domingo, 6 de abril de 2008

Lendas Celtas Irlandesas

O Conto abaixo trata da Batalha de Mag Tuired e o Nascimento de Bres filho de Elatha e seu Reinado.

Os Tuatha De Danann viviam nas ilhas ao norte do mundo, estudando a sabedoria oculta e a feitiçaria, as artes druídicas e a magia e a habilidade mágica, até que eles sobrepujaram todos os sábios das artes do paganismo.

Eles estudaram a sabedoria oculta e o conhecimento secreto e as artes diabólicas em quatro cidades: Falias, Golias, Murias, e Findias...


Para Falias foi trazida a Pedra de Fal que estava localizada em Tara. Ela era usada para gritar quando o verdadeiro rei da Irlanda se pusesse de pé sobre ela.

Para Gorias foi trazida a lança que Lug possuiu. Nenhuma batalha foi alguma vez sustentada contra ela, ou contra o homem que a segurasse em sua mão.

Para Findias foi trazida a espada de Nuadu. Ninguém jamais escapou dela uma vez que estivesse fora de sua mortífera bainha, e ninguém poderia opor-se a ela.

Para Murias foi trazido o Caldeirão de Dagda. Nenhuma companhia alguma vez o deixou insatisfeita.


Havia quatro magos nestas quatro cidades. Morfesa estava em Falias; Esras estava em Gorias; Uiscias estava em Findias e Semias estava em Murias. Estes eram os quatro bardos de quem os Tuatha De aprenderam a sabedoria oculta e o conhecimento secreto.

Os Tuatha De fizeram então aliança com os Fomorianos, e Balor, o neto de Net, deu sua filha Ethne a Cian, o filho de Dian Cecht. E ela gerou a gloriosa criança, Lug.

Os Tuatha De chegaram a Irlanda com uma grande esquadra para tomá-la a força dos Fir Bolg. Após chegarem ao território de Corcu Belgatan (atualmente Conmaicne Mara), eles imediatamente queimaram seus barcos de forma que não pensassem em fugir neles. A fumaça e a névoa saída dos barcos encheram a terra e o ar ao redor. Por esta razão se pensou que eles chegaram em nuvens de neblina.

A Batalha de Mag Tuired foi lutada entre eles e os Fir Bolg. Os Fir Bolg foram derrotados, e cem mil dos seus foram mortos incluindo o rei, Eochaid mac Eire.

A mão de Nuadu foi cortada fora nessa batalha, Sreng mac Sengainn a golpeou. Então com Credne, o brazeiro, o ajudando, Dian Cecht, o médico, colocou nele uma mão de prata que se mexia como qualquer outra mão.

Ora, os Tuatha De Danann perderam muitos homens na batalha, incluindo Edleo mac Allai, e Ernmas, e Fiacha, e Tuirill Bicreo.

Então aqueles dos Fir Bolg que escaparam da batalha fugiram para os Fomorianos, e eles se estabeleceram em Arran e em Islay e em Man e em Rathlin.

Havia uma disputa quanto a soberania dos homens da Irlanda entre os Tuatha De e suas esposas desde que Nuadu se tornou inelegível para a realeza depois que sua mão foi cortada fora. Eles diziam que o homem apropriado para tomar o reino era Bres, o filho de Elatha, filho adotivo deles, e que o entregando à criança atariam uma aliança com os Fomorianos, visto que seu pai, Elatha mac Delbaith, era o rei dos Fomorianos.

Ora, a concepção de Bres se deu desta forma:

Um dia uma mulher dos Tuatha De, Eriu, a filha de Delbaeth, estava olhando para o mar e a terra de sua casa de Maeth Sceni; e ela viu o mar perfeitamente calmo como se fosse uma tábua lisa. Depois disso, no tempo em que esteve ali ela viu uma coisa: um navio de prata apareceu para ela no mar. Seu tamanho lhe pareceu grande mas sua forma não ficou clara para ela; e a corrente do mar carregou-o até a terra.

Então ela viu que o navio trazia um homem de bela aparência. Ele tinha um cabelo louro dourado que lhe caia pelos ombros, e uma capa com ataduras de ouro. Sua camisa possuía ornamentos de ouro. Em seu peito estava um broche de ouro com uma brilhante pedra preciosa. Trazia duas brilhantes lanças de prata e nelas duas firmes pontas de bronze. Cinco anéis de ouro lhe rodeavam da nuca. Carregava uma espada dourada com inscrições em prata e botão dourado.

O homem disse a ela, "Poderia eu, ter um momento de amor contigo?".

"Certamente ainda não marquei nosso encontro", ela disse.

"Venha sem o encontro", ele respondeu.

Então deitaram juntos, e a mulher chorou quando o homem subiu outra vez.

"Porque você está chorando?", ele perguntou.

"Eu tenho duas razões para lamentar", disse a mulher, "separar-me-ei de ti, todavia nós nos conhecemos hoje, e os jovens homens dos Tuatha De Danann tem implorado em vão me possuir como você fez."

"Sua ansiedade sobre essas duas coisas será removida," ele disse. Ele tirou seu anel de ouro do dedo médio e o colocou na mão dela, e disse-lhe que ela não deveria abrir mão dele, nem para vender tampouco para presentear, exceto para alguém em cujo dedo ele coubesse.

"Outra coisa me preocupa", disse a mulher, "eu não sei quem esteve comigo e me possuiu".

"Você não ficará ignorante de tal pessoa", ele disse. "Elatha mac Delbaith, rei dos Fomorianos, esteve contigo. Você dará a luz a um filho como resultado de nossa união, e não darás outro nome a ele além de Eochu Bres (isto é, Eochu, o belo), porque cada bela coisa que ser ver na Irlanda, como planície e fortaleza, cerveja e vela, mulher e homem e cavalo serão julgados em relação e este menino, de forma que as pessoas dirão a estas coisas, 'Isto é um Bres.'"

Então o homem foi embora, e a mulher retornou para sua casa, e a famosa fecundação se deu nela.

Então ela deu a luz a um menino, e o nome Eochu Bres foi lhe dado como Elatha havia dito. Uma semana depois do acontecimento o menino já tinha duas semanas de crescimento; e ele manteve esse crescimento por sete anos, ao fim dos quais havia se desenvolvido como uma criança de quatorze anos.

Como resultado da disputa que acontecia entre os Tuatha De, a soberania da Irlanda foi dada para este jovem; e ele deu sete reféns aos guerreiros da Irlanda (seus parentes por parte de mãe) como garantia da resituição da soberiania Irlandesa, caso ele praticasse maus atos. Então sua mãe lhe deu seu reino, e ele possuía uma fortaleza construída neste reino, Dun mBresse. E foi o Dagda que construiu esta fortaleza.

Mas depois de Bres ter assumido a soberania, três reis Fomorianos (Indech mac De Domnann, Elatha mac Delbaith, e Tethra) impuseram um tributo à Irlanda, e não havia fumaça de uma casa na Irlanda que não estivesse sob este tributo. Além disso, os guerreiros da Irlanda estavam reduzidos para servi-los: Ogma debaixo de uma pilha de madeira e o Dagda como um construtor de defesas, e ele construiu uma fortificação em volta da fortaleza de Bres.

Ora, o Dagda estava triste no trabalho, e na casa que ele usava pra comer havia um preguiçoso homem cego chamado Cridenbel, cuja boca originava-se no peito. Cridenbel considerava sua refeição pequena e a de Dagda grande, então ele disse, "Dagda, por sua honra dê-me os três melhores pedaços de sua porção!", e o Dagda acostumou-se a da-los a ele toda noite. Mas os pedaços do satírico eram grandes: cada pedaço tinha o tamanho de um avantajado porco. Além disso, aqueles três pedaços eram um terço da porção de Dagda. A aparência de Dagda estava muito ruim por isso.

Então um dia o Dagda estava numa vala e ele viu o Mac Oc indo em sua direção.

"Saudações a ti, Dagda!", disse o Mac Oc.

"E a ti", disse o Dagda.

"O que faz você parecer tão mal?", ele perguntou.

"Eu tenho uma boa causa", disse ele. "Toda noite Cridenbel, o satírico, exige de mim os três melhores pedaços de minha porção."

"Eu tenho um conselho para você", disse o Mac Oc. Ele colocou as mãos nos bolso e pegou três moedas de ouro, e as ofereceu para ele.

"Coloque", continuou ele, "essas três moedas de ouro nos três pedaços de Cridenbel ao anoitecer. Então esses serão os melhores de teu prato, então o ouro se encravara em seu ventre e por isso ele morrerá; e mais tarde o julgamento de Bres não será justo. Os homens dirão ao rei, 'O Dagda matou Cridenbel com uma erva mortal que deu a ele.' Então o rei ordenará que você seja morto, e tu dirás a ele, 'O que você diz, rei dos guerreiros de Feni, não condiz com a honestidade de um governante. Porque ele vinha me importunando desde que comecei meu trabalho, dizendo a mim: "dê-me os três melhores pedaços de sua porção, Dagda.Estou fraco hoje", realmente, eu o mataria por isso, se as três moedas de ouro que encontrei aquele dia não me tivessem ajudado. Eu as coloquei em minha porção, então dei-a a ele, porque o ouro era a melhor coisa que havia diante de mim. Então o ouro está agora em Cridenbel, e ele o matou.'

Assim foi feito, e disse o rei, pronunciando seu julgamento: "Está certo, tirem fora o estômago do satírico para ver se o ouro é encontrado nele. Se não for encontrado, você morrerá, entretanto, se for encontrado, você viverá”.

Então eles cortaram fora o estômago do satírico e encontraram as três moedas de ouro em suas entranhas, e Dagda foi salvo.

Então o Dagda voltou para o seu trabalho na manhã seguinte, e o Mac Oc foi a ele e disse, "Em breve você finalizara seu trabalho, mas não pedira pagamento até que o gado da Irlanda seja trazido a você. Escolha dentre eles uma escura, de crina negra, treinada e impetuosa novilha”.

Então o Dagda concluiu seu trabalho, e Bres perguntou-lhe o que ele queria como recompense pelo seu labor. O Dagda replicou, "Eu exijo que você reúna o gado da Irlanda em um único lugar." O rei fez o que ele pediu, e ele escolheu a novilha sobre a qual o Mac Oc lhe disse. Isso pareceu tolo a Bres. Ele pensou que ele escolheria algo mais.

