sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Crônica - Vampiro e Lobisomem - Cap 15 - Segunda Temporada

Hoje estou altamente deprimido, mas estou vivo.

Aqui estamos, finalizando mais um arco de histórias da crônica Vampiro e Lobisomem. A batalha foi dura e parece que o sonho de Ísis se concretizou. O que será agora dos Garou? Recém encontraram o que poderia ser a chave da luta contra a Wyrm e agora ele se encontra estirado no chão, num campo de batalha onde não houve sobreviventes. Acompanhe o desfecho dessa história.

Crônica Vampiro e Lobisomem Completa

Em algum lugar do Passado ...

Ísis e Iago não tiveram dificuldades em encontrar o casarão. Os sons de disparos de mosquetes eram claros e evidentes, fazendo com que a população da cidade fugisse na direção oposta dos mesmos. Enquanto corriam na contramão da multidão, ouviam comentários que diziam: “Oh! Meu Deus! Monstros estão destruindo a cidade!”. Era certo que não havia coincidência nos eventos. Explosões e um incêndio fizeram com que a dupla se preocupasse com a situação, era certo que encontrariam muitos mortos para onde se dirigiam. Ísis temia pela vida de Ferguson e o caos se instalava na cidade, já que naquele tempo incêndios eram motivo de pânico para os moradores. No entanto, a cena ainda estava indefinida, enquanto a grande maioria corria de medo, outros procuravam baldes de água, para tentar apagar o fogo.

Os disparos cessaram quando eles já estavam próximos do casarão. Iago corria como um humano qualquer, juntamente com Ísis. Os moradores da cidade começaram a se organizar, numa busca por água e materiais que poderiam ser utilizados para controlar o terrível fogo no casarão. Chegando ao local, viram dezenas de corpos no chão. Todos estavam em forma humana, o que demonstrava que muitos lupinos também tombaram. Mosquetes, adagas de prata e de ritual encontravam-se espalhados no chão e entre os corpos. Iago controlou-se, estava triste por ver companheiros mortos, mas procurava por sobreviventes, ao mesmo tempo que preocupava-se com a possibilidade de ser pego de surpresa.


Ísis desesperou-se, não via Ferguson entre os mortos e pressentia que ele havia sido capturado como prisioneiro. Entre os corpos estava Sebastian, encolhido no chão, com a barriga para baixo e braços contorcidos no ventre, na exata posição que estava no momento que tombou. Ísis virou-o com os olhos cheios de lágrimas. Para seu espanto, Sebastian ainda estava vivo e disse:

- Desculpe-me. Falhei contigo. – dando um último suspiro, continuou. – Por favor. Entregue esta adaga à Evan. Era de David. Repasse-a para alguém digno. – ao dizer isso, não mais resistiu e desfaleceu em seus braços. Ísis reagiu:

- Iago! Ajude-me! Sebastian está vivo!

Iago veio em seu auxílio. Estava emocionado. Sebastian sempre fora uma pessoa de difícil convivência e personalidade forte, mas também era um pilar forte em momentos de crise, alguém que certamente morreria para salvar um companheiro. Este grande lupino desfalecia em sua frente e estava determinado em não deixá-lo partir. Dizendo algumas palavras, que mais pareciam convocar por ajuda divina, Iago tocou o estômago de Sebastian, local onde havia uma hemorragia maior. De repente, o ferimento se estancou, quase que por milagre. Sebastian gemeu, com dificuldades buscou ar pela última vez. Para seu próprio espanto, conseguiu respirar. Estava vivo, quando já acreditava estar indo ao encontro dos companheiros que havia perdido. Apesar da habilidade de Iago, Sebastian ainda estava debilitado. Ele teve força apenas de levantar o braço, agarrar o lupino e trazê-lo para próximo de sua boca, dizendo:

- O que seria dos lupinos sem os Filhos de Gaia?! Iago, devo-te minha vida! Agora, lupino, fique atento! Quando tombei, Ferguson e Walter ainda lutavam. Não sei quem foi o vencedor.

