sábado, 20 de setembro de 2008

Não somos tão gentis assim

Outro dia destes quase fui posto à fogueira. E nem precisei ser herege, fui simplesmente eu e expressei o que acho sobre a “bondade” das pessoas. Afirmei: “As pessoas não são boas, nem gentis, são convenientes.” E então quiseram me crucificar. Pois bem, deixe-me explicar antes que você se revolte também.


Você acha que está sendo gentil, bondoso, quando cede seu acento pra grávida no ônibus ou talvez o seu ombro para o ceguinho atravessar a rua? Não, você está sendo conveniente. E sabe por quê? Porque você é o maior interessado nessa estória toda. Precisa estar em paz com a sua consciência, precisa ter a consciência de que é uma pessoa “boa”. Consciência essa que o sistema formatou em seu cérebro. Nascemos puros, simples e ignorantes, afirmou alguém um dia, e isso é fato. Você faz atos de bondade não porque é essencialmente bom, faz isso ou aquilo de bom porque pega bem perante as pessoas do seu convívio e responde ao comando que escreveram na sua mente: você precisa ser bom. Alguns chamam isso de valores, a carga de instruções que recebeu ao longo desta vida, e para outros, de outras vidas.

Você se preocupa com o bem estar ou o futuro do planeta simplesmente por que é uma pessoa bondosa ou por que precisa deixar algo de bom para os seus descendentes? Não. Você deve estar preocupado com isso porque se ainda estiver vivo, vai sofrer com as conseqüências da poluição, ou talvez porque seu conveniente instinto de existência ordena que você deixe o planeta habitável para os que representarão você no futuro. Você dá presentes simplesmente por que gosta? Talvez faça isto só por que agrada seu ego, o ego de se parecer “bom” para a “querida” pessoa presenteada. Não somos tão bons assim, somos pessoas que na maior parte do tempo obedecemos a ordens que nos deram. A idéia de bondade tem seu valor, é importante para existirmos. Do contrario, seriamos completamente anarquistas e não nos suportaríamos. Devemos ser convenientes para manter a ordem.

Ih caramba! Depois de todo este discurso pesado, preciso ser bom, ou melhor, ser conveniente e ponderar o que eu disse pra não ser apedrejado como as sábias bruxas do passado.