Ora, Nuadu havia sido tratado, e Dian Cecht havia lhe dado uma mão de prata que se movia como qualquer outra mão. Mas seu filho Miach não gostou disso. Ele foi até a mão que havia sido substituída e disse "junta ligue-se com junta, e tendão com tendão"; e ele curou-a em nove dias e nove noites. Nos primeiros três dias ele carregou-a ao seu lado, e ela ficou coberta com pele. Nos segundos três dias ele carregou-a junto ao peito. Nos últimos três dias ele lançou brancos feixes de junco negro após terem sido escurecidos com fogo. Dian Cecht não gostou dessa cura. Ele atirou uma espada na cabeça de seu filho e cortou sua pele deixando-o em carne viva. O jovem se curou através de suas habilidades. Ele golpeou-o de novo e cortou sua carne até alcançar o osso. O jovem se curou pelos mesmos meios. Ele lhe infligiu um terceiro golpe e atingiu a membrana de seu cérebro. O jovem se curou pelos mesmos meios. Então ele o golpeou uma quarta vez e tirou fora seu cérebro, de forma que Miach morreu; e Dian Cecht disse que nenhum médico poderia curá-lo dessa ferida.

Depois disso, Miach foi enterrado por Dian Cecht, e trezentas e sessenta e cinco ervas cresceram através da sepultura, correspondendo ao número de suas juntas e tendões. Então Airmed estendeu seu manto e arrancou essas ervas de acordo com suas propriedades. Dian Cecht foi a ela e misturou as ervas, de forma que ninguém soubesse suas propriedades medicinais além do Espírito Sagrado que lhes ensinaria mais tarde. E Dian Cecht disse: "Apesar de Miach não ter vivido muito, Airmed ficará”.

Enquanto isso, Bres mantinha o reinado a ele concedido. Existia um grande murmurinho contra ele entre seus parentes dos Tuatha De, porque suas facas não eram engorduradas por ele. Todavia freqüentemente eles viessem, seu hálito não cheirava a cerveja; e eles não viam seus poetas, nem seus bardos, nem seus satíricos, nem seus harpistas, nem seus flautistas, nem seus tocadores de chifres, nem seus malabaristas, nem seus palhaços em reuniões familiares. Eles não iam para competições de famosos artistas, nem viam seus guerreiros provando suas habilidades perante o rei, exceto por um homem, Ogma, o filho de Lain.

Essa era a responsabilidade que ele tinha: levar lenha para a fortaleza. Ele trazia uma pilha todo dia das ilhas de Clew Bay. O mar levava dois terços de sua carga porque ele ficava fraco pela falta de comida. Ele trazia apenas um terço que fornecia para o anfitrião todo dia.

Mas nenhum serviço nem pagamento para as tribos perseverou; e os tesouros da tribo não foram doados, devido ao comportamento de toda tribo.

Numa ocasião um poeta foi a casa de Bres procurando hospitalidade (este era Coirpre, filho de Etain, o poeta dos Tuatha De), ele entrou numa apertada, suja, escura, e pequena casa; e ali não havia fogo nem móveis nem cobertores. Três pequenos bolos foram trazidos a ele num pequeno prato, e eles estavam secos. No dia seguinte ele acordou, e ele não estava grato. Enquanto ele ia para o pátio ele disse,

"Sem comida rapidamente no prato,
Sem leite de vaca para os bezerros crescerem,
Sem habitações humanas na escuridão da noite,
Sem pagamento para uma companhia de contadores de historias, esta é a situação de Bres."

"A prosperidade de Bres não existira por muito tempo," ele disse, e isso era verdade. Havia apenas destruição nele desde aquela hora; e esta foi a primeira sátira que ele fez na Irlanda.

Ora, depois os Tuatha De foram falar com seu filho adotado Bres mac Elathan, e eles pediram-lhe seus reféns. Ele entregou-lhes a restauração da realeza, e eles não lhe respeitaram como devidamente qualificado para governar daquele momento em diante. Ele exigiu permanecer até o fim de sete anos. "Você terá o que pede," a mesma assembléia concordou, "garantindo que a guarda de todo pagamento destinado a ti — incluindo casa e terras, ouro e prata, gado e comida – serão garantidos pelas mesmas formas de segurança, e que teremos liberdade de tributo e pagamento até então."

"Vocês terão o que pedem," disse Bres.

E é por tal razão que pediram o atraso: para que ele conseguisse juntar os guerreiros de sid, os Fomorianos, para tomar posse dos Tuatha através da força desde que ele conseguisse uma exorbitante vantagem. Ele não estava disposto a ser afastado de seu reinado.

Então ele foi para sua mãe e lhe perguntou onde estava sua família. "Eu estou certa sobre isso," ela disse, e foi para a colina da qual ela viu o navio prateado no mar. Ela então foi para a praia. Sua mãe lhe deu o anel que foi deixado com ela, e ele o colocou em seu dedo médio, e ele coube. Ela não abriu mão dele por ninguém, tampouco para vender ou presentear. Até aquele dia, não houve nenhum dos motivos que se ajustasse a isso.

Então eles avançaram até que alcançaram a terra dos Fomorianos. Eles chegaram a uma grande campina com muitas comunidades sob ela, e eles alcançaram a melhor destas comunidades. Dentro, pessoas exigiram informações sobre eles. Então eles perguntaram se eles possuíam cachorros, já que neste tempo isso era um costume quando um grupo de homens visitava outra comunidade, para desafiá-los em uma amistosa competição. "Nós possuímos cachorros," disse Bres. Então os cães participaram de uma corrida, e aqueles dos Tuatha De eram tão rápidos quanto os dos Fomorianos. Então perguntaram se eles possuíam cavalos para correr. Eles responderam, "Nós temos," e eles eram tão rápidos quanto os cavalos dos Fomorianos

Então perguntaram se eles possuíam qualquer um que fosse bom com a espada, e ninguém foi encontrado entre eles exceto Bres. Mas quando ele levantou a mão com a espada, seu pai reconheceu o anel em seu dedo e perguntou quem o guerreiro era. Sua mãe respondeu em seu favor e contou ao rei que Bres era seu filho. Ela relatou-lhe toda a história como já foi relatado.

Seu pai estava melancólico a respeito dele, e perguntou, "Que força traz você para fora das terras que governa?"

Bres respondeu, "Nada me trás exceto minha própria injustiça e arrogância. Eu desprovi-os de suas preciosidades e posses e de sua própria comida. Nenhum tributo nem pagamento foi recebido deles até agora."

"Isso é mau," disse seu pai. "Melhor a prosperidade deles do que de sua realeza. Melhor seus pedidos do que suas maldições. Porque então você veio?" perguntou seu pai.

"Eu vim para pedir-lhe guerreiros," ele disse. "Eu pretendo tomar aquela terra pela força."

"Você não deve ganha-la pela injustiça se não pode ganha-la pela justiça," ele disse.

"Eu tenho uma pergunta então: que conselho pode dar a mim?" disse Bres.

Depois disso ele mandou-lhe para o campeão Balor, neto de Net, o rei dos Hebrides, e para Indech mac De Domnann, o rei dos Fomorianos; e estes reuniram todas as forças desde Lochlainn na direção do oeste para a Irlanda, para impor seus tributos e seu governo sob eles pela força, e eles fizeram uma única ponte de barcos desde as Hebrides até a Irlanda.

Nenhuma tropa chegou a Irlanda que não fosse mais assustadora e terrível que as tropas dos Fomorianos. Existia rivalidade entre os homens da Scythia de Lochlainn e os homens fora das Hebrides a respeito desta expedição.

Quanto aos Tuatha De, porém, isso é discutido aqui.

Depois de Bres, Nuadu estava uma vez mais na soberania dos Tuatha De; e neste tempo ele organizou um grande banquete para os Tuatha De em Tara. Ora, havia certo guerreiro cujo nome era Samildanach a caminho de Tara. Naquele tempo existiam uns porteiros em Tara chamados Gamal mac Figail e Camall mac Riagail. Quando o segundo estava em serviço, ele viu uma estranha companhia vindo em sua direção. Um belo, forte e jovem guerreiro com um diadema real atado à fronte.

Eles ordenaram ao porteiro que anunciasse sua chegada a Tara. O porteiro perguntou, "Quem esta aqui?".

"Lug Lormansclech esta aqui, o filho de Cian filho de Dian Cecht e de Ethne filha de Balor. Ele é o filho adotado de Tailtiu, a filha de Magmor, o rei da Espanha, e de Eochaid Garb mac Duach."

O porteiro então perguntou a Samildanach, "Que artes você pratica? Ninguém sem alguma arte entra em Tara."

"Perguntou-me," ele disse. "Eu sou um construtor."

O porteiro replicou, "Nós não precisamos de você. Nós já possuímos um construtor, Luchta mac Luachada."

Ele disse, "Perguntou-me, porteiro: Eu sou um ferreiro."

O porteiro replicou "Nós já possuímos um ferreiro, Colum Cualeinech das três novas técnicas."

Ele disse, "Perguntou-me: Eu sou um campeão."

O porteiro replicou, "Nós não precisamos de você. Nós já possuímos um campeão, Ogma mac Ethlend."

Ele disse novamente, "Perguntou-me." "Eu sou um harpista," ele disse.

"Nós não precisamos de você. Nós já possuímos um harpista, Abcan mac Bicelmois, o que foi escolhido pelos homens dos três deuses nas muralhas de sid."

Ele disse, "Perguntou-me: Eu sou um guerreiro."

O porteiro replicou, "Nós não precisamos de você. Nós já possuímos um porteiro, Bresal Etarlam mac Echdach Baethlaim."

Então ele disse, "Perguntou-me, porteiro. Eu sou um poeta e um historiador."

"Nós não precisamos de você. Nós já possuímos um poeta e historiador, En mac Ethamain."

Ele disse, "Perguntou-me. Eu sou um feiticeiro."

"Nós não precisamos de você. Nós já possuímos feiticeiros. Nossos druidas e nossas pessoas de poder são numerosos."

Ele disse, "Perguntou-me. Eu sou um médico."

"Nós não precisamos de você. Nós temos Dian Cecht como médico."

"Perguntou-me," ele disse. "Eu sou um copeiro."