Iago misturava uma alegria extrema com a tensão do momento. Sebastian sempre fora um lupino de temperamento difícil, que levaria a irritação ao mais calmo e justo Presa de Prata. No entanto, também era conhecido como um lupino de força física e experiência de batalha incomparáveis. A alegria de ter salvo a vida de um bravo soldado de Gaia lhe tomou o coração. Ao mesmo tempo, temia pelo súbito surgimento de um lacaio, vindo das sombras. Ísis, ao ouvir Sebastian dizer sobre Ferguson, ignorou os companheiros e procurou por Walter e Ferguson entre os corpos. Chamas ardentes tomavam conta do casarão e pessoas surgiam para ver o que acontecia após o fim dos disparos. Uns por curiosidade, outros para tentar controlar o fogo. Entre os corpos, Ísis encontrou Walter com um mortífero ferimento no pescoço. O vampiro estava morto e não apresentava mais perigo algum.

Ísis mostrou a Iago que Walter fora derrotado, o que indicava a vitória e sobrevivência de Ferguson. Mas onde estava o rapaz? Entre os corpos ele não jazia. Iago, aproveitando de seus sentidos aguçados, procurou por Ferguson, já que Ísis não estava obtendo êxito. Uma trilha de sangue o levou para o interior da casa. A vampira o seguiu, temendo às chamas e levando o moribundo Sebastian consigo, apoiado em seu ombro.

As chamas já haviam tomado o local por completo, apenas o amor por Ferguson possibilitou que os três prosseguissem procurando no interior da casa. Distante da entrada encontraram dois corpos, um jovem desmaiado sobre um corpo feminino ressecado e frágil. Ambos aparentavam estar mortos, Ísis correu como uma bala em direção e eles. Seu temor foi confirmado, era Ferguson e Ema. Iago chegou com Sebastian, que logo disse:

- Ela já estava morta! Ferguson veio aqui ainda vivo! Salve-o como fez a mim, Iago!

O lupino concentrou-se, restava-lhe apenas tentar o mesmo que fizera em Sebastian. Disse as mesmas palavras ainda mais efusivamente, clamando pela ajuda de Gaia. No entanto, desta vez não obteve o mesmo êxito, Ferguson não reagiu. Abaixou a cabeça e tomou-o nos braços. Era tarde demais, ele estava morto. Ísis investiu contra Iago, dizendo:

- Faça algo seu inútil! Ele não pode estar morto! Faça algo!

- Desculpe, é tarde demais! Estou exausto!

- Não desista, Iago! Se pôde salvar-me também poderá fazer o mesmo com Ferguson! Levante-se, viagem pelo Mundo Espiritual e leve-o até o Caern! Lá ele poderá ser salvo!

Iago hesitou, mas logo levantou e correu levando Ferguson nos braços. Ísis pegou o corpo de Ema e retirou-se o mais rapidamente possível, já que Sebastian ainda não podia movimentar-se com rapidez. Ísis e Sebastian saíram do casarão que ameaçava desabar enquanto a população já reagia coesamente, tentando apagar as ameaçadoras chamas a todo custo. Com isso não perceberam a vampira e Sebastian fugindo do casarão, tampouco Iago, que saíra em disparada antes deles.

O Filho de Gaia estava em apuros, sabia que o Caern poderia salvar Ferguson, mas devia chegar rapidamente, para que o jovem pudesse ter chances. No entanto, não sabia de um local onde sua imagem pudesse ser refletida, o que era essencial para poder entrar no Mundo Espiritual.

Desesperou-se, não podia fracassar. A esperança de todos os lupinos do oeste europeu estava ali, sobre seus braços. O aparecimento de Ferguson era esperado e profetizado a centenas de anos e, de repente, sua vida dependia de um jovem Filho de Gaia. Iago tinha plena consciência da importância de seus atos e não estava disposto a desonrar sua tribo. Com Ferguson nos braços invadiu várias casas ao redor, na tentativa de encontrar um espelho. Alguns moradores reagiam com espanto, outros com medo mas a maioria com violência. No entanto, Iago estava apressado e ocupado demais para reagir, tampouco sentir os golpes. Encontrou um enorme espelho de metal em uma casa nas proximidades e desapareceu diante dos moradores, ao atravessá-lo. Sua preocupação com a vida de Ferguson não o permitiu ser mais discreto.

Em instantes estava no Caern. Apareceu de surpresa, com Ferguson nos braços e gritando por socorro, pegando os lupinos em uma desagradável surpresa. As reações foram as mais variadas. Alguns correram em busca de auxílio, clamando por membros da tribo “Filhos de Gaia”, outros, desesperançados, uivavam já sentindo a dor da perda. Um lupino, claramente vestido como um Filho de Gaia ancião, aproximou-se de Ferguson, tomou-o nos braços e disse:

- Ele está morto, mas sua alma ainda reside no corpo! Gaia está nos dando uma última chance! Rápido, encontrem Evan e o antigo caldeirão!

