quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Crônica - Vampiro e Lobisomem - Cap 8

Continuando, aqui está mais uma parte da crônica Vampiro e Lobisomem. espero que continuem lendo e gostando.

Crônica Vampiro e Lobisomem Completa

Em Algum Lugar do Passado

Enquanto caminhavam rumo à cidade, Ísis tentou fugir várias vezes, mas Scott segurou-a pelo braço sem grandes dificuldades, não importando o que ela fizesse. Ísis acabou por desistir. Scott colocou-a no chão, dizendo com uma forte voz:

- Nem pense em fugir!

Ísis, pela primeira vez, presenciou uma mudança no comportamento de Scott e ficou com medo do que ele poderia fazer. Nunca fora tratada daquela forma por ele, Scott sempre fora carinhoso e nunca ousara levantar a voz. Essa mudança a teria transtornado por completo se ocorresse em sua infância, mesmo assim, não se deixou intimidar, mas preferiu ficar calada visto que palavras pouco ajudariam na situação em que estava.

Chegaram a uma pequena taverna e sentaram-se em uma mesa...

- Você vê aquele homem sentado naquela mesa? - perguntou Scott, ainda claramente nervoso.

- Sim. - respondeu Ísis.

- Quero que se alimente dele. Agora!

- Sim. Meu mestre! - respondeu Ísis, ironicamente.


Ísis foi lentamente na direção daquele homem. Enquanto caminhava, lembrou-se da promessa que fizera e não queria, de nenhuma maneira, quebrá-la. Ao mesmo tempo, pensava em como faria para salvar a vida do pobre homem, mas pensava, principalmente, em como faria para salvar sua própria alma.

Aquele senhor aparentava ter uns 40 anos. Tinha diversas cicatrizes em todo o corpo. Apesar de não ser muito jovem, estava em boa forma física. Seu olhar dizia, claramente, que era um homem sofrido e de grande sabedoria. Ísis encarou-o, sem dizer uma única palavra. O homem olhou-a nos olhos e disse:

- Posso ajudá-la, minha jovem?

Ísis nada respondeu. O homem, notando que ela estava nervosa, pediu-a para sentar-se. Ísis obedeceu, olhando para trás à procura de Scott. Ele a observava a uma certa distância. O senhor percebeu o que estava acontecendo e disse:

- O que aquele homem fez a você, minha jovem? Te machucou?

- Ainda não, mas vai. - respondeu Ísis, ansiosa.

- Então vamos a um lugar seguro! - respondeu, levando-a para fora da taverna. Scott deixou-os sair. Eles andaram até que a taverna sumiu de vista. O homem parou.

- Alguém nos segue? - o homem disse, quebrando o ansioso silêncio.

- Espero que não.

- Prazer. Sou Goth. E você?

Ísis assustou-se, pois o nome daquele homem era igual ao de seu pai, mas respondeu naturalmente, já que o mundo é feito de coincidências:

- Prazer. Sou Ísis.

- Belo nome. O que ele queria com você?

- Não importa. Aproveite o tempo que tem. Fuja enquanto está vivo!

- O que é isso?! Estou aqui para te ajudar!

- Não teime, meu senhor! Corra!!

Ísis gritou tão decididamente, que chegou a assustar o homem, o qual saiu caminhando rapidamente. Vendo-se livre dele, ela tentou esconder-se de Scott. Corria em direção a uma casa, quando Scott apareceu, do nada, à sua frente.

- Buu! - gritou com um irônico sorriso na face.

Se Ísis ainda estivesse "viva", teria morrido de enfarte naquele instante, e chegou a cair no chão.

- Onde pensa que vai? Tem que matá-lo! Agora!!

- Não!! Não pode me obrigar a matar! Não sou como você!!

- Ah é!? Quer dizer que já está como Edgard?! Traidora!

- Seu carniçal!! Não quero ser como você!

- Ah! Mas vai! Por bem ou por mal!

Scott descontrolou-se e esbofeteou Ísis que caiu, novamente, no chão.

- Obedeça-me ou morrerá!!

- Então me mate!!

- Se é isso o que você quer!

Scott cravou suas unhas no pescoço de Ísis e levantou-a. Ísis debatia-se, mas de nada adiantava. Enfim, arremessou-a, covardemente, contra a parede. As costelas da jovem quebraram-se e por já estar sem sangue, devido à surra que levara anteriormente, não pôde curar-se e nem sequer levantar-se. Scott agarrou-a, novamente, pelo pescoço.

- Engraçado como o amor e o ódio são sentimentos tão diferentes, mas tão próximos! Eu te amava! Agora te odeio mais que a morte! - disse em lágrimas de raiva - Como pôde fazer isso comigo?! Sua punição será a morte!!!

Scott esmagava o pescoço de Ísis quando de repente:

- Saia Satanás! Filho de Caim!!

Goth apareceu empunhando uma pistola e uma grande cruz de prata.

- O que é isso?! Quem você pensa que é?! - respondeu Scott num misto de surpresa e humor.

- Sou Goth! O enviado divino para matá-lo!!

Goth atirou e acertou bem no meio do peito de Scott que recuou um passo para trás. Scott, quase que instantaneamente, se curou e pulou em Goth.

- Acha que é enviado divino?! Como Deus vai te ajudar agora??

Goth respondeu inabalável:

- O senhor é meu pastor e nada me faltará!

- Não diga besteiras! Seu Deus não pode salvá-lo!

- Mesmo que caminhe no Vale da Sombra da Morte, não temerei mal algum, pois Tu, Senhor, está comigo!

Scott surpreendeu-se com a fé de Goth e mesmo querendo matá-lo, não conseguia. Algo o impedia... Medo, talvez. Pena, quem sabe!? Mas, principalmente, inveja. Uma inveja tão forte que o fez sentir pena de si próprio! Respondeu apenas:

- Cale-se! Vais morrer!!