"Nós não precisamos de você. Nós já possuímos copeiros: Delt e Drucht e Daithe, Tae e Talom e Trog, Gle e Glan e Glesse."

Ele disse, "Perguntou-me: Eu sou um bom braseiro."

"Nós não precisamos de você. Nós já possuímos um braseiro, Credne Cerd."

Ele disse, "Pergunte ao rei se ele possui um homem que possua todas essas artes: se ele possuir eu não estarei apto para entrar em Tara."

Então o porteiro foi para o salão real e contou tudo ao rei. "Um guerreiro chegou em frente ao palácio," ele disse, "chamado Samildanach; e todas as artes que ajudam seu povo, ele as pratica todas, de forma que ele é o homem com cada uma e toda arte."

Então ele disse que eles lhe trouxessem os tabuleiros de fidchell de Tara,
e ele venceu todas as apostas, e fez a cro de Lug. (Mas se fidchell foi inventado no período da guerra de Tróia, ele ainda não tinha chegado à Irlanda, pois a batalha de Mag Tuired e a destruição de Tróia ocorrem ao mesmo tempo.)

Então isso foi relatado a Nuadu. "Deixe-o entrar no palácio," Disse Nuadu, "Já que um homem assim nunca veio a esta fortaleza."

Então o porteiro deixou-o passar, e ele entrou na fortaleza, ele sentou-se no lugar do sábio, porque ele era um sábio em cada arte.

Então Ogma atirou o ladrilho, o qual precisava de oitenta juntas de bois para ser movido, pelo lado do salão de forma que o projetou para fora de Tara. Isto era para desafiar Lug, que arremessou a pedra de volta de forma que a projetou de volta para o centro do salão real; e ele jogou a peça que se arrastou novamente pelo lado do salão real de modo que este estava inteiro novamente.

"Conceda que uma harpa seja tocada para nós", disseram os anfitriões. Então o guerreiro tocou uma doce musica para os anfitriões na primeira noite, colocando-os para dormir desde aquele hora até a mesma hora do dia seguinte. Ele tocou uma música triste de forma que eles choraram e lamentaram. Ele tocou uma música alegre de forma que eles sorriram e se regozijaram.

Então Nuadu, quando viu os muitos poderes do guerreiro, considerou se ele poderia libertá-los da escravidão que eles sofriam nas mãos dos Fomorianos. Assim eles realizaram um conselho a respeito do guerreiro, e a decisão a que Nuadu chegou foi a de trocar de assento com o guerreiro. Assim Samildanach sentou na cadeira real, e o rei acordou antes dele até que treze dias tivesse passado.

No dia seguinte ele e seus dois irmãos, Dagda e Ogma, conversaram juntos em Grellach Dollaid; e seus dois parentes Goibniu e Dian Cecht estavam reunidos com eles.

Eles passaram um ano inteiro nessa conferência secreta, de forma que Grellach Dollaid é chamada Amrun dos Homens da Deusa.

Então os druidas da Irlanda se reuniram a eles, juntamente com seus médicos e seus cocheiros e seus ferreiros e seus ricos proprietários de terras e seus juristas. Eles conversaram juntos secretamente.

Então ele perguntou ao feiticeiro, cujo nome era Mathgen, que poder ele detinha. Ele respondeu que poderia sacudir as montanhas da Irlanda debaixo dos Fomorianos até que seus picos desmoronassem. E isso lhes pareceria como se as doze principais montanhas da Irlanda estivessem lutando em favor dos Tuatha De Danann: Slieve League, e Denda Ulad, e as Montanhas Mourne, e Bri Erigi e Slieve Bloom e Slieve Snaght, Slemish e Blaisliab e a Montanha Nephin e Sliab Maccu Belgodon e as Colinas Curlieu e Croagh Patrick.

Então ele perguntou copeiro que poder ele detinha. Ele respondeu que poderia servir os doze principais lagos da Irlanda na presença dos Fomorianos e eles não mais encontrariam água neles, mas sedentos ficariam. Estes eram os lagos: Lough Derg, Lough Luimnig, Lough Corrib, Lough Ree, Lough Mask, Strangford Lough, Belfast Lough, Lough Neagh, Lough Foyle, Lough Gara, Loughrea, Marloch. Eles procedem dos doze principais rios da Irlanda – o Bush, o Boyne, o Bann, o Blackwater, o Lee, o Shannon, o Moy, o Sligo, o Erne, o Finn, o Liffey, o Suir – e eles seriam ocultados dos Fomorianos de modo que eles não encontrariam uma gota neles. Mas bebida ele poderia providenciar para os homens da Irlanda mesmo se eles ficassem em batalha por sete anos.

Então Figol mac Mamois, druida deles, disse, "Três chuvas de fogo cairão nas faces das hostes dos Fomorianos, e eu capturarei dois terços de sua coragem e de sua destreza nas armas e de sua força, e eu prenderei a urina deles em seus próprios corpos e nos corpos de seus cavalos. Cada respiração que os homens da Irlanda exalarem aumentará sua coragem e sua destreza nas armas e sua força. Mesmo se eles ficarem em batalha por sete anos, eles não se cansarão de maneira nenhuma.”

O Dagda disse, "Os poderes que vocês possuem, utilizarei todos com destreza."

"Você é o Dagda ['o Bom Deus']!" disseram todos, e "Dagda" ele foi chamado desde então.

Então eles dispensaram o conselho para reunirem-se, desde esse dia, três anos depois.

Então depois que a preparação para a batalha foi terminada, Lug e o Dagda e Ogma foram os três deuses de Danu, e eles concederam a Lug equipamentos para a batalha; e por sete anos eles se prepararam e forjaram suas armas.

Então ela disse-lhe, "Tome para si a batalha que causará a queda de um reino." Morrigan disse para Lug,

"Acorde..."

Então Figol mac Mamois, o druida, profetizou a batalha e fortaleceu os Tuatha De, dizendo,

"A batalha ocorrerá.”

Então o Dagda possuía uma casa em Glen Edin no norte, e ele a arrumou para encontrar uma mulher em Glen Edin em ano desde aquele dia, próximo de Todos os Santos da batalha. O Unshin de Connacht rugia na direção sul.

Ele viu a mulher no Unshin em Corann, se banhando, com um de seus pés em Allod Echae (isto é, Aghanagh) sul da água e o outro em Lisconny norte da água. Haviam nove cachos desprendidos em sua cabeça. O Dagda falou com ela, e eles se uniram. "A Cama do Casal" foi o nome desse lugar dai por diante. (a mulher mencionada aqui era Morrigan.)

Então ela disse ao Dagda que os Fomorianos desembarcariam em Mag Ceidne, e que ele deveria reunir os aes dana da Irlanda para encontrá-la no Vau de Unshin, e ela iria para dentro de Scetne para destruir Indech mac De Domnann, o rei dos Fomorianos, e lhe tiraria o sangue do coração e a disposição de sua coragem. Mais tarde ela deu dois punhados desse sangue para as hostes que estavam esperando no Vau de Unshin. Seu nome se tornou "O Vau da Destruição" por causa da destruição do rei.

Assim os aes dana fizeram, e eles cantaram feitiços contra as hostes dos Fomorianos.

Isso foi uma semana antes de Todos os Santos, e todos eles se dispersaram até que todos os homens da Irlanda tivessem se reunido no dia anterior ao de Todos os Santos. Seu número era de seis vezes trinta centenas, isto é, cada terço consistia de duas vezes trinta centenas.

Então Lug mandou o Dagda para espiar os Fomorianos e para atrasa-los até que os homens da Irlanda chegassem para a batalha.

Então o Dagda foi para o acampamento dos Fomorianos e propôs-lhes uma trégua na batalha. Isso lhe foi concedido conforme eles propôs. Os Fomorianos lhe fizeram mingau para zombar dele, pois seu gosto por mingau era notável. Eles encheram para ele o caldeirão do rei, que tinha cinco palmos de profundidade, e derramaram quatro galões de leite novo e a mesma quantidade de farinha e gordura nele. E colocaram bodes e ovelha e porco nele, e os ferveram todos junto com o mingau. Então eles derramaram isso em um buraco no chão, e Indech disse-lhe que ele seria morto a menos que comesse tudo aquilo; ele deveria fartar-se de comer de forma que sua força não fosse satirizada pelos Fomorianos.

Então o Dagda pegou sua concha, e ela era grande o bastante para que um homem e uma mulher repousassem em seu meio. Esses eram os pedaços que estavam nela: metade de um porco salgado e um quarto da banha de porco.

Então o Dagda disse, "Esta comida é boa se seu caldo é igual a seu gosto." Mas enquanto colocava a colher cheia na boa ele disse, "'Seus pobres pedaços não a estragam,' dizem os velhos homens sábios."

Então ao fim ele limpou todo o buraco tocando até o fundo entre bolor e cascalho. Ele adormeceu logo depois de comer seu mingau. Sua barriga estava tão grande quanto um caldeirão, e os Fomorianos riram-se dela.

Então ele foi embora para Traigh Eabha. E não foi fácil para o guerreiro se mover adiante levanto em conta o tamanho de sua barriga. Sua aparência estava horrivel: ele tinha um promontório no vazio entre seus cotovelos, e uma túnica cinza amarronzada ao redor dele até o inchaço de seu traseiro. E ele arrastava atrás de si uma forquilha que necessitava do trabalho de oito homens para se mover, e essa trilha era o bastante para ser uma trincheira da fronteira de uma província. E foi chamada "A trilha da clava de Dagda" por essa razão. Seu longo pênis estava descoberto. Ele vestia dois sapatos de pele de cavalo com o pêlo para fora.

À medida que ele continuava ele viu uma garota a sua frente, uma bonita jovem com uma excelente forma, seu cabelo em belos cachos. O Dagda a desejou, mas ele estava impotente por causa de sua barriga. A garota começou a zombar dele, então ela começo a lutar com ele. Ela arremessou-o de forma que ele afundou o côncavo de seu traseiro no chão. Ele olhou para ela irritado e perguntou, "O que você quer, garota, tirando-me fora de meu caminho?”.

"Isto: conseguir que você me carregue nas costas à casa de meu pai."

"Quem é seu pai?" ele perguntou.

"Eu sou filha de Indech, filho de De Domnann," ela disse.