As reações foram mais ordenadas. Em segundos um enorme caldeirão de bronze foi trazido até o centro do Caern. À Iago o ancião disse:

- Este é um antigo caldeirão celta, utilizado por membros de uma tribo de lupinos esquecida. Seu valor é inestimável e quando usado corretamente, pode trazer de volta à vida aqueles que ainda não merecem morrer. O ritual não é ensinado ou comentado, pois pode ser usado apenas com este caldeirão. Ele esteve enterrado a centenas de anos, juntamente com a última linhagem da tribo que o confeccionou. Não posso fazer o ritual sozinho, preciso de Evan para realizá-lo! Encontrem-no! Não podemos perder esta última chance que Gaia nos está concedendo!

Os lupinos mobilizaram-se, rapidamente cada um deles correu em uma direção. Pareciam que estavam dispostos a vasculhar os sete cantos de ambos mundos, Mundo Espiritual e Terra. Iago estava exausto, contando ao ancião o que ocorrera.

- Nós o encontramos desacordado sobre o corpo de Ema. Ambos estavam mortos. Eu havia salvo Sebastian, o que me custou muita energia. Não pude salvar Ferguson.

- Pelo contrário, Iago! Você é o responsável por ainda mantê-lo vivo! Seu grito por Gaia foi tão forte que pude ouvir daqui! É possível que ela esteja pessoalmente interferindo para que possamos salvá-lo. E isso tudo graças a você! Vejo que você é um lupino valoroso, poucos já fizeram o seu feito.

Iago estava emocionado, não tinha noção de que seu feito havia sido tão grandioso. O ancião continuou:

- Mesmo que falhemos, você deverá ser honrado por seu esforço. Quero pessoalmente parabenizá-lo nos rituais de celebração. Acompanhe-me, pois irei precisar de sua inspiração. Mas acima de tudo, preciso de Evan! Irmãos, encontrem-no! A vida de Ferguson está por um fio!

Foi então que Evan surgiu, aparecendo a poucos metros do corpo de Ferguson, juntamente com um jovem lupino que estava feliz por tê-lo encontrado.

- Por Gaia, não sei ao certo se estamos prontos para usar o caldeirão, Hartt. – disse Evan ao ancião que acompanhava Iago.

- É nossa única chance. Gaia respondeu ao chamado de Iago, como a muito eu não via. Ferguson está morto, mas de alguma forma sei que ainda pode voltar.

- Pois que assim seja! Não temos tempo a perder com debates!

Levaram Ferguson e o caldeirão à beira do poço de água e começaram o ritual imediatamente. Iago, Hartt e Evan comandavam o bizarro ritual, enquanto os demais lupinos apenas observavam atônicos e apreensivos. O jovem Filho de Gaia, fazia o que pediam, e pouco entendia o que acontecia. Mesmo assim, sua presença parecia ser essencial, pois a todo momento era solicitado a dizer uma frase ou duas, que não compreendia. Pela expressão dos anciões, Iago presumiu que o ritual seria longo e complicado.

Ísis logo chegou com Sebastian, que estava ferido, mas ansioso por saber de notícias de Ferguson. Não ficou feliz por saber do ritual, de fato, Sebastian é daqueles lupinos que não acredita fortemente na eficiência de rituais de ressurreição. A chegada de Sebastian alegrou aos lupinos, que vieram parabenizá-lo e saber sobre a batalha.

A vampira também estava desconfiada com eficiência do ritual e lembrou-se do desconforto que passou, quando foi submetida a um ritual, centenas de anos atrás. A noite se arrastava e o ritual não dava sinais de que iria terminar. Outros rituais se iniciaram, eram preces solicitando a Gaia que o trio fosse bem sucedido em salvar Ferguson. A manhã não tardava e Ísis teve de deitar-se, sem saber se voltaria a ver Ferguson.

