segunda-feira, 24 de setembro de 2007

O Zen e a Arte Cavalheiresca de jogar o Tarot

Apesar de existirem um sem-número de receitas e sistemas explicativos do Tarot, percebo cada vez mais claramente como a arte de jogá-lo independe dos mesmos. Esses sistemas podem ser ser tanto de caráter extrínseco às cartas, tais como a cabala, a numerologia, o ocultismo ocidental do século passado, as loucuras de Crowley e sua Thelema (cópia deslavada da obra de um verdadeiro iniciado, François Rabelais, do século XVI, em especial os últimos capítulos de La vie très horrificque du grand Gargantua), ou sistemas de caráter intrínseco, exemplificados pela moderna tendência francesa de analisar esmiuçadamente os detalhes pictóricos de um baralho específico tido como iniciático, o oitocentista de Nicolas Conver de Marselha. Esses últimos autores acham que todos os detalhes desse baralho são extremamente significativos. Se fôssemos psiquiatras, poderíamos facilmente classificar o primeiro grupo como paranóico, e o segundo como obsessivo.

O primeiro grupo já foi devidamente tratado por autores como Michael Dummett, Cynthia Giles e também pelo autor brasileiro Nei Naiff; cabe a nós uma crítica, ainda que sumária, do segundo. Ora, eleger um baralho específico como O baralho iniciático é no mínimo ingênuo, e supor que portanto todos os seus detalhes pictóricos são terrivelmente importantes só se justificaria se a primeira hipótese fosse confirmada, isto é, de que o impressor Conver (e não Dodal ou Noblet, que produziram baralhos do mesmo gênero algum tempo antes) fosse um grande iniciado. No fundo, é a velha mitologia à la Papus/Lévi de que o Tarot encerraria cripticamente a soma total de uma sabedoria iniciática. Essa é outra hipótese romântica, não comprovada por pesquisas históricas.

É evidente que os Tarots de Marselha, que faziam parte de um jogo popular com regras estabelecidas (ver site de Jean-Claude Flornoy), contêm uma iconografia riquíssima em ressonâncias internas para quem as medita, para quem as contempla. Donde sua boa fortuna para além do simples jogo, a partir de Court de Gébelin (que não era um esotérico, diga-se de passagem). Mas inferir daí uma intencionalidade x ou y, isso fica por conta do freguês... Temos uma capacidade enorme de projetar nossos anseios no que vemos, o objeto tal como é percebido é quase sempre uma elaboração do sujeito que o percebe. Quando esse objeto é um símbolo, ou seja, algo que comporta não uma denotação mas uma conotação imensa, plural, nossas projeções tornam-se ainda mais férteis. Junte-se a isso a necessidade humana, demasiada humana (como diria Nietzsche) de estruturar o mundo, de dar significado e uma certa estabilidade ao fluxo amorfo do existente, e temos todos os tipos de explicações sistêmicas para o nosso pobre baralho de Tarot.


O que não se percebe é que o que estrutura uma mancia, uma arte adivinhatória, é algo bem mais simples, algo quase matemático. É necessário apenas elementos-base (pontos, búzios, cartas, grãos de café, unidades astrológicas), uma combinatória possível entre eles (gerando figuras geomânticas, tiradas, jogadas/spreads, mapas de astrologia horária), e regras mais ou menos consensuais de como interpretar tanto os elementos-base quanto as combinações lícitas (ou famílias de combinações). A pergunta natural seria: mas porquê funciona? Se é apenas uma combinatória, como pode dar respostas existencialmente significativas às nossas perguntas? Jung e Pauling chegaram bem perto, com seu princípio da sincronicidade, mas o problema é que esse princípio é para esses autores um postulado, uma constatação. Na minha opinião, esse princípio está fundado em algo maior.Esse algo maior é o Tao.

O Tarot (e qualquer outra mancia) funciona pois acessa o momento cósmico, o fluxo (amorfo, sem estrutura definível) do mundo. Na base do Tarot está a Magia, essa capacidade de comungarmos com consciência (pois estamos sempre em comunhão, mesmo se não o sabemos) com o fluxo do mundo. Esse fluxo, e o Tarot que o traduz em parte, dissolve as individualidades, e dissolve também uma temporalidade rígida. Há apenas o fluir, e esse fluir não é racionalizável ou especialmente compreenssível pela nossa mente. Quem pode compreender é o "coração" (no budismo zen chamado de coração-mente), pois esse "coração" (não se trata do afetivo comum) é o Todo, é a própria Mente do universo. Nesse sentido, a prática do Tarot é uma prática Zen, é uma prática mística e contemplativa.

Mestre Tokusan (742-865) está sentado em zazen na margem do rio. Um discípulo chega e, aproximando-se, pergunta:"Bom dia, Mestre! Como vai?" Tokusan interrompe seu zazen e, com o leque, faz sinal ao discípulo: "Venha... Venha!" E se levanta, e começa a andar, silenciosamente, calmamente, ladeando o rio, seguindo o fluxo da água... O discípulo, nesse instante, obtém o satori, a suprema iluminação.

Nota: Uma das implicações de tudo isso é o conceito de máquinas oraculares. Essas máquinas funcionam mesmo com um operador que casualmente aprenda o significado rudimentar dos elementos-base, e podemos até pensar numa máquina oracular funcionando sem operador algum, como é o caso, no meu entender, da astrologia, pois seus elementos-base estão sendo 'jogados' no céu sem nenhum operador humano... Como disse Fernando Pessoa, "Tudo é símbolo".

Nota da Nota: O meu uso do termo 'máquina' é uma metáfora para o funcionamento do próprio universo, nada tem a ver com máquinas propriamente. O universo é 'algo' que possui a propriedade de autoreferir-se simbolicamente. Ou seja, um objeto do universo é 'ele mesmo', mas também está simbolizando outro assunto ou objeto do universo. exemplo: o planeta Marte é ele mesmo, é "signo de si mesmo...". Além disso, astrologicamente esse planeta significa uma série de outras coisas, no mapa de fulano ou sicrano (ou beltrano) ele significará eventos e pessoas muito específicas. Donde Fernando Pessoa escrever: "Tudo é símbolo".Aliás é provável que o poeta tirou essa frase de um rito maçônico francês. O universo é portanto uma grande casa de espelhos, composto de mônadas se quisermos usar a linguagem de Leibniz (que aliás era um profundo conhecedor da literatura esotérica e alquímica, assim como Newton... não é à toa que Guénon escreveu um magistral Princípios do Cálculo Infinitesimal, mostrando o arcabouço metafísico e esotérico dessa disciplina); ou podemos utilizar o adágio gnóstico, mais antigo e alquímico, da Tábua de Esmeralda: "O que está em cima é como o que está embaixo, para a perfeição da Coisa Única". À cada época a sua linguagem, é por essa razão que utilizei a palavra 'máquina', no meu contexto ela fez as vezes de um neologismo.



Para saber mais visite o site:
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