Ela atacou de novo e bateu nele severamente, de forma que a fenda em volta dele ficou cheia com o excremento de sua barriga; e ela zombou dele três vezes até que ele a carrega-se em suas costas.

Ele disse que isso era um ges para ele, que carregaria qualquer um que o chamasse por seu nome.

"Qual é seu nome?" ela perguntou.

"Fer Benn," ele disse.

"Até o nome é demasiado!" ela disse. "Levante, carregue-me em suas costas, Fer Benn."

"Este não é realmente meu nome," ele disse.

"Qual é?" ela perguntou.

"Fer Benn Mach," ele respondeu.

"Levante, carregue-me em suas costas, Fer Benn Mach," ela disse.

"Este não é realmente meu nome," ele disse.

"Qual é?" ela perguntou. Então ele disse-lhe seu nome completo. Ela respondeu imediatamente e disse, "Levante, carregue-me em suas costas, Fer Benn Bruach Brogaill Broumide Cerbad Caic Rolaig Builc Labair Cerrce Di Brig Oldathair Boith Athgen mBethai Brightere Tri Carboid Roth Rimaire Riog Scotbe Obthe Olaithbe. . . . Levante, carregue-me para fora daqui!"

"Não ridicularize-me mais, garota." ele disse.

"Isso certamente sera difícil," ela disse.

Então ele moveu-se para fora do buraco, depois que deixara lá o conteúdo de sua barriga, e por causa disso a garota havia esperado por um longo tempo. Ele levantou então, e colocou a garota em suas costas; e ele colocou três pedras em seu cinto. Cada pedra pendeu e caiu - e foi dito que eram seus testículos que caíram. A garota saltou e o golpeou nas nádegas, e seus pêlos pubianos estavam a mostra. Então o Dagda conquistou uma amante, e eles fizeram amor. Uma marca ficou em Beltraw Strand onde eles se uniram.

Então a garota disse a ele, "Você não vai para a batalha por meio algum."

"Certamente eu irei," disse o Dagda.

"Você não irá," disse a mulher, "porque eu serei uma pedra na boca de cada vau que você cruzar."

"Assim será deveras," disse o Dagda, "mas você não me impedirá desa forma. Eu pisarei pesadamente em cada pedra, e as pegadas de meu calcanhar ficarão em cada pedra para sempre."

" Assim será deveras, mas elas trocarão de lugar de forma que você não as verá. Você não me deixará para trás ate que eu reúna os filhos de Tethra dos montes de sid, porque eu serei um carvalho gigante em cada vau e em cada passagem que você cruzar."

"Eu deveras passarei," disse o Dagda, "e a marca de meu machado permanecerá em cada carvalho para sempre." (E as pessoas serão observadas sob a marca do machado de Dagda.)

Então, no entanto, ela disse, "Permita que os Fomorianos entrem no reino, porque os homens da Irlanda terão todos se reunido em um lugar." Ela disse que atrasaria os Fomorianos, e ela cantaria feitiços contra eles, e ela praticaria a arte mortal da varinha mágica contra eles – e ela sozinha enfrentaria um nono de suas hostes.



Os Fomorianos avançaram até que sua décima parte estivesse em Scetne. Os homens da Irlanda estavam em Mag Aurfolaig. Neste ponto estas duas hostes estavam ameaçando batalhar.

"Os homens da Irlanda tomaram para si nos dar batalha?" disse Bres mac Elathan a Indech mac De Domnann.

"Eu também a darei," disse Indech, "de forma que seus ossos ficarão em pedaços se não pagarem seu tributo."

Para proteger-lhe, os homens da Irlanda haviam combinado poupar Lug da batalha. Seus nove pais adotivos foram proteger-lhe: Tollusdam e Echdam e Eru, Rechtaid Finn e Fosad e Feidlimid, Ibar e Scibar e Minn. Eles temiam que o guerreiro moresse cedo por causa do grande número de artes que dominava. Por essa razão eles não lhe permitiram ir à batalha.

Então os homens de posto entre os Tuatha De estavam reunidos em torno de Lug. Ele perguntou a seu ferreiro, Goibniu, que poder ele detinha em favor deles.

"Não é difícil dizer," ele disse. "Mesmo se os homens da Irlanda continuarem a batalha por sete anos, para cada lança separada de seu cabo ou espada que quebrar em batalha, eu providenciarei uma nova arma em seu lugar. A ponta de lança forjada por minhas mãos não fará um arremesso perdido. Nenhuma pele por ela tocada sentirá a vida outra vez.. Dolb, o ferreiro Fomoriano, não pode fazer isso. Eu agora estou preocupado com minha preparação para a batalha de Mag Tuired."

"E você, Dian Cecht," disse Lug, "que poder você detém?"

"Não é difícil dizer," ele disse. "Qualquer homem ferido ali, a menos que sua cabeça seja cortada, ou a membrana de seu cérebo ou sua coluna vertebral forem separadas, eu o colocarei sem falhas na batalha no dia seguinte."

"E você, Credne," Lug disse a seu brazeiro, "qual é o seu poder na batalha?"

"Não é difícil responder," disse Credne. "Eu os suprirei todos com pontas para suas lanças e punhos para suas espadas e enfeites e bordas para seus escudos."

"E você, Luchta," Lug disse para o seu carpinteiro, "qual poder você detem na batalha?"

"Não é difícil responder," disse Luchta. "Eu os suprirei todos com quanto escudos e cabos de lanças precisarem."

"E você, Ogma," disse Lug para seu campeão, "Qual é o seu poder na batalha?"

"Não é difícil dizer," ele disse. "Serei um adversário páreo para o rei e segurarei eu próprio de seus amigos, até que vencerei um terço da batalha para os homens da Irlanda."

"E você, Morrigan," disse Lug, "Que poder?"

"Não é difícil dizer," ela disse. "Eu ficarei firme; eu perseguirei quem estiver vigiando; eu serei capaz de matar; eu serei capaz de destruir aqueles que forem subjugados."

"E vocês, feiticeiros," disse Lug, "Que poder?"

"Não é difícil dizer," disseram os feiticeiros. "Suas brancas solas dos pés serão visíveis depois que nós os tivermos derrubados com nossas artes, de forma que eles serão facilmente mortos; e nós tiraremos dois terços das forças deles, e os impediremos de urinar."

"E vocês, copeiros," disse Lug, "Que poder?"

"Não é difícil dizer” disseram os copeiros. "Nós colocaremos uma grande sede sobre eles, e eles não encontrarão bebidas para matá-la."

"E vocês, druidas," disse Lug, "Que poder?"

"Não é difícil dizer," disseram os druidas. "Nós mandaremos chuvas de fogo sob as faces dos Fomorianos de forma que eles não poderão esguer os olhos, e os guerreiros em luta com eles poderão usar sua força para matá-los."

"E você, Coirpre mac Etaine," disse Lug ao seu bardo, "o que pode fazer na batalha?"

"Não é difícil dizer," disse Coirpre. "Eu farei um glam dicenn contra eles, e eu os satirizarei e os envergonharei de forma que através do encanto de minha arte eles não oferecerão resistência pra os guerreiros."

"E vocês, Be Chuille e Dianann," disse Lug às suas duas feiticeiras, "o que podem fazer na batalha?"

"Não é difícil dizer," elas disseram. "Nós encantaremos as árvores e as pedras e a grama da terra de forma que elas sejam uma hoste armada contra eles; e eles se dispersarão em fuga, apavorados e tremendo."

"E você, Dagda," disse Lug, "que poder você pode exercer contra as hostes Fomorianas na batalha?"

"Não é difícil dizer," disse o Dagda. "Eu lutarei pelos homens da Irlanda mutuamente golpeando e destruindo e com feitiços. Os ossos deles sob minha clava em breve serão como muitas pedras de granizo sob os pés de um rebanho de cavalos, aqui o dobro de inimigos encontraram no campo de batalha de Mag Tuired."

Então dessa forma Lug se dirigia a cada um deles um após o outro perguntando por suas artes, fortalhecendo-lhes e digirigindo-se a eles do mesmo modo até que cada homem possuise a coragem de um rei ou um grande senhor.

Ora, diariamente a batalha estava empatada entre os Fomorianos e os Tuatha De Danann, mas não haviam reis ou príncipes lutando, apenas homens bárbaros e arrogantes.

Uma coisa se tornou evidente para os Fomorianos na batalha parecendo fora do comum para eles. Suas armas, suas lanças e suas espadas, estavam embotadas; e aqueles dentre seus homens que morriam não voltavam no dia seguinte. Esse não era o caso com os Tuatha De Danann: embora suas armas estivessem embotadas um dia, elas estavam restauradas no próximo porque Goibniu, o ferreiro, estava em sua forja fabricando espadas e lanças e dardos. Ele fazia aquelas armas com três pancadas. Então Luchta, o carpinteiro, fazia os cabos das lanças em três lascadas, e a terceira lascada era o acabamento e a colocava fixa no encaixe da lança. As pontas de lanças estavam no lado da forja onde ele jogaria os encaixes com as setas, e não era necessário encaixá-los outra vez. Então Credne o brazeiro fazia os cravos com três pancadas e jogava os encaixes de lanças neles, e não era necessário perfurar orifícios para eles; e desta forma ficaram juntos.

Ora, essa era a forma que usavam para despertar os guerreiros que se feriram ali de forma que eles estivesem mais exaltados no dia seguinte: Dian Cecht, seus dois filhos Octriuil and Miach, e sua filha Airmed cantavam feitiços acima do poço chamado Slaine. Eles colocavam seus homens mortalmente feridos ali enquanto eles estavam abatidos; e eles estavam vivos quando vinha à tona. Seus homens mortalmente feridos ficavam curados pelo poder do encantamento feito pelos quarto médicos que estavam em volta do poço.

Ora, isto causava perdas para os Fomorianos, e eles escolheram um homem para inspecionar a batalha e as práticas dos Tuatha De - Ruadan, o filho de Bres e de Brig, a filha do Dagda – porque ele era filho e neto dos Tuatha De. Então ele descrevia aos Fomorianos o trabalho do ferreiro e do carpinteiro e do brazeiro e dos quatro médicos que estavam por perto. Eles mandaram-lhe de volta para matar um dos aes dana, Goibniu. Ele pediu uma ponta de lança para ele, cravos para o brazeiro, e um cabo de lança para o carpinteiro; e tudo lhe foi dado como ele havia pedido. Ora, havia ali uma mulher que afiava armas, Cron a mãe de Fianlach; e ela afiou a lança de Ruadan. Assim a lança foi dada a Ruadan por seus parentes por parte de mãe, e por essa razão ela foi chamada "a lança dos parentes por parte de mãe" na Irlanda.