A noite renascia, Ísis acordou vagarosa. Teve um sonho estranho, aparentemente uma retrospectiva do que ocorrera nos últimos dias. Em seu sonho, tudo terminara bem, em uma festa muito alegre entre os lupinos. Acordou como que ainda ouvindo a música e vozes da animada festa. A esperança corria em suas veias no seu lento despertar. Estranhamente ainda ouvia o som da festa, como se ainda estivesse dormindo. Pôs-se de pé, ainda ouvindo a música, o que era estranho, já que já sentia-se mais desperta. De repente, entraram pela porta, Iago e Sebastian, visivelmente embriagados.

- Olá bela vampira! Levante nesta noite, pois a festa ainda está longe para acabar! – disse Sebastian.

- Que festa!? Como está Ferguson!?

- Ferguson está ótimo minha cara! Tudo graças a Gaia! – respondeu Iago.

- Gaia!? Não seja modesto, Iago! Graças à você também, caro amigo!

Ísis abraçou-os em alegria, beijou-os alegremente e foi em direção ao local onde havia ocorrido o ritual, procurando por Ferguson. Armado próximo ao caldeirão estava uma imensa fogueira, onde os lupinos festejavam em sua volta. Alguns tocavam instrumentos estranhos; outros, mais humanos. Rodeado e abraçado por vários ela viu Ferguson e correu até ele. Abraçaram-se e disseram promessas e agradecimentos. Um alívio tomou conta de Ísis e ela pôde sentir a humanidade voltar a seu coração, sentiu-se viva e jovem como quando tinha seus 19 anos. Ferguson estava enfeitado, mas não conseguia esconder a tristeza pela morte de Ema.

A vampira conversava com Ferguson, quando Evan e alguns outros anciões vieram falar com ela.

- Ísis. – disse Evan respeitosamente. - Antes de mais nada, gostaríamos de agradece-la por tudo que fez. A noite anterior justificou qualquer receio que tínhamos por tê-la trazido para o nosso meio. Graças a sua bondade, Ferguson sobreviveu e pôde chegar até os seus. No entanto, creio que nossa ilha não é mais um local seguro para você. Os seus parentes e nossos inimigos já sabem que está em Oxford e mesmo com Ferguson não podemos garantir sua segurança. Ele ainda está jovem e perdemos importantes membros nas últimas batalhas.

- Compreendo. Creio que realmente sou um risco aqueles que amo.

- Ficamos felizes em saber que concorda com nosso ponto de vista. No entanto, não iremos deixá-la à mercê de sua sorte. Creio que há um local onde você pode ir e que será muito mais seguro.

- Seus feitos e identidade já foram informados aos principais Caerns de todo o mundo. Você será sempre bem vinda, em qualquer mata ou cidade que se embrenhar. – disse Hartt.

- Agradeço pela ajuda amigos. Creio que desta vez não farei o mesmo erro. Não irei me ausentar por séculos. Saibam que estarei sempre em contato com vocês. Agora, digam-me, qual é o local que vocês sugerem que deva ser meu próximo refúgio?

- O Novo Mundo é a opção. A América Latina o local mais aconselhável. Lá os homens ainda não se instalaram plenamente e por isso os lacaios da Wyrm ainda não são tão fortes, principalmente os seus parentes vampiros. O que pensa deste local?

- Se vocês aconselham-me isso, então assim será. Terei dificuldades com a língua, mas me adaptarei. Quando devo partir?

- Está tudo arrumado. Nossos parentes irão levá-la de barco para o país que desejar na próxima noite. Sua ida deve ser urgente, já que sua presença é um risco para nosso Caern. Espero que compreenda.

- Não me agrada esta pressa, mas entendo seu ponto de vista. Apenas preciso que venda meus pertences, para que assim eu possa me instalar melhor no novo país.

- Isso não será problema. – disse Evan, chamando por dois jovens lupinos. Eles ficarão responsáveis por fazer a venda dos bens, levando consigo uma autorização assinada por você. Evan continuou:

- Esta é sua última noite entre nós. Esta também será sua festa! Que suas vontades sejam saciadas assim como as de Ferguson! Pois para nós, você é uma lupina agora!

A festa seguiu noite a dentro. Ísis foi presenteada e honrada por toda a festa e ficou sempre ao lado de Ferguson conversando e despedindo-se dele. O jovem lupino, Sebastian e Iago, prometeram visitá-la sempre que possível. No entanto, ela ainda não havia decidido sobre que colônia se instalar, preferiu deixar esta decisão para o dia seguinte. Um longo mar novamente a aguardava.

FIM!