- Nada temerei, pois Deus me dará a vida eterna e um lugar seguro em sua morada!!

A convicção com que Goth gritava era inabalável! Scott, que se encontrava desestabilizado, descontrolou-se por completo. A pena que sentia de si mesmo fez com que recuasse; sentia-se tremendamente culpado por tudo que já havia feito; sentia a mão de Deus tocá-lo naquele instante e que o momento em que finalmente pagaria seus pecados estava chegando; sentia, verdadeiramente, todo o fardo de Caim em suas costas. À medida que Goth falava, mais esse sentimento crescia e mais Scott afastava-se, a ponto de sair de cima dele.

- Pare com isso!!! - implorou.

- Em suas mãos entrego meu espírito, Oh, Meu Deus!

- Pare!! Te imploro! - gritou de joelhos.

- Resgata-me, meu Deus! Resgate a alma dessa pobre criatura!

Falando isso, encostou a cruz na cabeça de Scott. Ela queimou sua testa e o vampiro caiu no chão, gritando e chorando de dor. Goth aproveitou que Scott distanciou-se, pegou Ísis e colocou-a nas costas.

- Não podemos ir agora! - gritou Ísis. - Temos de matá-lo!

- Não podemos! O efeito da reza não durará muito!

- Agora você verá quem é o Satanás! - disse Scott recompondo-se dos seus sentimentos, tentando levantar-se e sentindo o ódio em seu sangue como nunca.

Goth acerou-lhe outro tiro. Scott caiu novamente e Goth fugiu correndo com Ísis. Correu cerca de um quilômetro até uma humilde estalagem. Estava exausto e tinha de parar. A estalagem estava vazia; encontrava-se, ali, apenas um velho.

- Preciso de ajuda.

- No que posso ajudar, senhor?

- Vá até minhas fazendas e traga cinco bois e um machado.

- Cinco bois!? Vai matá-los senhor?

- Ande homem! Faça o que estou mandando!

O velho obedeceu e saiu correndo.

- Ísis. Você está bem?

- Estou. Afinal, quem diabos é você?

- Sou membro da Igreja que luta contra os hereges e bestas do inferno!

- Porque salvou minha vida?

- Não salvei ainda. Salvarei apenas com uma condição.

- Qual?

- Viverá se me contar tudo sobre os vampiros dessa região e, se possível, do novo mundo!

- Desculpe-me, mas sei pouco. Faz apenas uma noite que sou um deles.

- Conte-me como se transformou.

- Tudo está acontecendo tão rápido! Em uma noite minha vida tomou um rumo totalmente diferente! - após respirar profundamente, continuou - Morava com minha tia. Vivíamos em um vilarejo aqui perto quando fomos atacados por índios. Scott me salvou e transformou-me.

- Você disse que morava com sua tia. Onde ela está?

- Foi morta no ataque. Pobre Dorah...

- O quê???? Qual era o nome dela??

- Dorah.

- Meu Deus! Não acredito! Não pode ser coincidência! Não duas numa mesma pessoa! Você está viva! Disseram-me que morrera!

Goth pulou nos braços de Ísis e começou a abraçá-la e beijá-la. Ísis ficou meio confusa e não soube o que fazer.

- O que é isso?!

- Você tem de se lembrar! Você é a filha de Joann Buttler, não é?

Ísis entendeu então, aquele era seu pai; não se tratava de uma simples coincidência. Realmente o mundo era feito de coincidências, mas essa de encontrar seu pai no dia em que mais precisava foi mais do que ela jamais poderia imaginar. Todo o ressentimento que tinha sobre ele desapareceu. Abraçou-o fortemente. Ficaram parados, chorando abraçados, sem dizerem uma única palavra. Durante longos minutos, sentiu-se incrivelmente feliz e chegou a esquecer a dor de seus ferimentos.

- Perdoe-me. - disse Goth - A culpa é minha!

- Perdoe-me você! Tornei-me aquilo que mais odeia.

- A culpa é minha!! Se eu não tivesse fugido, isso nunca teria acontecido a você. Onde eu estava com a cabeça para deixá-la com Dorah!? Uma cortesã! Deveria tê-la deixado em um orfanato! Lá, mal algum poderia alcançá-la!

- Achei que você estava morto.

- Meu Deus! Eu te amo!!

Passaram algum tempo chorando e falando das experiências vividas por Ísis. O velho homem interrompeu-os, eram as vacas.

- Está com fome? - disse Goth.

- Não posso comê-las. Irei deixá-lo sem vacas, papai.

- Por minha filha faço tudo! De agora em diante, tirarei o tempo perdido! Não se preocupe, tenho muitas outras.

- Não posso.

- Ande. Prefiro que mate vacas a pessoas.

Ísis ficou feliz com as últimas palavras e percebeu que sua "vida", apesar de amaldiçoada, tinha, finalmente, ganhado uma finalidade e um rumo. Finalmente encontrou o amor que tanto procurava - com Edgard - e o carinho paterno, há tanto tempo perdido, reaparecia com Goth. Tinha certeza de que eles eram os únicos em quem podia confiar.

Ísis saciou-se após comer quatro vacas inteiras. Goth ficou impressionado com o apetite da filha e disse:

- Então é verdade o que diz a lenda. Vocês não se satisfazem com o sangue animal.

- Infelizmente é. Mas prefiro morrer a matar uma pessoa.

Goth sorriu a ela e, quando ia abraçá-la, foi interrompido por alguém que batia a porta.

- É ele! - disse Ísis - Tome cuidado!

Goth foi, cuidadosamente, até a porta, empunhando crucifixo e pistola...