Mas depois que a lança lhe foi dada, Ruadan voltou e feriu Goibniu. Ele tirou fora a lança e atirou-a em Ruadan de forma que ela atravessou-lhe; e ele morreu na presença de seu pai na assembléia Fomoriana. Brig chegou e chorou por seu filho. A principio ela gritou, e no fim das contas ela lamentou. Então pela primeira vez lamentos e gritos foram ouvidos na Irlanda. (Ora, ela é a Brig que inventou um assobio para sinalizar a noite.)

Então Goibniu foi para o poço e voltou curado. Os Fomorianos possuiam um guerreiro chamado Ochtriallach, o filho do rei dos Fomorianos, Indech mac De Domnann. Ele sugeriu que cada homem sozinho que eles possuisem deveria trazer uma pedra das pedras do rio Drowes para jogar no poço Slaine em Achad Abla a oeste de Mag Tuired, a leste de Lough Arrow. Eles foram, e cada homem colocou uma pedra no poço. Por essa razão o monte de pedras é chamado Ochtriallach. Mas outro nome para este poço é Loch Luibe, porque Dian Cecht colocou nele cada herva que crescesse na Irlanda.

Ora, quando chegou a hora da grande batalha, os Fomorianos marcharam para fora de seu acampamento e se colocaram em formações de fortes e indestrutíveis batalhões. Não havia um chefe, nenhum guerreiro hábil entre eles sem uma armadura contra sua pele, a um capacete na cabeça, um comprida lança em sua mão direita, uma pesada e afiada espada em seu cinto, um forte escudo sobre seu ombro. Com o intuito de atacar as hostes dos Fomorianos até que o dia estivesse "batendo a cabeça contra a pedra," estivesse "a mão no ninho da serpente," estivesse "a face próxima ao fogo."

Estes eram os reis e os líderes que encorajavam as hostes Fomorianas: Balor filho de Dot filho de Net, Bres mac Elathan, Tuire Tortbuillech mac Lobois, Goll e Irgoll, Loscennlomm mac Lommgluinigh, Indech mac De Domnann, rei dos Fomorianos, Ochtriallach mac Indich, Omna e Bagna, Elatha mac Delbaith.

No outro lado, os Tuatha De Danann levantaram e deixaram seus nove companheiros guardando Lug, e foram se unir a batalha. Mas quando a batalha sucedeu, Lug escapou da guarda nomeada sobre ele, como um combatente de carro de guerra, e assim foi ele que estava em frente aos batalhões dos Tuatha De. Então uma afiada e cruel batalha foi disputada entre a raça dos Fomorianos e os homens da Irlanda.

Lug encorajava os homens da Irlanda a lutar e batalhar ferozmente assim eles não ficariam em cativeiro nem mais um minuto, porque seria melhor para eles encontrar a morte enquanto defendiam sua terra natal do que em cativeiro e sob impostos como eles estavam. Então Lug cantou um feitiço, mudando de um lugar para o outro os homens da Irlanda em um pé só e com um olho fechado.

As hostes deram um grande grito a medida que iam para a batalha. Então elas se encontraram, e cada uma delas começou a golpear a outra.

Muitos belos homens cairam ali nas tendas da morte. Grande era o massacre e o grande embuste que aconteceu ali. Orgulho e vergonha ali estavam lado a lado. Havia raiva e indignação. Abundante era o rio de sangue sobre a pele clara de jovens guerreiros mutilados pelas mãos de homens destemidos enquanto corriam do perigo da desonra. Pungente foi o barulho feito pela multidão de guerreiros e campeões protegendo suas espadas e escudos e corpos enquanto outros os golpeavam com lanças e espadas. Pungente também o tumulto em todo lugar no campo de batalha, a gritaria dos guerreiros e o confrontar de brilhantes escudos, o tilintar de espadas e punhos de espadas de marfim, o ruído e chacoalhar das aljavas, o sussurar e zunir das lanças e dardos, as pancadas estraçalhando as armas.

À medida que eles cortavam as pontas dos dedos uns dos outros e seus pés se encontravam; e por causa do sangue escorregadio abaixo de seus pés, eles continuavam tombando, e suas cabeças eram cortadas fora enquanto eles se chocavam. Uma sangrenta, feridora, trapaceira, sangüinária batalha estava começada, e os bastões de lanças estavam avermelhados nas mõas de inimigos.

Então Nuadu Mão-de-Prata e Macha a filha de Ernmas cairam pelas mãos de Balor neto de Net. Casmael caiu pelas mãos de Ochtriallach filho de Indech. Lug e Balor do olho perfurante se encontraram na batalha. O segundo possuia um olho destrutivo que nunca abria exceto no campo de batalha. Quatro homens levantavam a pálpebra do olho com uma polida argola em sua pálpebra. A hoste que olhava no olho, mesmo se fossem milhares em número, não ofereciam resistência para os guerreiros. Ele possuia um poder venenoso por essa razão: uma vez seu pai druida estava misturando uma mágia. Ele chegou e olhou pela janela, e a fumaça da mistura afetou o olho e o poder venenoso da mistura ficou nele. Então ele e Lug se encontraram.

"Eleve minha pálpebra, jovem," disse Balor, "então poderei ver o companheiro tagarela com quem converso."

A pálpebra estava saliente no olho de Balor. Então Lug arremessou uma pedra numa funda que levou o olho através de sua cabeça, e ele passou a olhar para sua própria tropa. Ele atacou no topo da hoste Fomoriana de forma que vinte e sete deles morreram ao seus lado; e a coroa de sua cabeça bateu contra o peito de Indech mac De Domnann so de forma que um jorro de sangue irrompeu de seus lábios.

"Deixe que Loch Lethglas ["Meio-Verde"], meu bardo, esteja comigo," disse Indech. (Ele era meio-verde desde o chão até a coroa de sua cabeça.) Ele veio a ele. "Descubra para mim," disse Indech, "quem fez esse arremesso contra mim.".

Então Lug disse essas palavras em resposta a ele, "O homem que arremessou não tem medo de você”.

Então Morrigan a filha de Ernmas chegou, e ela estava fortalecendo os Tuatha De para batalhar resoluta e ferozmente.

Imediatamente depois a batalha se interrompeu, e os Fomorianos se dirigiram para o mar. O campeão Ogma filho de Elatha e Indech mac De Domnann cairam em um combate único.

Loch Lethglas implorou misericórdia a Lug. "Conceda meus três pedidos," disse Lug.

"Você os terá," disse Loch. "Eu removerei a necessidade de guarder a Irlanda dos Fomorianos para sempre; e qualquer julgamento de sua língua será ouvido em qualquer caso dificil, e este resolverá o negócio até o fim da vida."

Assim Loch foi poupado. Então ele cantou "O Decreto de fixação" aos Celtas. Então Loch disse que daria autoridade para Lug sob nove carros porque ele era misericordioso. Então Lug disse que precisaria dos nomes delas. Loch respondeu e disse, "Luachta, Anagat, Achad, Feochair, Fer, Golla, Fosad, Craeb, Carpat."

"Uma pergunta então: quais os nomes dos cocheiros que estão nelas?"

"Medol, Medon, Moth, Mothach, Foimtinne, Tenda, Tres, Morb."

"Quais são os nomes dos aguilhões que estão em suas mãos?"

"Fes, Res, Roches, Anagar, Each, Canna, Riadha, Buaid."

"Quais são os nomes dos cavalos?"

"Can, Doriadha, Romuir, Laisad, Fer Forsaid, Sroban, Airchedal, Ruagar, Ilann, Allriadha, Rocedal."

"Uma pergunta: qual é o número de mortos?" Lug disse a Loch.

"Eu não sei o número de camponeses e da multidão. Mas o número de lordes Fomorianos e nobres e campeões e grandes reis, eu sei: 3 + 3 x 20 + 50 x 100 homens + 20 x 100 + 3 x 50 + 9 x 5 + 4 x 20 x 1000 + 8 + 8 x 20 + 7 + 4 x 20 + 6 + 4 x 20 + 5 + 8 x 20 + 2 + 40, incluindo o neto de Net com 90 homens. Este é o número dos mortos dos grandes reis Fomorianos e de altos nobres que caira na batalha.

"Mas com respeito ao número de camponeses e pessoas comnus e da multidão e pessoas de todas as artes que chegarm na companhia das hostes – cada guerreiro e cada alto nobre e cada grande rei dos Fomorianos vieram a batalha com seus seguidores pessoais, de forma que todos caíram aqui, juntos seus homens livres e seus servos escravos – eu levo em conta apenas um pouco dos servos dos grandes reis. Este portanto é o número de quantos eu contei enquanto os via: 7 + 7 x 20 x 20 x 100 x 100 + 90 incluindo Sab Uanchennach filho de Coirpre Colc, o filho de um servo de Indech mac De Domnann (isto é, o filho de um servo do Rei dos Fomorianos).

"Quanto aos homens que lutaram em pares e os lanceiros, guerreiros que não chegam ao coração da batalha que também cairam aqui – até as estrelas do céu podem ser contadas, e as areias da praia, e os flocos de neve, e as gotas de orvalho na planície, e as pedras de granizo, e a grama sob os pés dos cavalos, e as ondas de Manannan filho Lir no mar tempestuoso – eles não podem ser contados de maneira alguma."

Imediatamente depois eles encontraram uma oportunidade para matar Bres mac Elathan. Ele disse, "É melhor me poupar do que me matar."

"O que então se sucederia disso?" disse Lug.

"As vacas da Irlanda sempre darão leite," disse Bres, "se eu for poupado."

"Eu direi isso a nossos homens sábios," disse Lug.

Então Lug foi ter com Maeltne Morbrethach e disse a ele, "Se Bres for poupado como dádiva as vacas da Irlanda para sempre darão leite?"

"Ele não deve ser poupado," disse Maeltne. "Ele não tem poder sobre a geração das vacas e sua cria, mesmo se ele controlar seu leite enquanto elas estiverem vivas."

