sábado, 26 de janeiro de 2008

A mais longa das noites

Uma historinha, pra descontrair. Depois posto mais coisas interessantes. Ando meio ocupado, por isso não tenho tempo pra postar com mais frequência. Espero que gostem dessa, escrita há mais de 10 anos.

A mais longa das noites

É com imenso receio que coloco no papel aquilo que, há dez anos atrás, deixou-me neste estado no qual me encontro hoje. Tento evitar de me lembrar daquela noite terrível, mas, em contrapartida, espero lembrar-me de todos os detalhes, por mais doloroso que seja, para que os que lerem estas linhas saibam o que aconteceu e fiquem alertas quanto ao que está (e eu espero que nunca esteja) por vir.

Foram cinco dias de viagem, desde a cidade onde trabalhava como jornalista, até Miskatonik (viagem esta tranquila, sem muitos contratempos). Fui enviado à serviço, para fazer uma reportagem sobre o Necronomicon, um livro escrito pelo árabe louco Abdul Al-Hazred, que fala de seres poderosíssimos que viveram na Terra antes que existisse qualquer forma de vida conhecida.

Depois de passar uma agradável noite num hotel aconchegante, fui direto à biblioteca, procurar o tal livro...



Quando perguntei à bibliotecária, senti que ela estremeceu e ficou um tempo imóvel, olhando-me com um olhar gelado. Sem dizer uma palavra, como que desaprovando o ato, dirigiu-se a uma estante empoeirada no fundo da biblioteca. Afastando pilhas de livros velhos e despedaçados, ela encontrou o exemplar. Incrivelmente, ESTE livro não estava em péssimo estado de conservaçatilde;o como seus vizinhos de estante, pelo contrário, estava bem legível, com a capa dura bem conservada e o título assustador (isto sim, nunca mais vou esquecer):

NECRONOMICON

Pedi referências do livro à bibliotecária, com a intenção de saber mais à respeito de quem o escreveu, etc. Mas, ao invés disso, ela me disse o seguinte:

-Olhe, meu senhor, fazem mais de cinco anos que ninguém ousa mexer neste livro. Olhe só o registro! Ninguém sabe nada sobre o autor; o último que leu este livro sumiu há três anos e nunca mais apareceu!

Perguntei-lhe se havia alguma crendice em torno dele:

-Nas últimas vezes que ele saiu desta biblioteca, conta-se de ruídos estranhos provindos da floresta ao norte, luzes diferentes no céu à noite e um maior movimento de pessoas na cidade. Talvez sejam apenas ilusões, mas eu prefiro não me arriscar...

Recusei-me a acreditar em tamanha tolice:

-"Um jornalista deve manter o sangue frio e não acreditar em crendices populares", pensei comigo. (Como me arrependo disso!)

Assinei o registro e fui diretamente para o hotel onde estava hospedado. Preparei um lanche bem reforçado (sabia que iria ficar horas lendo o livro), sentei-me na poltrona e comecei a folheá-lo.

Já nas primeiras páginas senti algo que pairava entre medo e aversão, pois seus dizeres definitivamente não eram para alguém como eu, com pouca experiência de vida. Vendo aquelas figuras bizarras, senti-me como se estivesse entrando em um mundo negro, cheio de criaturas fantásticas e arcanas, que desapareceram há dezenas de milhões de anos atrás e que até hoje esperam o dia em que poderão voltar a ter o domínio sobre a Terra.

Enquanto lia o livro, perdi totalmente a noção

do tempo. Já era noite quando tive a nítida impressão de ter visto vultos nas janelas de meu aposento (que era no terceiro andar do hotel). Levantei-me, espiei para fora do quarto e, como não vi nada, voltei a ler. (Desta vez, fechei bem as janelas...). Em uma certa página do livro, deparei-me com uma figura incrível: um ser (aquilo não pode ser chamado de homem), com pés de dinossauro, vestindo uma túnica negra e empunhando uma espécie de bastão com símbolos pagãos. Imaginei a que tipo de religião ou seita infernal pertencia uma criatura como aquela.

Enquanto tentava entender o significado de tudo aquilo, ouvi ruídos provindos do jardim. Inicialmente, imaginei que fossem gatos, dado o avançado da hora, mas posteriormente os sons se tornaram mais nítidos: pareciam passos. Além disso, uma luz estranha dava a impressão de estar se aproximando. Rapidamente, marquei a página no livro, fechei-o e corri em direção &agrafe; janela. A luz foi então enfraquecendo e os passos se tornaram mais distantes, mas, ao fundo,pude observar, de encontro à luz bruxuleante, um sujeito vestindo uma túnica preta parecidíssima com aquela do ser da figura, no livro.

