uma cosmologia baseada na doutrina das correspondências, especialmente a dos planetas setenários, dias da semana, aberturas da cabeça, etc, e do dodecanato do zodíaco, as direções do espaço, dos meses, órgãos do corpo, etc. Descreve um cosmos não separado entre o bem e o mal, mas suspenso na polaridade por energias positivas e negativas. O método de salvação se dá por meio da tomada de consciência do Uno como microcosmos, sentando o "Rei em seu Trono" (a Presença Divina ) no centro da vida. De novo, temos uma doutrina que afirma a Natureza e Corpo e está dedicada à realização do macrocosmo no microcosmo. A idéia esotérica de Israel é também uma idéia hermética: a de que os judeus estão chamados a dar testemunho da ordem divina na Terra. Em igual ao Hermetismo, a Terra, incluindo o corpo humano, está plena de influências celestes, motivo pelo qual a forma de vida judia está projetada para assegurar que toda ação congregue um significado espiritual.

Em Bizâncio, o Corpus Hermeticum foi preservado pela escola de Pselos sob a bandeira do neoplatonismo e assim passou à Itália ganhando um novo ímpeto. A tradução latina de Marsilio Ficino foi apresentada a Cosme de Medici en 1463 e no século e meio seguinte marcou o mundo intelectual. A idéia de que Deus havia falado não apenas aos judeus mas também aos pagãos conduziu, em círculos seletos, à renovação de um sentido religioso universal, como o que existiu pela última vez sob o Império Romano. O Hermetismo serviu como campo neutro tanto a protestantes quanto a católicos. O Hermetismo, ou a busca da alquimia e das outras ciências ocultas, às quais ele provê o suporte intelectual, floresceu como nunca o fez antes.

Por ser essencialmente um ensino cosmológico e prático, em lugar de uma teologia, o Hermetismo pode coexistir com quaisquer das religiões abraâmicas. Seu antecedente histórico, contrário ao das anteriores, está livre de intolerância e derramamento de sangue. A forma de vida hermética, que é ciência, contemplação e autorrefinamento não entra em conflito com a fé ou as práticas religiosas. Por estas razões, o terreno hermético é um lugar de confluência ideal para os cristãos, judeus, muçulmanos e para aqueles de outras religiões ou de nenhuma. Oferece uma análise da condição humana dentro do cosmos e uma variedade de métodos para fazer o melhor uso desta condição.

A Maçonaria tem sido a criação mais duradoura da Tradição Hermética no Ocidente, levando-a através da era do ceticismo e do cientificismo (positivismo de Comte). O simbolismo maçônico é totalmente hermético, ainda que não seja totalmente egípcio. A imagem do Grande Arquiteto do Universo formando aos homens como pedras em estado bruto a serem lapidadas até serem blocos perfeitos do Templo Cósmico remonta-se ao Demiurgos de Platão (não confundí-lo com o enganoso Demiurgo do Gnosticismo). As etapas de iniciação estão, como os passos da ascensão hermética, plenas de simbolismo planetário. A regra que evita toda discussão religiosa na Loja elimina um dos principais obstáculos para a irmanação dos homens: a discórdia sectária.

Na atualidade, a religiões abraâmicas ocupam-se de temas verdadeiramente não-herméticos, em que pese a Maçonaria, geralmente, não ser mais do que uma ordem fraternal. De certa forma, isto tem sido vantajoso para a Tradição Hermética que agora não tem mais porque ficar atrelada a outras instituições. De fato, erigiu a sua própria igreja, desenvolvendo seu lado mais esotérico, como o movimento new age. Um repasse na história confirma o diagnóstico. Da mesma forma que o Hermetismo do Renascimento esperava restaurar a paz ao mundo cristão e a sensatez á humanidade em guerra, o movimento new age é ecumênico, mas não dogmático ou pacifista. Como os alquimistas, que acreditavam que toda matéria está em vias de se transformar em ouro, os new agers dedicam-se à transformação pessoal em à realização do potencial latente de cada um. As ciências ocultas florescem permitindo suas formas mais superficiais nos sistemas ded adivinhação (Tarot, Runas, I Ching), a Astrologia, a Ciência das Plantas (a medicina das ervas) e Pedras (Cristais)l. Assim como Paracelso percorreu a Europa conversando com lenhadores e mulheres sábias, os new agers buscam e valorizam a sabedoria dos indígenas. E a festa que está programada para a Noite de Ano Novo de 1999, na Pirâmide de Giza, será uma forma simbólica de dizer que a Tradição Hermética voltou para casa.

Como toda manifestação esotérica, o new age possui seus aspectos infelizes. Porém em seu pior aspecto, é mais confuso do que mau e para um observador extraterrestre pareceria a mais humana e ecológica de nossas religiões. Ademais, oferece saídas que não estão seladas por dogmas ou autoridade religiosa, por meio das quais uns pouco auto-escolhidos poderiam passar a aprender uma sabedoria mais profunda.

Fonte: Origens do Conhecimento de Nostradamus