Lug disse a Bres, "Isso não o salvará; você não tem poder sobre a geração das vacas ou sua cria, mesmo que você controle seu leite."

Bres disse, "Maeltne tem dado alarmes amargos!"

"Há mais alguma coisa que pode salva-lo, Bres?" disse Lug.

"Existe deveras. Diga a seu jurista que eles conseguirão uma colheita a cada quarto em recompensa por me pouparem."

Lug disse a Maeltne, "Bres será poupado por dar aos homens da Irlanda uma colheita de grão todos os quartos?"

"A isso nos temos adaptado," said Maeltne. "primavera para arar a terra e semear, e o começo do verão para amadurecer a dureza do rão, e o começo do outono para o completo amadurecimento do grão, e para colhe-lo. O inverno para consumi-lo."

"Isto não salvará você," disse Lug a Bres.

"Maeltne tem dado alarmes amargos," disse he.

"Menos poderá salva-lo," disse Lug.

"O que?" perguntou Bres.

"De que forma os homens da Irlanda ararão a terra? De que forma semearão? De que forma colherão? Se você tornar públicas essas coisas, você será salvo."

"Diga a eles, na terça-feira ararão a terra; na terça-feira semearão no campo; e na terça-feira colherão."

Assim através desse artifício Bres foi salvo.

Ora, na batalha Ogma o campeão encontrou Orna, a espada de Tethra, rei dos Fomorianos. Ogma desembainhou a espada e a limpou. Então a espada contou porque havia se comportado desse modo, porque este era um hábito das espadas nessa época para contar suas façanhas quando estavam desembainhadas. E por esta razão as espadas tinham direito a dádiva de serem limpas quando eram desembainhadas. Além disso feitiços eram colocados em espadas naquele tempo. Ora a razão pela qual demônios costumavam falar de armas era que as armas eram louvadas pelos homens e eram motivo de confiança naquele tempo.

Então Lug e o Dagda e Ogma perseguiram os Fomorianos, porque eles haviam pegado a harpa de Dagda, Uaithne. Finalmente eles alcançaram o salão de banquete onde Bres mac Elathan e Elatha mac Delbaith estavam. A harpa estava na parede. Esta era a harpa que o Dagda havia impedido de tocar melodias de forma que eles não fizeram som até que ele a chamou, dizendo:

"Venha Daur Da Blao,
Venha Coir Cetharchair,
Venha verão, venha inverno,
Bocas de harpas e foles e gaitas!"

(Ora, aquela harpa tinha dois nomes, Daur Da Blao e Coir Cetharchair.)

Então a harpa veio para, e ela matou nove homens e voltou ao Dagda; e ele tocou para eles as três coisas pelas quais a harpa era conhecida: música calma, música alegre, e música triste. Ele tocou uma música triste para eles de modo que suas mulheres, chorosas, verteram lágrimas. Ele tocou uma música alegre para eles de forma que suas mulheres e rapazes riram. Ele tocou uma música calma para eles de forma que as hostes dormiram. Então os três escaparam deles ilesos – embora tivessem procurado matá-los.

O Dagda trouxe com ele o gado pego pelos Fomorianos através do mugido da novilha que lhe foi dada por seu trabalho; porque quando ela chamava por seu filhote, o gado da Irlanda que os Fomorianos haviam pego como seu tributo começava a pastorear.

Então depois que a batalha estava ganha e o massacre havia sido limpado, a Morrigan, a filha de Ernmas, prosseguiu para anunciar a batalha e a grande vitória que havia ocorrido ali para os níveis reais da Irlanda e para suas hostes do Sid, e para as importantes águas e suas nascentes dos rios. E por tal razão Badb ainda relata grandes feitos. "Alguma notícia" todos então perguntaram à ela.

"Paz até o Céu.
Céu realista.
Terra abaixo do Céu,
Força em cada um,
Uma taça muito cheia,
Cheia de mel;
Hidromel em abundância.
Verão no inverno. . . .
Paz até o Céu . . ."

Ela também, profetizou o fim do mundo, prevendo cada mal que ocorrerá então, e cada doença e cada vingança; e ela cantou o seguinte poema:

"Eu não posso ver um mundo
que seja caro para mim:
Verão sem flores,
Gado sem leite,
Mulheres sem modéstia,
Homens sem coragem.
Conquistas sem um rei.
Florestas sem mastros.
Mar sem produção.
Falsos julgamentos de homens velhos.
Falsos precedentes de advogados,
Cada homem um traidor.
Cada filho um recuperador.
O filho irá para a cama do pai,
O pai irá para a cama do filho.
Cada irmão é um cunhado.
Ele não procurara mulher fora de casa.
Um tempo perverso,
O filho enganará o pai,
A filha enganará a mãe."

Notas: Fidchell é uma espécie de xadrez jogado na Irlanda.
As palavras cro, aes dana e ges se encontram nessa forma no original e em itálico, não tendo tradução.
Traduzido para o português por Lucas Rafael Ferraz a partir da tradução para o inglês de Elizabeth A. Gray

A Filha Adotiva do Vaqueiro

Traduzido por Lucas "Ingwë" Ferraz

A mulher de Cormac, rei de Ulster, só pôde ter uma filha, isto amargurou profundamente o rei, que desejava um herdeiro, sendo que rechaçou sua esposa e ordenou que se desfizessem de sua filha, atirando-a em um poço.
Os escravos encarregados olharam nos olhos da menina e não puderam levar a tarefa a cabo, assim, decidiram deixá-la ao cuidado de um bom homem, um vaqueiro que vivia no reino de Tara.
O homem a criou com carinho e instrução até que ela se converteu em uma prendada donzela, hábil nas artes do bordado. O vaqueiro observou que a jovem Messbuachalla começava a revelar uma beleza incrível, e teve medo de que fosse descoberta.
Então decidiu esconde-la, e lhe construiu uma casa de vime com uma única abertura no teto, para sua proteção. Apesar dos esforços do vaqueiro, alguém do reino de Tara teve curiosidade e trepou pelas paredes para vê-la.
Assim foi como chegou aos ouvidos do rei de Eteskel a existência desta donzela, que, pensou, deveria ser "a mulher de raça desconhecida que lhe daria um herdeiro" tal e como lhe havia profetizado um druida.
O rei mandou buscar a jovem no dia seguinte, mas naquela noite Messbuachalla foi visitada. Um grande pássaro entrou pelo teto e se transformou em um homem e, a donzela deu seu amor ao deus.
Ele advertiu-a de que seria tomada por um rei, e antes de ir, também lhe disse que havia sido fecundada e que o filho de ambos devia chamar-se Conary, este que seria quem teria proibido as caças aos pássaros.

Etain no Mundo das Fadas
Midir (ou Miled), o Orgulhoso, filho de Dagda, era o príncipe da Terra da Juventude, e estava casado com Fuamnach, uma mulher bela mas muito ciumenta.
Conta a história, que um dia ele levou ao seu castelo outra esposa, uma mulher de beleza e graça incomparáveis chamada Etain, e que, como era de se esperar, Fuamnach ficou possuída pelo ciúme, sendo que a converteu em uma mariposa e convocou uma tempestade que a levou pelos ares durante aproximadamente 7 anos.
Finalmente, um tufão a deixou no palácio encantado de Angus, ele foi incapaz de desfazer o feitiço, mas lhe construiu uma casinha ensolarada, rodeada pelas mais exóticas flores e no segredo da noite, Angus podia devolvê-la a sua forma humana e assim desfrutava de seu amor.
Com o correr do tempo, Fuamnach descobriu seu refúgio e voltou a convocar a tempestade mágica que, desta vez, a levou para o palácio de Etar, um chefe de Ulster.
A mariposa Etain caiu na taça da mulher de Etar, justo quando essa estava bebendo, entrou por sua boca e se alojou em seu útero, e foi assim que a mulher de Etar concebeu, e deu a luz a uma menina aparentemente mortal.

A Guerra por Etain
Etain, tida por todos como filha do soberano Etar, cresceu com uma beleza invejável, e muitos a cortejavam, embora ela não entregasse seu coração a ninguém, até que Eochy, rei da Irlanda, que andava buscando uma boa mulher para casar-se, se apaixonou por ela logo depois de vê-la.
Ela aceitou sua corte e se casaram, passando muitos anos juntos; mas ocorreu que Eochy tinha um irmão chamado Ailill, e sucedeu pois que Ailill caiu enfermo e ninguém sabia a causa de seu mal.
Passado algum tempo ele confessou a Etain que a causa era seu amor por ela, e a convenceu de que se não chegassem a consumar esse amor ele morreria. Etain, com pena de que tão belo jovem morresse por sua causa marca um encontro com Ailill para amarem-se mas este não chega encontro.
Quem chega é Midir, o Orgulhoso, que lhe disse que ele havia enfeitiçado Ailill para poder encontrar-se nesse lugar com ela e lhe pede que se vá com ele a Terra da Juventude, pois Fuamnach já havia morrido.
Etain não entendeu nada, assim Midir teve que lhe explicar todo seu passado. Etain se convenceu de tudo que ele lhe dizia era verdade e pouco depois se foram os dois esposos imortais.
Eochy se enraiveceu muito ao saber da fuga de sua esposa, e foi a um famoso druida que lhe informou quem a havia levado e onde estava seu palácio, então Eochy e seu exército foram buscá-la na Terra da Juventude e encontraram forte resistência por parte da gente de Midir, que ao final ficaram encurralados e Midir teve que ceder e disse a Eochy que a entregaria.
Entretanto, Midir preparou um estratagema para enganar Eochy e ficar com Etain, sendo que, ante os olhos de Eochy desfilaram 50 donzelas tão igualmente belas como Etain e Midir disse-lhe: "escolhe a tua verdadeira esposa".
Eochy se viu numa difícil situação, pois todas elas eram tão belas quanto Etain, e ele não podia identificar sua verdadeira esposa, se diz que Etain lhe fez um sinal e só assim ele pode acertar na escolha. Etain então voltou a viver com Eochy e lhe deu uma filha a quem também chamaram Etain.

Finn MacCumhal e a Corsa

Traduzido por Lucas "Ingwë" Ferraz

Um dia em que Finn e seus companheiros regressavam com seus cães de uma caçada no monte Allen, uma corsa cruzou por seu caminho e todos começaram a correr atrás dela.