-"Não, não pode ser!!" , pensei comigo. Era absurdo demais para ser verdade. Mas, afinal, era eu um jornalista ou não? Tentei conter o medo que se instaurou em mim naquele instante; pensei na oportunidade única que eu estava tendo e até em uma possível promoção no jornal. Por isso, antes que o sujeito desaparecesse na escuridão, apressei-me em guardar bem o livro, fechar o quarto e sair às ruas, na tentativa de perseguí-lo.

Discretamente, segui a criatura por várias ruas (que, a essa hora, estavam desertas). Na encruzilhada próxima ao cemitério da cidade, o ser fez uma pausa, como se estivesse reverenciando o lugar ou soubesse que eu estava atrás dele. O tempo foi suficiente para eu me aproximar mais e observá-lo mais de perto: realmente, ERA o mesmo ser do livro, mas muito mais horrendo. Seus pés de dinossauro não tocavam o chão, o que levou-me a crer que aqueles passos que ouvi no jardim eram apenas para me chamar a atenção. A túnica negra possuía um emblema igual ao da ponta do bastão que ele empunhava, que por sua vez brilhava com uma estranha luz avermelhada.

Após a súbita interrupção, continuamos a caminhar. A cada passo, meu medo só aumentava. Imaginava para onde a criatura estava indo, se existiam mais delas, a qual deus elas adoravam, se eu seria descoberto, etc. Seguimos por uma estrada mal iluminada, até a entrada da floresta do norte, da qual a bibliotecária havia me falado. Continuamos andando pela floresta mais alguns quilômetros (agora, com mais cuidado, pois o chão estava coberto de folhas secas, e qualquer passo em falso despertaria a atenção do ser - como se ele não soubesse que eu estava atrás dele...). Eu já estava ofegante; apesar de minha pouca idade, havia andado uns bons quilômetros. Ao chegar em uma clareira, a criatura se deteve, ergueu o bastão o mais alto que pôde e gritou algumas palavras incompreensíveis.

Foi aí que aconteceu: na clareira, apareceram dezenas de seres humanos (alguns dos quais eu conhecia e até havia conversado). Uma luz misteriosa fortíssima apareceu no céu, iluminando aquela cena aterradora. Com mais algumas palavras do ser de túnica negra (que parecia ser o líder do grupo), aconteceu a metamorfose: aqueles seres humanos transformaram-se em uma massa disforme, com membros aparecendo e sumindo constantemente. Naquele instante, a luz no céu deu lugar a uma imensa imagem de um rosto demoníaco.

Eu estava estático, aterrorizado. Havia deixado cair minha máquina fotográfica e o mapa que fiz às pressas, enquanto perseguia o ser. Quando pensei em virar as costas e ir embora daquele lugar maldito, ouvi uma voz macabra, espacial, que disse:

-Minha hora ainda não chegou. Por enquanto, permaneçç;o em estado letárgico nas profundezas da Terra, mas continuo vivo. Continuem me adorando; em breve, a Terra toda será minha, e aqueles que se opuserem a mim serão destruídos!!

Ao ouvir isto, meu sangue gelou. Pensei em virar para trás para saber quem (ou o que) estava falando, pegar minha máquina fotográfica e registrar tudo aquilo, mas só a lembrança daquele rosto no céu escuro e das massas disformes capazes de se transformar em seres humanos deixou-me em um estado em que meu corpo não obedecia mais aos comandos do cérebro. A única coisa que consegui fazer, com muita dificuldade (e que foi a última atitude sensata de minha vida) foi deixar tudo lá mesmo, andar vagarosamente na direção oposta àquela clareira e, quando estava a uma distância segura daquilo tudo, pus-me a correr freneticamente, como nunca havia corrido em toda minha vida, de volta ao hotel. Imediatamente, fiz minhas malas, peguei aquele livro maldito, deixei-o na porta da biblioteca (que estava fechada), tomei uma condução e voltei para minha cidade.

Até hoje lembro-me com facilidade da capa do livro e daquele rosto infernal nos céus de Miskatonik. Imagino se aquele ser de túnica preta sabia ou não que eu o estava perseguindo e, se sim, por quê ainda não me encontrou. Imagino se aquele rosto realmente pertence a algo vivo, se realmente se encontra nos abismos profundos da Terra e de que forma poderá retornar. Enquanto aguardo este dia (espero não estar vivo até lá), fico aqui, neste hospício úmido e frio, rezando para que ninguém mais vá a Miskatonik em busca do maldito NECRONOMICON.