quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O Armário: como e quando sair dele

"Mas, onde foi que eu errei?"

Essa é a pergunta que muitos pais fazem quando descobrem que o filho é homossexual. Há famílias que ainda se escandalizam e demonstram ansiedade diante da possibilidade de seu filho “homem” um dia revelar a homossexualidade. A minha mesmo, quando souber (se algum dia eu realmente contar pra eles, o que não acredito ser plausível possível) terá uma reação próxima disso.

A metáfora do armário já é mais do que conhecida no meio GLBT, mas seus significados, a meu ver, podem ser os mais diversos. Em geral, significa se assumir como homossexual, mas isso muitas vezes é por demais complexo. O que é se assumir? Como se assumir? Que comportamentos podem servir como medida para que se possa afirmar que um gay é assumido.

Já pensei muito sobre o assunto. Minha própria experiência e contatos com outras pessoas me mostram que a questão não é simples. O primeiro passo, geralmente, é o de contar para os pais e familiares mais próximos. O que é, desde o começo, um investimento muito grande devido ao medo de ser rejeitado, de ser expulso de casa, de ser renegado à condição de “ovelha negra” na família. Para muitos, assumir tais “riscos” é insuportável, devido aos vínculos de dependência emocional e financeiro em relação aos pais.


Para um adolescente gay, por exemplo, assumir-se para a família – a depender do tipo de formação moral, valores e postura adotada por ela – pode ser por demais difícil, pois implica muitas vezes em sofrer o preconceito dos pais e irmãos, sendo vítima de violência moral ou física, podendo até mesmo ser expulso de casa e passar por maus bocados. Situações como essas não são raras, sendo, infelizmente, mas comum do que imaginamos e um dos principais medos do jovem gay, afinal não podemos deixar de considerar que a família se constitui no primeiro e principal contexto de socialização do indivíduo, onde introjetamos nossos valores e adquirimos os nossos primeiros papéis sociais e repertórios identitários.

Se opor à família pode significar, muitas vezes, separar-se de uma parte de si mesmo, enlutar-se, morrer e renascer das cinzas. O que para alguns pode ser uma vitória, uma carta de alforria, assumir o rumo de suas próprias vidas, para outros pode causar uma dor muito grande, insuportável, que leva a depressão e a atos de auto-destruição, como o suicídio. Negar-se a si mesmo, no entanto, pode ter os mesmo efeitos negativos sobre si.

Na escola, também, desde cedo os jovens gays são submetidos a modelos de gênero. Meninos e meninas são separados e cada um aprende a assumir certos papéis sexuais. O que é ensinado em casa, na escola é sedimentado. Na aula de educação física, meninas jogam vôlei e baleado e meninos jogam futebol. Principalmente na adolescência, há a pressão de assumir certos comportamentos sexuais. As paqueras começam a rolar, o desejo, o interesse pelo amiguinho ou amiguinha. Na adolescência se experimenta. Mas “assumir” o próprio desejo, ainda tão incerto, indefinido, é difícil, pois o tempo inteiro os colegas soltam piadas, há a fofoca do banheiro e do corredor: “Fulano pegou cicrana”, “Mariazinha tá de olho em Joãozinho”, “Acho que Pedrinho é gay, pois não joga futebol!”, “Joaninha é sapa, tava de pegação no banheiro!”.

Nesse primeiro momento enfoco a família e a escola, pois são nossas matrizes e os primeiros contextos de socialização. As experiências que travamos nesses contextos deixam marcas permanentes em nossa história de vida, marcas essas que podem causar impactos enormes no amadurecimento emocional, nas estratégias futuras de enfrentamento em outros contextos interacionais.

Já conheci gays que aos 30 anos ainda não tinham contado para os pais que são gays. Outros, tiveram a coragem de contar para os pais na adolescência e foram expulsos de casa ainda cursando o segundo grau, tendo de abandonar ou postergar os sonhos de fazer medicina. Outro, na mesma situação, saiu de casa e entrou para a prostituição como alternativa que lhe permitiu o sustento e a vivência da sexualidade. Tive amigos que, mesmo com o canudo universitário, sofrem preconceito em congressos e temem pelo preconceito dos clientes e de colegas. Alguns são militantes e lutam pelo direito de casar, ter filhos, partilhar bens com o companheiro. Para alguns, o medo de se assumir implica na impossibilidade de viver uma vida a dois, na descrença na possibilidade de um relacionamento duradouro, com amor e respeito, mesmo mantendo ainda o sonho de um dia encontrar o par ideal partilhar a vida e a velhice.

Quando escrevo isso, penso em mim mesmo, em meus caminhos escolhidos até agora, nos medos que alimento, nos passos corajosos que dei, mesmo temeroso, na cautela de me assumir para alguns amigos e me esconder para outros, de manter minha aparente heterossexualidade, mesmo vivendo ou amando outro homem. Escrever esse artigo, em si, já é um passo a mais para fora do armário. Assinar essas palavras com meu nome é me assumir gay, ao mesmo tempo em que digo que sou homem, sou pessoa, amo, sinto, desejo, trabalho, sonho e vivo. E estar com outros “iguais”, tão diferentes de mim, tão únicos, é ver que somos humanos, independente de qualquer rótulo.

O armário, como a casca de um ovo, pode nos proteger e nos assegurar a preservação de nossa própria essência humana. Às vezes precisamos nos esconder dentro dele, ficar quietinho, pensando, dormindo, sonhando. Outras vezes precisamos fazer uma faxina, jogar tudo em cima da cama, pegar as coisas velhas e sem utilidade e jogar fora. Sair e ver de fora o que somos, quem somos e como somos, com a consciência de que não somos sozinhos no mundo, e que outra pessoa também pode vir, abrir a porta do armário e adentrar nossa intimidade. Não nos tranquemos em nossos armários com cadeados. Mantenhamos eles, pois somos nós mesmos, com as portas sempre entreabertas!

Para aquelas pessoas que realmente me conhecem e que se importam comigo, não é novidade isso que contei. O motivo de ter postado justamente hoje, no meu aniversário é meramente simbólico, mas para mim têm uma importância mais cármica, por assim dizer. Sei que algumas pessoas próximas a mim não entendem (e provavelmente nunca entenderão) a extensão disso tudo, vivendo somente no mundo que lhes é conhecido. Fico somente na esperança de que um dia consigam entender o que significa tudo isso.

Entenda mais sobre o que estou falando:
- Sair do armário - Ritos de iniciação e de passagem

Fonte: Núcleo Universalidade e Diversidade Sexual