Logo os perseguidores foram ficando para trás, exceto Finn e seus dois cães, Bran e Skolawn. Estes cães tinham uma origem muito peculiar já que eram filhos de Tyren, tia de Finn, que havia sido transformada em uma cadela por um encantamento.Eram os melhores cães de toda a Irlanda e Finn os admirava e amava muito.

Quando a caçada se dirigia a um vale, a corsa se deteve, se abaixou, e Finn viu que seus cães brincavam com ela lambendo-lhe o rosto.Finn ordenou que ninguém lhe fizesse dano e ela os seguiu durante todo o caminho de volta.

Naquela mesma noite, ele acordou e viu junto a sua cama a mulher mais bela que jamais havia visto em toda sua vida, e ela lhe disse: "Sou Saba, Finn, sou a serva que perseguiste na caçada de hoje. Por não querer dar meu amor ao druida da terra das fadas, ele me converteu no que viste, e tenho estado assim durante três anos. Mas um de seus escravos, apiedando-se de mim, me revelou que se pudesse chegar até vossa morada de Allen, oh Finn, voltaria a minha forma original. Temia ser destroçada por vossos cães ou ferida pelos caçadores, e por isso deixei me alcançar por ti, e por Bran e Skolawn, quem possuem a natureza de homem e não me fariam dano".

Finn prometeu protege-la e pronto a fez sua esposa. Tão profundo foi o amor que viveu, que durante meses não se preocupou em lutar nem guerrear, mas sim simplesmente em passar cada dia com sua bela esposa.

Um dia chegou a notícia de que barcos de guerra do Norte estavam na baia de Dublin, assim mandou chamar todos seus homens, e disse a sua esposa: "Os homens de Erin nos dão tributo e hospitalidade para que os defendamos dos invasores, e seria uma vergonha aceitar os pagamentos sem dar de nossa parte o que se pede".

Durante sete dias esteve ausente Finn, até que os escandinavos se afastaram das costas de Erin. Ao oitavo dia voltou aos seus, mas viu a preocupação nos olhos dos homens e mulheres e Saba não estava na muralha esperando seu regresso.

Ante o pedido de Finn, lhe contaram o que havia sucedido: Saba esperava ansiosa seu regresso, e um dia apareceu Finn com seus dois cães, e até se escutaram as notas da chamada da casa dos Fianna no vento.Saba pulou sobre a cerca para receber seu amado, mas era um falso Finn que brandiu uma varinha e a transformou de novo em uma corsa. Seus cães começaram a persegui-la, fazendo-a fugir. Os homens tomaram todas as armas que puderam e selaram em busca do feiticeiro, mas não encontraram nenhum dos dois.

Finn se retirou aos seus aposentos e ficou trancado o dia todo, entretanto logo seguiu ocupando-se dos assuntos de Fianna como sempre. Durante sete anos buscou Saba por bosques e cavernas de toda Irlanda, com a companhia apenas de seus fiéis cães até que perdeu toda esperança e abandonou a busca.

Um dia enquanto caçava em Ben Bulban ouviu que os cães grunhiam com fúria, ele e seus homens correram até eles e viram que os cães tentavam se aproximar de um garoto de longos cabelos ruivos, que estava nu ao pé de uma árvore, enquanto Bran e Skolawn os mantinham a distância. Os fians apartaram os cães e levaram consigo o garoto que, quando aprendeu a falar, lhes contou sua história.

Ele não havia conhecido nem pai nem mãe alguma.Sempre havia vivido num vale cerrado por escarpas altíssimas e havia sido criado por una corsa amorosa.Durante o verão se alimentava de frutos silvestres e durante o inverno se mantinha com as provisões que guardava em sua gruta.

De quando em quando, aparecia um homem de aspecto obscuro que falava com a corsa, umas vezes com ternura e outras com ameaças, mas a cerva sempre fugia dele.Um dia, o homem chegou e esteve por um longo tempo com a corsa, até que a tocou com uma varinha e a obrigou a seguir-lhe sem olhar para trás.O menino tentou ir com eles e não pode mover seu corpo, chorando de raiva e desolação, caiu ao solo e perdeu os sentidos.

Quando voltou a si estava na ladeira da montanha de Ben Bulban e durante dias buscou aquele vale verde, até que os cães o encontraram. Finn se deu conta de que era seu próprio filho e o chamou Oisin, pequeno cervo. Foi conhecido como guerreiro e grande compositor de canções e fábulas.

A Filha do Rei da Juventude

Traduzido por Bruno(Mr.Doisflor)
(Mr.Doisflor)

Enquanto Finn e seu filho Oisin, junto a vários companheiros, caçavam em uma manhã brumosa de verão pela margem do lago Lena, foram investigar uma belíssima moça, montada em um corcel branco como a neve. Ela levava um traje de rainha: uma coroa de ouro e um manto de seda marrom com estrelas de ouro que a envolviam e arrastavam pelo solo.
Seu Cavalo levava adornos de ouro.
A donzela se aproximou de Finn e com ele falou:
-Desde longe vim e te encontrei, Finn, filho de Cumhal.
-Qual é sua terra, donzela, e o que desejas de mim?
-Meu nome é Niam a do cabelo dourado. Sou filha do rei da Terra da Juventude, e o que me trouxe aqui é o amor pelo vosso filho Oisin.
Ela girou e falou com o jovem guerreiro e lhe falou com uma voz que ninguém poderia negar algo que fosse pedido:
-Virá comigo, Oisin, à terra de meus pais?
-Contigo irei até o fim do mundo.
Então a donzela falou sobre sua terra, e enquanto o fazia, uma calma de sonhos inundou todas as coisas. Nenhum cavalo se moveu, os cães deixaram de latir, nenhum som do vento mexeu as folhas do bosque.Os homens estavam tão maravilhados que tudo o que ela falou, só puderam se lembrar:

É uma terra deliciosa, acima de todos os sonhos
Mais bela que qualquer coisa jamais vista pelos olhos.
Lá todos os anos têm frutos nas árvores.
E durante todo o ano as plantas florescem.

Ali as árvores mel selvagem gotejam.
E o vinho e o hidromel nunca terminam.
Nenhum habitante conhece a dor ou a doença
E a morte ou decadência nunca estão perto de lá.

A festa nunca se interrompe nem a caça cansa,
Nem tão pouco para de tocar as músicas dos salões;
O ouro e as jóias da Terra da Juventude
Brilham com esplendor jamais conhecidos por homem algum.

Terás cavalos de boa linhagem
Terás cães que correm mais que o vento
Uma centena de guerreiros que o seguirão nas batalhas
Uma centena de donzelas que cantarão para que possas dormir.

Uma Coroa do Soberano levarás na fronte,
E ao teu lado uma arma mágica sempre estará,
E será o senhor de toda a Terra da Juventude,
E senhor de Niam dos cabelos dourados

Ao terminar a canção, Oisin foi montar no corcel mágico, e, sustentando a donzela em seus braços desapareceu como um raio de luz faria no bosque.

Amergin e os druidas

Traduzido por Lucas "Ingwë" Ferraz

A origem dos Druidas na Irlanda se remonta, segundo os antigos anais irlandeses, aos primeiros colonos do país, que pertenceram à tribo de Japhet.
Uma das colônias mais importantes que haviam vindo à Irlanda era a de Milesian. Segundo as antigas tradições, estas pessoas, pertencentes também à raça de Japhetian, passarão desde Scythia à Grécia e logo ao Egito e à Espanha e finalmente da Espanha à Irlanda onde chegaram duzentos anos depois da conquista de Tuatha De Danann, aproximadamente o ano 1530 A.C. Durante o curso de todas as migrações marinhas, os Druidas desempenhavam um papel muito importante e entre eles Caicher foi considerado o mais importante... posto que se diz que ele previu que Erinn (Antigo nome para Irlanda) era seu último destino.
Em sua chegada à Irlanda, os principais druidas dos Milesianos eram Uar, Eithear e Amergin. Amergin era uno dos irmãos Milesianos de sobrenome Glungel. Era Poeta e Juiz da expedição, e um Druida muito conhecido ainda que não tivesse profissão. O Leabhar Gabhala, ou O Livro das Invasões, se refere a Amergin como o primeiro Druida dos Gaélicos na Irlanda ainda que não fosse o único Druida conhecido na Irlanda.

Chegada dos Milesianos à Irlanda

A primeira colônia de Milesianos desembarcou em Kerry e logo marchou em direção à Colina de Tara, o acento dos Reis da Irlanda, ocupada nesse momento pelo Tuatha De Danann, que exigia a supremacia do país. Os reis objetaram que não sabiam nada sobre a invasão e se tivessem sabido, teriam impedido. Assim que eles planejaram deixar a decisão a Amergin.
Amergin decidiu que ele e seus amigos deveriam voltar a suas naves e mover-se a uma distância de nove ondas distante da terra. Se fossem capazes de voltar à terra outra vez a pesar de De Danann, eles conquistariam o país. Enquanto se moviam à distância fixada no mar, os Druidas de De Danann provocaram uma tempestade e a frota se dispersou. Uma frota se dirigiu ao Sul e logo ao Noroeste de novo. A outra estava em perigo devido à tormenta quando Amergin, o poeta e estudioso da frota, se levantou e pronunciou uma entoação druídica. Ao final da oração, a tormenta cessou e os Milesianos desembarcaram de novo. Era uma quinta-feira primeiro de maio e o décimo sétimo dia da lua. Então, Amergin pousou seu pé direito na terra da Irlanda e cantou outro poema em honra da ciência que lhe dá mais poder que os deuses de onde veio.
Eu sou o vento que sopra sobre as águas;
Eu sou a onda do oceano;
Eu sou o murmúrio das ondas;
Eu sou o boi dos sete combates;
Eu sou o abutre na montanha;
Eu sou uma lágrima do sol;
Eu sou a mais formosa das plantas;
Eu sou um valente javali selvagem;
Eu sou um salmão na água;
Eu sou um lago da planície;
Eu sou a palavra certeira;
Eu sou a lança que fere na batalha;
Eu sou o deus que cria ou forma na cabeça do homem o fogo do pensamento.
Quem é o que ilumina a assembléia na montanha, se não eu?
Quem conhece as idades da lua, se não eu?
Quem mostra o lugar de onde o sol vai descansar se não eu?
Quem chama o gado da Casa de Tethra?
A quem sorri o gado de Tethra?
Por que é o deus que forma encantamentos - o encantamento da batalha e o vento da mudança?
Leabhar Gabhala
Então depois de três dias e três noites, os filhos de Mile começaram sua primeira batalha contra Tuatha De Danann em um lugar chamado Sliab Mis, hoje em dia Slieve Mish está no Condado de Cork.
Em um Manuscrito Gales do Século XIV encontramos um poema similar atribuído ao bardo Taliesin, melhor conhecido na Saga Artúriana como Merlin.
Eu fui uma águia
Eu fui madeira no bosque
Eu fui uma espada sendo empunhada
Eu fui um escudo na batalha
Eu fui uma palavra entre as letras
Os dois cantos destacam algumas crenças Druídicas e Célticas. Esta ciência divina, penetrando os segredos da natureza, descobrindo que suas leis era um ser idêntico a estas mesmas forças e manter esta ciência era manter a natureza em um todo. O poeta amadurecido é a palavra da ciência, ele é o deus que concede ao homem o fogo do pensamento, o poeta é a natureza, é o vento e as ondas, os animais selvagens e o braço do guerreiro. Porque o poeta é a encarnação visível da ciência na forma humana. Ele não é só homem, senão também águia ou abutre, árvore ou planta, palavra, espada ou lança. Ele e o vento que sopra no mar, a onda do oceano, o murmúrio das ondas, o lago no planalto. Ele é tudo isso por que ele é o ser universal, porque ele tem a custódia do tesouro da ciência e há provas de que possui este tesouro. Por exemplo, ele sabe calcular as luas, a base do calendário, por que ele pode determinar as grandes assembléias populares. A astronomia não tem nenhum segredo para ele, também pode saber (ninguém mais o sabe) onde vai descansar o sol. Ele é a ciência, é um poeta, é um sonhador. Ele e O Sonhador.

O Destino dos Filhos de Lir

Traduzido por Lucas "Ingwë" Ferraz

O rei da Irlanda, Boadbh Dearg e Lir de Sidhe Fionna eram inimigos, mas quando a mulher de Lir morreu, o rei pensou que seria um bom momento para reconciliar-se. Boadbh Dearg ofereceu-lhe suas três filhas adotivas, Niamh (niav), Aoife (ifa) e Albha para que escolhesse. Lir se casou com a mais velha, Niamh, e voltou a seu reino, onde Niamh teve duas filhas gêmeas e logo outros dois filhos gêmeos que se chamariam Finola, Aedh (eir), Conn e Fiachra, em um curto mas feliz matrimônio. Niamh morreu no parto dos dois últimos, e então Lir voltou por causa de Aoife, a outra filha do rei para casar-se com ela.
Aoife não teve filhos próprios, mas foi a verdadeira mãe dos de sua irmã. Aoife começou a se sentir desprezada porque Lir só prestava atenção às crianças e adoeceu gravemente. Durante sua enfermidade, Aoife planejou livrar-se de seus sobrinhos. Disse que a primeira coisa a fazer quando se recuperasse, era visitar seu padrasto Boadbh Dearg e levar-lhe as crianças por uma temporada. Recuperou-se, e partiu a Emhain Mocha com os filhos de Lir. Quando as crianças estavam descansando da viagem banhado-se num lago, Aoife os transformou em cisnes. Fez-lhes, ainda, uma maldição, que lhes faria permanecer nesse lago 300 anos, outros 300 no mar entre Irlanda e Escócia, 300 mais na costa oeste, e que então teriam de esperar até que chegasse a nova fé à Irlanda, e até que o príncipe Lairgnean e a princesa Deichthe houvessem se casado para voltar a sua forma humana.

Depois disto, Aoife se sentiu culpada, e lhes concedeu a habilidade de falar com umas vozes melodiosas, cujo canto faria os homens não querer fazer nada mais além de escutar-lhes. Quando Aoife chegou a Emhain Mocha tratou de justificar a ausência de seus sobrinhos, mas Lir descobriu a verdade e a transformou num corvo.
Lir foi viver nas margens do lago onde viviam seus filhos, e escutava-os cantar sua desgraça. Passaram 300 anos, e os cisnes se foram, mas desta vez viveram sozinhos no frio mar de Moyle. Todos os que conheceram como humanos estavam mortos, a fortaleza de Sidhe Fionna destruída. Os anos passaram e os feitos prometidos se aproximavam, e os cisnes foram viver com Caemhoch, que havia sido discípulo de São Patrício. A rainha Deichthe ouviu falar dos cisnes, e se apaixonou por eles. Pediu a seu marido Lairgnean que os trouxesse, e ele foi pedir-lhes a Caemhoch.
Nesse momento, os cisnes começaram a retomar sua forma humana, mas já não eram crianças, eram anciões de 1500 anos e a ponto de morrer. Lairgnean assustou-se ao ver-lhes e Finola pediu a Caemoch que fossem batizados, e depois que os enterrassem todos juntos, de pé, na mesma tumba.
E assim, finalmente, se cumpriram seus desejos.

O Lago Emprestado

Traduzido por Lucas "Ingwë" Ferraz

Um jovem chefe cortejava a filha de outro chefe, cujo forte se achava situado no limite de Loch Ennel em Westmeath. A dama era bastante altaneira e melindrosa, e lhe disse claramente que não aceitaria assumir a condição de dona de casa se não pudesse ver da sua janela um lago tão belo como o que se divisava frente à casa de seu pai. Este era um assunto delicado, o vale era adequado, mas as ladeiras das colinas estavam cobertas de casinhas e o riacho que serpenteava lá no fundo demoraria muitíssimos anos para encher o vale, e uma vez terminada a represa, cuja construção necessitaria de uma dúzia de anos, o galã seria já velho.

Sua mãe adotiva, uma feiticeira (isto ocorria nos tempos dos Danaans), ao vê-lo arrancar os cabelos em um par de ocasiões, induziu-o a refazer-se e lhe ordenou que respeitasse até o dia seguinte seus soltos cachos. Logo, a feiticeira dirigiu-se com o meio corrente de transporte das feiticeiras, à cabana de uma irmã Firbolg na arte da magia, situada sobre a margem ocidental do Shannon. Esta cabana estava comodamente localizada sobre o corte de uma colina, dando sobre um agradável lago, e a mulher Danaan foi hospitaleiramente agasalhada pela mulher Firbolg.

Depois de seu singelo refrigério, a visitante revelou o motivo de sua viagem e suplicou a sua sabia amiga que lhe emprestasse seu lago até o dia da lua seguinte, acrescentando num resmungo enganoso "depois da semana da eternidade". Um lago era algo difícil de conseguir, mas finalmente obteve-o e o levou triunfalmente debaixo da capa ao vale de Leinster. As pessoas que viviam nas ladeiras das colinas despertaram naquela noite de seus sonhos ouvindo um estrondo, digamos assim como o de dez mil cascatas. Todos fugiram até as terras altas e foram hospitaleiramente resguardados pelos edifícios do forte, e ao alvorecer da manhã seguinte, milhares de assombrados olhos contemplaram o plácido lençol de água que cobria suas moradas do dia anterior.

Assim foi conquistada a altaneira noiva. A desgarrada mulher de Connacht esperou até o dia da segunda lua, irritadíssima ante o lamacento leito que exibia o fundo de seu lago debaixo da influência de um sol ardente e sem aparentes perspectivas de que lhe devolveriam com gratidão as águas. Até uma mulher sábia pode perder a paciência. Esta voou à casa de sua enganadora colega em bruxarias, cavalgando sobre sua vassoura e foi recebida com fingida alegria.

-Não há tempo para cumprimentos, comadre - lhe disse -Chegou o dia da lua seguinte e até o da lua subseqüente, e em vez do meu agradável lago, só vejo rochas, barro e peixe podre. Devolva-me meu lago, te digo.

- Ah, querida irmã! A ira te tirou a memória. Prometi-te devolver-te teu formoso pedaço de água no dia da lua seguinte à semana da eternidade, não antes; reclama-o quando vencer o prazo.

A ira da bruxa traída não teve limites, mas não tinha argumento algum, devido à traiçoeira reserva da astuta Danaan. O resultado foi trágico para a maior parte dos interessados; mas a incorporação de Loch Owel às agradáveis planícies de Meath é tudo o que nos interessa por agora.

Fergus e o Hipopótamo

Traduzido por Lucas "Ingwë" Ferraz

O governador Fergus adorava explorar os lagos e os rios da Irlanda. Um dia enquanto passeava pelo lago Rury, deu com o Muirdris, um hipopótamo do qual escapou a duras penas. Por casa do terror o rosto de Fergus ficou distorcido, e tendo em conta que os governadores não podiam ter nenhum defeito, os nobres esconderam todos os espelhos do palácio e o mantiveram ignorante sobre sua aparência.
Um dia, Fergus golpeou uma escrava e ela indignada gritou-lhe: "Seria melhor que se vingasse do hipopótamo que te deixou com o rosto distorcido do que cometer atos atrozes contra uma simples mulher que não te fez nada!"
Fergus mandou trazer um espelho, se olhou e decidiu que como ele era o governador não podia permitir que tivesse essa aparência sem nenhum tipo de vingança. Calçou os sapatos mágicos, tomou sua espada e foi ao lago Rury.
Esteve escondido debaixo das ondas durante um dia e uma noite, mas os ultonianos (assim se chamavam os habitantes das terras que Fergus governava) se preocuparam muito ao ver o lago borbulhar e se avermelhar com o sangue, já que pensaram que pertencia ao seu tão querido governador, mas estavam errados. Depois de um instante Fergus surgiu da águas com a cabeça de Muirdris em suas mãos. Havia desaparecido o defeito! Em seu rosto cada traço simétrico estava em seu lugar e todos os que o viram com o semblante marcado viam agora a compostura serena de um rei.
Sorriu; levou a orelha do troféu à sua boca e disse: Sobrevivi!... e se afogou, pois estava muito ferido. Assim foi a morte de Fergus. Mas em todos os ultonianos ficou a imagem de um governador valoroso que soube comportar-se e morrer como um bom rei.